Giancarlo Lepiani, Veja online
Com reportagem de Celso de Campos Jr.
Copa das Confederações indica o caminho do que é necessário fazer nos onze meses que faltam para o Mundial. Aeroportos, hotelaria e serviços preocupam
Ivan Pacheco
Cerimônia de encerramento antes da final da Copa das Confederações
da partida de futebol entre Brasil e Espanha, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro
Apesar das deficiências reveladas pelo ensaio geral para 2014, o governo manteve o discurso otimista, apostando que a Copa está nos trilhos e será um retumbante sucesso. Mas admite que ainda há muito trabalho pela frente
Antes do início da Copa das Confederações, o torneio era visto como um teste importante tanto para o país-sede como para a seleção brasileira - a um ano do Mundial, nenhum dos dois estava pronto para o desafio monumental de 2014. Há uma semana, a competição terminava com o Brasil levantando a taça e empolgando o torcedor, dando pistas de que o time comandado por Luiz Felipe Scolari enfim encontrou seu caminho para disputar o título no ano que vem. Se a seleção passou no teste com uma convincente prova de força, o país atravessou as duas semanas do evento de maneira bem mais atribulada, em meio à maior onda de manifestações populares em décadas.
Os estádios, que antes eram uma grande preocupação, ficaram prontos a tempo e foram aprovados, ainda que com pequenas ressalvas. Restou a impressão de que ainda falta muito a fazer fora de campo, longe das arenas. O fluxo de visitantes estrangeiros recebidos durante o torneio foi extremamente pequeno - entre os torcedores, cerca de 3% do contingente total, uma fatia minúscula do público que lotou os estádios boa parte das partidas. Somados aos turistas do próprio país, que saíram de suas cidades para acompanhar os jogos de perto, não correspondem nem sequer a um quarto do público total da competição.
Daqui a um ano, será bem diferente. Pouco antes da Copa das Confederações, o governo brasileiro disse esperar pelo menos 600.000 visitantes no Mundial de 2014. E eles devem se preparar: ao longo do torneio do mês passado, alguns dos principais temores em torno da Copa se confirmaram, em maior ou menor escala, mostrando que o país ainda tem muito trabalho no prazo de pouco menos de um ano até o pontapé inicial, em 12 de junho de 2014, no Itaquerão, em São Paulo.
Apesar das deficiências reveladas pelo ensaio geral para 2014, o governo manteve o discurso otimista, apostando que a Copa está nos trilhos e será um retumbante sucesso. "O país foi cobrado a cumprir as tarefas nas áreas de segurança, tecnologia, transporte, aviação, hotelaria... E cumprimos esses desafios", disse o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ao fazer um balanço do evento, há uma semana, no Rio de Janeiro. Aldo admitiu que o Brasil não cumpriu "100% dos requisitos, assim como os outros países também não conseguem cumprir", mas avisou que a competição "foi importante para antecipar problemas e aperfeiçoar soluções que facilitem a organização da Copa".
O secretário-executivo Luis Fernandes, principal auxiliar do ministro, disse que a sensação depois do torneio "era a de dever cumprido, de realização exitosa". Ao fazer uma avaliação mais detalhada, contudo, Fernandes reconheceu que ainda falta muito a fazer. Sobre os aeroportos, por exemplo, disse que o sistema funcionou "a contento, sem colapso, com operação adequada, mas com necessidade de melhorias". Da mesma forma, admitiu que as obras na área de mobilidade urbana ainda não tiveram impacto positivo nas sedes, já que quase todas ficaram para o ano que vem.
O governo acha que a segurança foi o grande triunfo do ensaio de junho, já que o aparato montado para a Copa das Confederações foi testado sob circunstâncias extremas. "Tivemos êxito sob condições extraordinárias, operando totalmente fora da normalidade", disse Fernandes em referência aos protestos nas ruas. "Passamos o torneio todo sem um incidente mais grave na área de segurança, e isso é algo a ser registrado." Também presente à reunião que discutiu os erros e acertos o evento, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, elogiou a ação das forças policiais e militares: "Precisávamos de segurança e a tivemos", disse. Longe das câmeras e microfones, no entanto, Blatter e seus auxiliares ainda não relaxaram de vez - eles sabem que os onze meses que faltam para o Mundial serão de emoções tão fortes quanto as partidas da Copa das Confederações.
