quinta-feira, maio 09, 2013

Morro acima, morro abaixo


Pedro Luiz Rodrigues
Blog Cláudio Humberto

Atenção marqueteiros do governo, novos desafios vos aguardam. No caminho morro acima, o clima foi quase o de uma procissão, com a exaltação e canto de louvores ao grande dirigente que conduziu o Brasil à terra prometida do desenvolvimento sustentável e da justiça social.

Um sinal irrefutável de que os ventos passaram a soprar enviesados chega-nos com a notícia de que nos primeiros quatro meses de 2013 amargamos um baita déficit em nosso comércio externo: 6,15 bilhões de dólares.

Um ocasional déficit no comércio não é necessariamente assustador. Mas temos de olhar necessariamente para o que vem acontecendo com as transações correntes do balanço de pagamentos. Aí os dados relativos a abril ainda não estão disponíveis, mas os de março já dão um frio na coluna: déficit de 6,9 bilhões de dólares no mês; déficit de 67 bilhões de dólares no acumulado de doze meses.

O número, escrito assim, pode não impressionar. Coloquemo-lo em algarimos: 67.000.000.000,00 de dólares (mais ou menos 134.000.000.000,00 de reais), o que significa praticamente 3% de nosso Produto Interno Bruto.

Também essa cifra não seria por si só razão para grandes temores, se estivéssemos crescendo, se investimentos estivessem sendo feitos em infraestrutura e na aquisição de bens de capital.

Há muitas desculpas em circulação, mas não há razão para se acreditar nelas.  Há meses se explica os gigantes níveis de importação de petróleo à manutenção de plataformas. Que manutenção é essas que demora tanto tempo?  Na maravilhosa propaganda da Petrobras não se toca no assunto.

Há dez anos os cofres públicos pagam rios de dinheiro para a repetição da ladainha, verdadeiro mantra, de que tudo mudou, e que essa mudança foi possível graças às políticas públicas e à boa governança.

É inegável que esse foi um período extraordinário para o Brasil, em boa medida devido à favorável conjunção de fatores externos (a explosão da demanda chinesa por produtos primários a partir do final de 2003) e internos (em particular, a mudança na estrutura da pirâmide demográfica, reduzindo a pressão na oferta de mão-de-obra jovem).

Mas agora, minha gente, chegamos ao topo de morro. À frente, o barranco. Assim é à vida fora do mundo da propaganda, com altos e baixos.

Poderíamos estar melhor situados se tivéssemos feito nesses últimos dez anos o que a Coréia faz desde a década de 1950: investir na educação, quantitativa e qualitativamente.

Como escreveu ontem Luciano Máximo, “uma sensação incômoda persiste no cotidiano de quem está diretamente envolvido com políticas educacionais brasileiras: melhoras em termos de qualidade são excessivamente lentas”.

O Plano Nacional de Educação que vigorou entre 2001 e 2010 não produziu resultados palpáveis. O PNE II (2011-2020) há dois anos e meio arrasta-se nos corredores do Congresso, sem perspectiva de aprovação.

As notícias boas nesse universo são apenas pontuais, como o exemplo, que já citei anteriormente, do município de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, onde melhor se ensina (e se aprende) a Matemática no Brasil. Por uma simples razão: lá a educação é verdadeiramente considerada uma prioridade.