sexta-feira, novembro 09, 2012

Equipe econômica de Obama vai mudar, mas dólar seguirá fraco


Alex Ribeiro 
Valor

Os dois homens fortes da política econômica de Barack Obama, Timothy Geithner e Ben Bernanke, não pretendem acompanhar o presidente reeleito durante todo o seu segundo mandato. Ainda assim, deverá seguir intacta nos próximos anos a combinação de política monetária frouxa, contenção fiscal e enfraquecimento do dólar, responsável pelo lado americano da guerra cambial, que gera valorização das moedas em relação ao dólar..

Obama foi reeleito anteontem com folgada margem no Colégio Eleitoral e boa liderança sobre o republicano Mitt Romney no voto popular, contrariando a sabedoria convencional de que presidentes americanos estão fadados à derrota quando a taxa de desemprego está muito acima de 7%. Há quatro anos, ele tinha capital político suficiente para aprovar um programa de estímulo de US$ 800 bilhões, mas agora o presidente americano navega num caminho político mais estreito, que envolve corte de gastos e aumento de impostos para controlar a crescente dívida pública.

A economia será comandada por novas faces. As apostas são de que Geithner deixe o Departamento do Tesouro assim que for costurada uma solução no Congresso para o chamado "abismo fiscal", um conjunto que cortes de gastos e aumento de impostos que entram em vigor automaticamente em janeiro, caso não seja negociada uma alternativa com os congressistas, e que ameaça empurrar a economia americana para uma nova recessão.

O mais cotado para substituir Geithner no Tesouro é Jack Lew, que ocupa atualmente cargo equivalente ao de ministro da Casa Civil no governo Obama.

Sem contar com a concretização do cenário catastrófico do "abismo fiscal", o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma consolidação fiscal nos Estados Unidos de cerca de 1,5 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano. Isso é suficiente para aprofundar a tendência de desvalorização do dólar pelo mundo.

Já Bernanke não estaria disposto a buscar um terceiro período como presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) quando o seu mandato atual terminar, em janeiro de 2014. A reeleição de Obama amplia as chances de escolha de outro nome comprometido com a política monetária frouxa, outro motor da desvalorização da moeda americana.

"Inevitavelmente, continuaremos a ter uma politica monetária bastante relaxada pelos próximos anos, a menos que a economia se recupere antes do previsto", afirma Edwin Truman, pesquisador sênior do Peterson Institute of International Economics, com passagens pelo Fed e pelo Tesouro. "É o que vai acontecer independentemente de quem seja o presidente do Fed."

A presidente Dilma Rousseff tem acusado o governo dos Estados Unidos de tentar sair da crise atual por meio da desvalorização de sua moeda, que estimula o crescimento econômico por meio do aumento das exportações. A queixa não é apenas contra os juros baixos e a emissão de moeda pelo Fed, mas principalmente pela falta de estímulos fiscais, sobrecarregando a política monetária.

Para Truman, os efeitos da política monetária sobre o dólar são dúbios. Os estímulos ajudam a fortalecer a economia doméstica, ampliando a demanda por produtos importados nos Estados Unidos. Estudos de organismos como o FMI, pondera, sugerem que seus efeitos negativos da política do Fed sobre as taxas de câmbio de outros países não são tão fortes como os alegados.

O Brasil tem um déficit comercial anual de pouco mais de US$ 5 bilhões com os Estados Unidos. Em visita a Washington há algumas semanas, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, observou que o resultado negativo vem caindo. Foram mais de US$ 8 bilhões em 2011.

O governo americano, de outro lado, acusa o Brasil de protecionismo comercial. O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), Ron Kirk, mandou uma carta recentemente a Patriota reclamando do aumento das tarifas de importação brasileiras. Kirk é outro integrante da equipe econômica americana que já anunciou que não pretende continuar no segundo mandato de Obama.

Geithner é o principal executor da política de pressão sobre a China para que o país valorize a sua moeda, o yuan, outra faceta da guerra cambial. Ele evitou a atitude radical, defendida por Romney, de declarar que o país asiático manipula sua moeda. Graças à tática de fazer pressão de forma discreta, o yuan vem se valorizando lentamente ante o dólar ao longo dos anos. O Brasil, que está na zona de influência da moeda americana, é um dos beneficiados, já que isso evitar o aprofundamento dos desequilíbrio de suas trocas com a China, baseada na importação de produtos industriais e exportação de produtos básicos.

A pressão sobre a China deve continuar, a despeito da saída de Geithner do Tesouro. "Essa é uma política definida pelo presidente Obama e pela Casa Branca, embora o Tesouro seja convidado a opinar", afirma Truman. "Ela vem dando certo e seria uma surpresa qualquer mudança."

Passada as eleições, é esperado que finalmente o governo Obama mande para o Congresso um dispositivo que aprova o realinhamento das quotas no FMI, que deverá levar ao aumento do poder de voto de países emergentes no organismo, incluindo o Brasil. Para implementar o acordo, negociado em 2010, que envolve aporte de recursos no Fundo, falta basicamente a aprovação dos Estados Unidos, o maior sócio do Fundo.

Durante a campanha eleitoral, em que a oposição republicana acusou o governo Obama de aumentar o endividamento público, não havia clima político para aprovar uma medida que representa uma nova despesa fiscal. A expectativa é que o projeto seja analisado até o fim do ano, antes de assumir a bancada eleita anteontem.