sexta-feira, janeiro 25, 2013

3 medidas simples e eficientes para a infraestrutura


Humberto Maia Júnior
Revista Exame

A redução dos gargalos da infraestrutura não precisa esperar por grandes obras. Três exemplos mostram que, com medidas básicas e inteligentes, é possível obter ganhos de eficiência em pouco tempo e aumentar a nossa competitividade

Germano Lüders / EXAME
Porto de Santos, em São Paulo: falta lógica na ordem dos contêineres

São Paulo - Há milênios existe a ideia de que grandes governantes se tornam eternos pela realização de grandes obras. Tome-se como exemplo Adriano, imperador de Roma entre os anos 117 e 138. Um construtor nato. Foi responsável por abrir estradas, por criar cidades e pela reconstrução de monumentos como o Panteão Romano (que resiste até hoje). Entrou para a história como um dos "cinco bons imperadores" da Roma antiga. No Brasil, o presidente Juscelino Kubitschek foi imortalizado ao construir Brasília.

De vez em quando, porém, é bom haver um governante que abdica da história em prol da simplicidade — e da eficiência. Grandes obras, afinal, não são a única saída para melhorar a infraestrutura de um país. Com inteligência, é possível reduzir problemas e tirar mais proveito do que já existe. Sem negar a necessidade de obras que o Brasil sofre, as próximas páginas mostram exemplos de como melhorias de gestão e "ajustes finos" podem ajudar a diminuir gargalos da infraestrutura que minam a competitividade das empresas.

1 Ganho de eficiência no manejo de carga
O porto de Hamburgo, na Alemanha  é um modelo de  excelência em suas operações. Um navio tem hora marcada para chegar, desembarcar e partir. Tudo isso leva um dia — no Brasil, a média é de 5,4 dias. O desembarque das cargas é quase todo robotizado. Por hora, são movimentados 52 contêineres por navio — mais que o dobro da média brasileira, 20.

Falta muito para chegarmos ao nível alemão, inclusive na infraestrutura física. Nossos portos não têm capacidade para grandes navios, o acesso a eles por estradas é difícil e carecemos até de espaço para armazenagem de cargas. Mesmo com esses problemas, é possível acelerar a movimentação de contêineres nos portos brasileiros em 35%, para 27 unidades por hora por navio, usando apenas tecnologia da informação.

Basta dotar os portos de programas de controle de alocação dos contêineres. Como funciona: atualmente, as cargas saem dos navios e são depositadas no pátio do porto sem que seja considerado o tempo que lá ficarão. Uma carga que será despachada em alguns dias pode ir para o topo de uma pilha de contêineres que vão ter de deixar o porto em poucas horas.

Para retirá-los, é preciso mover o caixotão recém-chegado. Um processo nada lógico. O software evita a movimentação desnecessária ao determinar a melhor posição para a estocagem das cargas. “O sistema pode gerar um ganho imediato de produtividade”, diz Peter Wanke, coordenador do Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2 Mais energia sem novas turbinas
Quando se fala em resolver os problemas de abastecimento de energia no Brasil, o assunto invariavelmente recai sobre a construção de hidrelétricas, parques eólicos ou usinas nucleares. Aumentar a demanda de eletricidade num país que quer crescer é indispensável. Construir novas usinas, porém, não é a única solução. É possível aumentar a oferta sem montar um único gerador.

Como? Modernizando a infraestrutura existente. Nosso parque tem usinas com mais de 20 anos de funcionamento. Algumas não operam com plena capacidade. Com reformas e troca de peças, é possível ampliar a capacidade de geração em 600 megawatts, segundo estudo da Empresa de Planejamento Energético, subordinada ao Ministério de Minas e Energia.

Estima-se que a modernização custe até 1,4 milhão de reais por megawatt, um terço do custo da construção da hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho, Rondônia. Outros 4.000 megawatts podem ser obtidos com a troca dos fios de distribuição de eletricidade nas grandes cidades, calcula o físico José Goldemberg, ex-presidente da Companhia Energética de São Paulo.

Manutenção na rede elétrica: fiação velha causa perda de energia

"Sairia mais barato do que construir uma usina desse porte", diz Goldemberg. O ganho com a modernização das usinas e da fiação, de 4.600 megawatts, seria suficiente para atender ao consumo da cidade do Rio de Janeiro.

3 Tornar o embarque nos ônibus mais ágil
A cada ano, o trânsito rouba 56 bilhões de reais do PIB da cidade de São Paulo, estima o economista Marcos Cintra, da Fundação Getulio Vargas, e atazana a paciência de quem enfrenta ruas congestionadas e transporte coletivo lotado. Aumentar a mobilidade na maior cidade brasileira é tarefa hercúlea e exige bilhões de reais em investimentos. Mas uma pequena intervenção pode melhorar o dia a dia de quem toma ônibus.

É uma ideia tão simples que é difícil entender por que não emplacou em São Paulo: instalar, nos pontos de parada, catracas para a cobrança de tarifas, operação que hoje é feita dentro dos veículos. Explica-se: nos horários de pico, uma fila de passageiros se forma para o embarque. Enquanto todos não entram, o ônibus não parte.

Atrás dele, há outros veículos. O efeito é uma lentidão em todo o corredor. A velocidade média nos corredores paulistanos é de 15 quilômetros por hora e pode cair à metade nos momentos de maior demanda. Segundo Adalberto Maluf, diretor da Fundação Clinton no Brasil, tirar as catracas dos ônibus pode aumentar a velocidade média em 25%.

"O embarque nos horários de pico pode levar até 2 minutos nos pontos mais movimentados", diz Maluf. "É possível reduzir isso a segundos sem grandes investimentos." Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba que implantou corredores na capital paranaense nos anos 70, diz que cobrar a tarifa fora dos ônibus é uma forma de dar ao transporte sobre rodas desempenho parecido com o do metrô. Em Curitiba, mesmo nos horários de pico, a velocidade média não cai dos 20 quilômetros por hora. Nenhum governante entraria para a história tomando uma medida como essa. Mas que a população agradeceria, agradeceria.