Adelson Elias Vasconcellos
O que muitos aqui no país, e lá fora também, não conseguem entender, é como pode uma manifestação de caráter nacional ter eclodido diante de um governo tão bem avaliado pelas pesquisas de opinião?
Seguindo esta questão, surge outro questionamento, e até o renomado e respeitado jornalista Juan Arias, do El País, se pergunta como um governo que, se diz, ter feito tanto para os pobres, pode sofrer agora tamanha rejeição?
Em linhas gerais, o que pode ser uma resposta, aliás são duas, é o perfil dos manifestantes. Quem vai às ruas são justamente aqueles que menos dependem do Estado, mas que tem sido ao longo dos últimos 10 anos, o que maior peso tem arcado com as políticas públicas. Falamos disto na segunda feira.
E, seguindo pela linha do perfil, é visível a ausência dos mais pobres nas manifestações. Não que não estejam insatisfeitos, porém sua pouca ou nenhuma mobilização se dá na esteira do crédito farto que lhes permite ter acesso a bens de consumo que, de outro modo, seria mantidos inalcançáveis.
Isto indica a necessidade que temos de refletir profundamente nas tais pesquisas de opinião. Regra geral, os institutos procuram alcançar pessoas de variadas faixas etárias, instrução e de renda, para que o universo coberto pelas pesquisas seja o mais amplo, indicando assim uma tendência pouco importando se negativa ou positiva.
Sempre que me referi a esta ou aquela avaliação realizada pelos institutos especializados, destaquei não brigar com os números, porque, entendo, que dentro deste “universo amplo” e a depender do peso de cada classe, o resultado não poderia mesmo ser diferente.
Porém, para quem não usa carro próprio para deslocar-se, fica difícil engolir determinados resultados, uma vez que o uso do transporte público nos permite conversar e, principalmente, ouvir o que se diz por aí.
Outro dado importante, já comentado, é o cenário de insatisfação que os resultados das eleições vinham apontando, chegando-se em 2012 a mais de um terço entre votos brancos, nulos e abstenções. Isto, num país em que o voto é obrigatório, convenhamos , é revelador de um desencanto maciço do eleitorado com a política.
Um dado que as pesquisas não revelam, é como se fragmentam as diferentes classes de pessoas sobre o total pesquisado. Ou seja, imaginando uma avaliação, digamos, de 2 mil pessoas, quanto representam sobre este total, cada faixa de renda, cada faixa etária e, o que é muito importante, quantos são beneficiários de programas sociais e o peso sobre o total de pessoas entrevistadas.
Imaginem, seguindo o total do exemplo, que entre as 2 mil pessoas pesquisadas, 50% sejam beneficiárias de programas sociais. Tal dado, por si só, indicará uma aprovação maciça do governante da hora. Como em todas as demais faixas de renda, sempre haverá quem aprove e desaprove o governo, não seria difícil atingir os índices de aprovação como os que Dilma obteve até março deste ano, mês em que se inicia um processo de queda e que ainda se mantém.
Daí porque, por outro lado, a avaliação final seja bastante positiva, e quando se vai ao campo dos serviços, poucos são os itens que conseguem vencer a barreira de 50% de aprovação.
Retomando as questões lá do alto, quem consegue comprar uma geladeira nova, ou fogão novo, mesmo que seu acesso à rede pública de saúde seja péssimo, mesmo que seus filhos estudem numa escola caindo aos pedaços, mesmo que, à noite, tenha que dormir embalada pela rajada de tiros cruzando o seu teto, e que tenha de conviver com o esgoto correndo à céu aberto ao lado de sua casa, vai se sentir confortável pelo acesso ao consumo que lhe permitiu viver com um pouco de conforto. Brincando, brincando, este contingente representa cerca de 70 milhões segundo dados do governo, o que acaba se refletindo tanto nas pesquisas quanto nas urnas . E este enorme contingente de brasileiros não está nas ruas.
Assim, aquilo que parece contraditório aos olhos principalmente dos analistas estrangeiros, quando olhado o cenários por seu detalhes menores, acaba se consumando numa realidade em que os fatores que influenciaram sua criação, estavam à vista de todos.
Dado o alarido das manifestações das duas últimas semanas, é evidente que os institutos de pesquisas (os sérios), estão tratando de readequar seus critérios para poder captar estas manifestações todas. Aqui, vai se ver uma queda de aprovação mais acentuada na classe média, e talvez pouca variação na classes D e E. No topo da pirâmide, haverá variação, mas não significativa. Se estas pontuações forem fruto de uma escolha mais equilibrada do universo entrevistado, então o resultado final vai refletir um cenário mais adequado àquilo que se ouve nas ruas. Porém, e por isso destaquei os “institutos mais sérios”, se apenas os índices forem ajustados para captar “os ventos” do presente, elas tendem a refletir um resultado irreal, mesmo que próximos dos demais institutos, porém obtidos de maneira a produzir, de “antemão”, uma avaliação final já predeterminada.
Assim, mais importante do que qualquer pesquisa que venha a ser feita sob o calor das passeatas, será observar a que se seguir, para avaliar, com correção, a tendência do eleitorado e as reais consequências que estas manifestações projetam para a campanha de 2014.
Fica claro que a aprovação maciça do governo Dilma pode ter sido fruto dos pesos desproporcionais, dentro do universo pesquisado, que se deu à cada classe de renda, por exemplo. Tal desequilíbrio justificaria perfeitamente o cenário de insatisfação atual não ter sido antevisto nas tais pesquisas de opinião, o que indica que, doravante, deveremos ser mais cautelosos e até mais exigentes quantas as informações que os institutos venham divulgar, justamente para que as pesquisas reflitam uma posição da realidade, e não se tornem instrumento tendencioso e manipulador da opinião pública.