terça-feira, julho 09, 2013

A queixa das massas: ‘Você abusou, tirou partido de mim, abusou’

Tribuna da Imporensa
Acílio Lara Resende, O Tempo

Desde as primeiras manifestações de rua, e mesmo ciente de que há nelas uma minoria de radicais (na direita e na esquerda), de aproveitadores, de bandidos ou trombadinhas, não me sai da cabeça a letra de uma das canções preferidas do grande Toquinho. De autoria de Antônio Carlos e Jocafi, a composição, de 1971, alcançou enorme sucesso. Foi gravada em vários países e, na França, ganhou o nome de “Fais comme l’Oiseau” e se tornou o hino do Partido Socialista. O compositor Michel Fogain foi o responsável pela sua versão (fala-se que, depois, de má-fé, a registrou em seu nome…): “Você abusou, tirou partido de mim, abusou”. E não é isso o que vêm fazendo, ao longo de anos, com o sofrido povo brasileiro, os nossos “adoráveis” políticos?

A presidente Dilma e o copresidente Lula, em primeiro lugar; o Congresso Nacional, em segundo; os governadores e as assembleias legislativas, em terceiro; e, por fim, os prefeitos e as Câmaras municipais, em quarto, são, em sua maioria, os responsáveis pelos maus-tratos de que tem sido vítima o povo brasileiro. Deixaram de lado a ideia de governo pelo povo e para o povo. Querem nos tutelar. São nossos representantes, eleitos por nós, mas pretendem ser, na verdade, nossos tutores e, como tal, tirar proveito dessa humilhante condição.

Seríamos injustos se não incluíssemos, no rol acima, o Poder Judiciário, em todas as suas esferas, como culpado também por essa insatisfação geral. E nem se precisa descer a detalhes, pois sua morosidade, além de injustificáveis privilégios, já explicaria sua inclusão.

PERDIDA NO TIROTEIO
E quem, leitor, terá sido o conselheiro da presidente quando ela, perdida em meio ao tiroteio de manifestações procedentes e justas, compareceu à televisão para nos dizer que as ruas precisavam de resposta urgente. Anunciou-nos, então, em reunião com governadores e prefeitos, cinco pactos: responsabilidade fiscal, reforma política, saúde, educação, transporte público e mobilidade urbana. E “propôs” ao Congresso Nacional, simplesmente, uma “constituinte exclusiva”. Uma excrescência jurídica! E governadores e prefeitos voltaram às suas bases infelizes, decepcionados e certos de que serviram, apenas, de bois de presépio: o que anunciava a presidente dependia só deles. Um desastre!

Com os burros n’água, a presidente, provavelmente aconselhada pelo seu marqueteiro, guru e vidente João Santana, “propôs” ao Congresso um plebiscito (medida de competência privativa do Poder Legislativo) sobre a tão propalada reforma política: fim da suplência de senador e do voto secreto, manutenção das coligações partidárias, forma de financiamento de campanha e sistema político. Outro desastre!

Não foi a reforma política, porém, que levou (e levará) o povo às ruas. Um plebiscito, agora, para quê? Para demonizar mais ainda o Congresso Nacional? Ou para, enfim, botar em prática algumas das inconfessáveis pretensões autoritárias do PT? Como confiar, leitor, num plebiscito sugerido por um governo que, até outro dia, tudo fez para aprovar, na Câmara, um projeto de lei casuístico, cuja única finalidade é impedir, por não lhe interessar, a criação da Rede Sustentabilidade?

“O preço da liberdade é a eterna vigilância!”

Valha-nos, Deus!