Luciana Rodrigues
O Globo
Para diretor do IMD, mundo ficou mais dependente da economia americana
LAUSANNE (Suíça) – O Brasil será um dos países mais afetados pelo forte ajuste nos mercados financeiros, e este ajuste só começou, alerta Stéphane Garelli, diretor do Centro de Competitividade Mundial do IMD, uma das melhores escolas de gestão da Europa. A retirada dos estímulos nos EUA e seu impacto sobre os fluxos de capitais globais mostram que, passados cinco anos do início da crise financeira global, o mundo está ainda mais dependente da economia americana.
— O mundo ficou viciado em crédito barato e terá de se acostumar à normalidade, ou seja, ao fato de que o dinheiro não pode ser de graça, os juros vão subir — avalia Garelli. — Países como Brasil, Índia e Hungria, que têm grandes déficits em conta corrente, vão sofrer mais.
Garelli lembra que, com a Europa em crise, o Japão ainda tentando se reerguer e a China desacelerando, “estamos todos dependendo dos EUA muito mais que no passado”. Na China, acrescenta, enquanto o governo tenta forçar um aperto no crédito bancário, o que preocupa mesmo é o “financiamento nas sombras” — operações feitas ao largo do sistema oficial, sem supervisão das autoridades.
No IMD, Garelli coordena um ranking anual de competitividade global que mostrou uma piora do Brasil. Na edição de 2013, divulgada no fim de maio, o Brasil caiu da 34ª para a 46ª posição entre 60 países desenvolvidos e emergentes. O ranking usa 300 diferentes indicadores econômicos, sociais e de eficiência do governo, além de pesquisas de opinião com empresários.
‘Consumo pela primeira vez’
A fraca performance do Brasil nos últimos anos, para Garelli, é resultado de um crescimento baseado apenas no consumo privado, com aumento do endividamento das famílias.
— Numa economia emergente, o “consumo pela primeira vez” é muito forte, mas isso tem uma certa duração. Nos últimos três anos, o crescimento do Brasil veio com consumo e aumento da dívida. Em certo momento, as pessoas pararam de consumir e isso afetou o crescimento. Faltou coesão social, como mostram as manifestações recentes.