sexta-feira, janeiro 25, 2013

A dimensão do perigo jihadista na África


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Para a revista inglesa 'The Economist', intervenção na África "não precisa ser tão longa, nem tão desacreditada" e pode aliviar a miséria de milhões de pessoas, se contar com um plano concreto de desenvolvimento

Joe Penney/Reuters 
Crianças observam van parada em um posto 
de controle militar em Bamako, Mali

Na semana passada, um sequestro de centenas de funcionários em uma usina de gás da cidade de In Amenas, na Argélia, chamou a atenção do mundo a evolução da ameaça terrorista na região. O atentado, atribuído ao grupo islâmico Batalhão de Sangue, foi considerado uma reação dos rebeldes ao apoio do governo argelino à intervenção francesa no Mali. No início desta semana, um representante de Mokthar Belmokthar, o terrorista que comandou o ataque à usina, fez ameaças à França, considerando o ataque ao complexo como um "sucesso" e prometeu mais ações contra os ocidentais no futuro. Análises publicadas na imprensa internacional mostram que o perigo é ascendente e que o assunto é, cada vez mais, de interesse global.

A revista inglesa The Economist lembra que os "ecos" do Afeganistão soaram no início do mês, quando as forças francesas iniciaram a intervenção contra o terrorismo islâmico no Mali, e na última semana, quando um dos grupos que atuam no país norte-africano liderou o sequestro de centenas de pessoas, muitas delas ocidentais, no campo de gás na Argélia. “Após 11 anos travando guerras contra o terror no Afeganistão e no Iraque, quase 1,5 trilhões de dólares em custos diretos e centenas de milhares de vidas perdidas, os ocidentais sentem que aprenderam uma dura lição. Estão mais convencidos do que nunca de que mesmo a intervenção estrangeira mais bem intencionada acaba mergulhando seus soldados em guerras intermináveis contra inimigos invisíveis para ajudar habitantes ingratos”, diz o texto.

Intervenção - 
Porém, a reportagem ressalta que seria ingênuo pensar que a instabilidade que se estende da Somália e do Sudão, no leste, até o Chade e o Mali, no oeste, seria “mais um Iraque ou Afeganistão”. Para a revista, as lições dessas guerras não devem desencorajar os estrangeiros a ajudar a acabar com conflitos perigosos como o do Mali. "Embora qualquer intervenção sempre venha acompanhada de riscos, na África ela não precisa ser tão longa, nem tão desacreditada", diz a Economist. Vale lembrar que na África um grande e crescente número de muçulmanos não são alinhados com o jihadismo. Mas, no longo prazo, o Saara só vai ficar mais estável quando se tornar próspero. E o Ocidente pode estar cometendo um grave erro se evocar as dificuldades da intervenção como uma desculpa para abandonar a população local.

O norte da África é um grande produtor de petróleo e gás. Fechar empresas na região seria uma grande perda para os ocidentais - uma das razões que levaram François Hollande a enviar suas tropas ao Mali, além de proteger pelo menos 6.000 franceses que moram ali. Além disso, se os jihadistas já lutam para implantar uma campanha de terror sobre a Europa e os EUA, isso pode se acentuar se um dia conseguirem controlar os recursos naturais da região inteira. “O melhor é mantê-los no deserto”, afirma a Economist. Apesar dos fatores egocêntricos, a revista defende que uma intervenção curta poderia aliviar a miséria de milhões de pessoas, se contar com um plano concreto de desenvolvimento para depois que o conflito for encerrado. “Até agora, a atuação de Barack Obama, que recebeu um pedido de ajuda de Hollande no Mali, foi fria, tardia e insuficiente”, diz a reportagem. 

Ameaça global - 
Neste momento, destaca a Economist, a ameaça direta dos jihadistas do norte da África é predominantemente local. Mas é sabido que os terroristas espalhados pelo mundo tentam radicalizar os jovens muçulmanos, que buscam inspiração em redes como a Al Qaeda, dando às suas queixas locais uma amplitude muito maior, baseada em ideais extremistas. Uma vez criada, essa proximidade incentiva a replicação da mensagem de hostilidade ao Ocidente e seus amigos da própria África. Consequentemente, os muitos serviços de segurança mal treinados na região podem acabar alimentando a insurgência com sua brutalidade. "Ao longo de anos, uma insurgência islâmica radicalizada, armada e treinada pode trazer danos imensuráveis para uma parte frágil do mundo."

Segundo a agência Stratfor, atualmente a Líbia é o país da região com mais riscos de sofrer atentados. "A Líbia é o estado mais fraco nas regiões do Magreb e Sahel", diz a agência, destacando como problemas a quase total ausência de controles de fronteira e serviços de inteligência e a presença de diferentes grupos jihadistas na região, junto com grupos armados subnacionais, etnicamente alinhados, "todos competindo pela defesa do território, pela pilhagem de armas e se vendendo pelo maior lance".

De fato, nesta quinta-feira, governos europeus alertaram seus cidadãos para  uma "ameaça" contra os ocidentais na cidade líbia de Bengasi e pediram a eles que abandonem a região. No dia anterior, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, também chamou a atenção para a crescente militância islamita surgida depois da Primavera Árabe, ao se pronunciar no Senado sobre o  atentado contra o consulado dos Estados Unidos em Bengasi de setembro de 2012.