domingo, novembro 25, 2012

Decisão da Justiça dos EUA sobre calote argentino agita mercado


Marcia Carmo
BBC Brasil

Ministro argentino da economia Hernan Lorenzino diz que país apelará de decisão americana

Ministro argentino da economia Hernan Lorenzino

O parecer de um juiz do tribunal de Nova York indicando que a Argentina pague um resíduo da dívida sobre a qual declarou calote em 2002 até o próximo dia 15 agitou o tabuleiro político e financeiro argentino nesta quinta-feira. O mercado foi tomado por especulações de que o país poderia voltar a cometer calote.
A decisão judicial americana determina que a Argentina pague cerca de US$ 1,3 bilhão (R$2,7 bilhões) a dois fundos de investimentos até o dia quinze de dezembro.

"Após a decisão do juiz de Nova Iorque os títulos do país desabam mais de 13% e o índice Merval (da bolsa de Buenos Aires) cai 4%", publicou o jornal El Cronista, de Buenos Aires, em sua edição on line. Segundo o periódico, o mercado financeiro teme "um calote técnico" da Argentina. Também em sua edição on line, o jornal La Nación publicou: 'Títulos públicos argentinos desabam por decisão de juiz de Nova Iorque'.

O ministro da Economia, Hernán Lorenzino, disse que a Argentina apelará na próxima segunda-feira na Justiça dos Estados Unidos e em fóruns internacionais. "Recebemos a informação da decisão do juiz de forma pouco usual, via e-mail, tarde da noite, e na véspera de feriado nos Estados Unidos. Não achamos justo e legal pagar a estes fundos de especulações. Seriamos injustos com os que aceitaram pagamentos com descontos para que a Argentina voltasse a crescer".

Herança
A Argentina declarou o calote da sua dívida em 2002, em meio a uma crise política e econômica. Três anos mais tarde, em 2005, já no governo do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007), o país tentou resolver a questão oferecendo pagamentos com descontos aos que tinham investido nos papéis argentinos e tinham sido alvo do calote. Mais de 90% dos credores aceitaram a proposta do governo, aceitando abatimentos acima de 70% e pagamentos em 30 anos. Porém, a minoria que a rejeitou vem gerando dores de cabeça para o atual governo da presidente Cristina Kirchner nos tribunais internacionais.


Veleiro argentino Libertad, usado para
 instrução de marinheiros, está apreendido em Gana

No mês passado, esses fundos conseguiram a apreensão da fragata-escola símbolo do país, a Libertad, parada num porto de Gana, na África. Quase trezentos marinheiros, incluindo um brasileiro, tiveram que retornar a Buenos Aires de avião. A tripulação do navio vinha evitando algumas rotas temendo esse tipo de ação - que também pode afetar outros bens do país.

A presidente Cristina Kirchner e seus ministros afirmaram, em diferentes ocasiões, que o país não pagaria ao que eles chamam de "fundos buitres" (de especulação). As declarações teriam motivado a decisão do juiz, que surpreendeu o governo argentino. "É da opinião desta corte (de NY) que estas ameaças de desafio não podem ser ignoradas e se requer uma ação", teria escrito o juiz na sua decisão, segundo jornais on line da Argentina. "Uma presidente pode sim se parar diante de grupos financeiros", afirmou Lorenzino.

'Sinuca'
Para especialistas, a interpretação do mercado financeiro é a de que a Argentina estaria em uma "sinuca" e por isso o dia foi "agitado". A expectativa agora é saber se a apelação que a Argentina fará será acatada. O economista Matias Carugati, da consultoria de política e de economia Management & Fit, e um operador do mercado financeiro de um banco estrangeiro, que pediu o anonimato, disseram à BBC Brasil que a Argentina tem o dinheiro para pagar US$ 1,3 bilhão, mas que vive agora um "impasse", "uma sinuca”.

"Se o governo pagar esta dívida, abrirá a brecha para que outros que aceitaram o pagamento (com descontos) também reclamem pagamentos maiores na Justiça, o que complicaria e muito o caixa do governo. Mas se o governo não pagar o que o juiz manda, a Argentina estará tecnicamente em default", disse Carugati. "Os títulos caem porque especula-se que a Argentina pode entrar em default de novo. Além disso, se pagar o que o juiz manda estará defraudando os que aceitaram aquele pagamento com descontos", disse o operador do mercado financeiro.

Em 2002, especialistas afirmaram que aquele havia sido "o maior calote da historia do capitalismo". A partir de 2003 e pelo menos até 2008 a Argentina registrou forte expansão da sua economia, definida como "crescimento chinês" devido aos índices em torno dos 8% anuais. O líder do governo na Câmara de Deputados, Agustín Rossi, disse nesta quinta-feira que o parecer do juiz é "uma afronta". O deputado opositor Claudio Lozano apoiou a postura do governo, dizendo que "não se deve pagar aos fundos de especulação".