sexta-feira, junho 14, 2013

Eike mostra a saída

Octávio Costa 
Brasil Econômico

Em março de 1980, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro foi palco de um rumoroso episódio envolvendo ações da Companhia Vale do Rio Doce. O negócio entrou para os anais da imprensa como "Caso Vale".

Eis a história. Aproximava-se o vencimento de operações do mercado futuro e o presidente da BVRJ, Fernando Carvalho, viu-se numa sinuca de bico. Apostara na baixa e vendeu a descoberto ações da Vale para entrega futura a preços inferiores aos do mercado à vista. Mas a tendência do mercado mudou e as cotações subiram.

O governo decidiu socorrer o corretor em apuros e mandou vender milhões de ações da Vale nos 15 minutos finais de um pregão, na tentativa de forçar a queda dos títulos. Muita gente comprou na baixa artificial e lucrou rios de dinheiro em cima da União.

Além do fracasso, a operação de salvamento transformou-se em escândalo nacional. Mas os tempos são outros. A Bolsa do Rio não existe mais e a Vale do Rio Doce, por obra de gênios do marketing, perdeu seu nome poético e tornou-se apenas Vale. O mercado ganhou dimensão internacional, ficou muito mais sofisticado e a CVM acumulou vasta experiência com as maracutaias dos intermediários e dos acionistas majoritários.

Pode-se afirmar, com absoluta segurança, que o mercado de ações, hoje, é mais técnico e sofisticado. Esse ambiente permite que empresas reforcem seu capital com ofertas públicas de ações e que os investidores façam suas aplicações sem correr riscos desnecessários, a não ser os de alta e baixa inerentes à renda variável.

Exatamente por que a década de 80 vai muito longe, causa espanto a venda de 70,4 milhões de ações da OGX pelo sócio controlador Eike Batista. Após uma série de más notícias sobre os resultados de exploração da petroleira, Eike mandou um recado tranquilizador para o mercado, assumindo o compromisso de injetar US$ 1 bilhão na empresa.

Mas, para surpresa de quem ainda acredita no sucesso do grupo X, o badalado milionário reduziu sua participação no capital de 61,09% para 58,92% e embolsou R$ 121,8 milhões. Obviamente, as ordens de venda, nos dias 24,27,28 e 29 de maio, deram sua contribuição para derrubar as cotações da OGX, agora em torno de R$ 1,00, o menor nível de sua história.

Analistas de investimentos só veem um motivo para a operação: Eike teve necessidade de realizar caixa. Ele exerceu um direito legítimo e não desrespeitou às regras, mas deu forte indicação sobre os rumos de seus negócios. "Uma venda nesse montante, em momento tão delicado da empresa, com ação tão depreciada, é um péssimo sinal que pode exacerbar a baixa das ações", comentou uma corretora.

"Parece uma decisão desesperada", disse outro gestor. Pelo sim, pelo não, o Deutsche Bank reforçou a recomendação de venda, apontando queda no preço-alvo de R$ 0,80 para R$ 0,70.

De janeiro para cá, as ações da OGX já caíram mais de 70%. Em pouco mais de um ano, segundo a revista americana Forbes, Eike Batista também viu sua fortuna se reduzir de R$ 70 bilhões para R$ 13 bilhões.

Se o próprio empresário está ressabiado, o que podem fazer os investidores comuns que confiaram na simbologia da letra X? Eles compraram a ações da OGX certos de que lucrariam no rastro da multiplicação da fortuna de Eike. Mas o investimento ameaça virar pó. E Eike, pelo visto, foi o primeiro a abandonar o barco.