Seis pontos vulneráveis do Brasil em 2014
• Dores de cabeça nos aeroportos
No decorrer da Copa das Confederações, muitos visitantes reclamaram das falhas na infraestrutura aeroportuária brasileira. Em sedes como Belo Horizonte e Rio de Janeiro (Galeão), deram de cara com aeroportos em obras. Em Salvador, viram um terminal ficar cheio d'água após um temporal. E em quase todas as sedes, sofreram com pequenos transtornos que já viraram rotina para os passageiros brasileiros - e que fazem a experiência de voar no país ser muito mais desagradável. Exemplos: a constante troca de portões de embarque, que faz o viajante zanzar de um lado para outro nos momentos que antecedem o voo, e a longa espera nas esteiras de retirada de bagagens. Além da baixa qualidade dos serviços oferecidos em muitos aeroportos brasileiros, há um outro obstáculo para a Copa: ela está marcada para um período do ano em que muitos aeroportos, principalmente no Sul e no Sudeste, ficam fechados por causa da neblina. Garantia de fortes emoções para quem tiver voos marcados para os dias de jogos em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo (Congonhas) e Rio de Janeiro (Santos Dumont).
• Deficiências da aviação civil
Não é só na infraestrutura física que o setor aéreo preocupa. O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que o Brasil tem de oferecer voos em melhor número - e com melhores rotas - entre as doze sedes do Mundial. Referia-se às maratonas que os funcionários da entidade, torcedores, patrocinadores e correspondentes estrangeiros enfrentaram para se deslocar de uma cidade para outra entre as partidas, com constantes escalas em aeroportos como Brasília, Rio e até São Paulo, que nem sequer fazia parte do mapa da Copa das Confederações. As principais companhias aéreas do país dizem que estarão prontas para atender aos visitantes e dar conta da demanda em junho e julho de 2014. A responsabilidade é grande: com as longas distâncias entre as sedes (e a falta de alternativas encontradas em outros países, como os trens de alta velocidade), a aviação será a forma de deslocamento mais comum entre as cidades. Durante um mês, os voos entre as doze sedes ficarão totalmente lotados - e terão de funcionar como um relógio para não atrapalhar a vida dos envolvidos no megaevento.
• Formas de acesso às arenas
Os poucos turistas estrangeiros que vieram ao país para a Copa das Confederações logo constataram um problema comum na vida do torcedor brasileiro: nem sempre o acesso ao estádio é prioridade dos dirigentes e autoridades. Se nas grandes arenas dos países desenvolvidos há diferentes opções para ir ao jogo - o público costuma se dividir entre metrôs ou trens, ônibus e uso do carro particular -, algumas das sedes deixaram a desejar pela falta de alternativas (combinada, aliás, à localização pouco conveniente de algumas arenas). O caso mais emblemático é o de Recife, com um estádio distante demais, com apenas uma estreita via de acesso e com poucas vagas de estacionamento - ir de carro, portanto, é para poucos. Restava o metrô, mas a estação que serve à arena é distante, forçando o torcedor a pegar mais um ônibus para chegar. A viagem foi longa, mais de uma hora a partir da região onde estão concentrados os hotéis da capital pernambucana. Fortaleza, uma das principais sedes tanto em 2013 como em 2014, também deixa a desejar nesse quesito, preocupando os organizadores.
• Hotelaria pouco desenvolvida
O Brasil está longe de ser um dos principais destinos turísticos do mundo. Em decorrência disso, sua rede hoteleira nem sempre está à altura das expectativas dos visitantes. Na Copa das Confederações, pelo menos duas delegações reclamaram dos hotéis em que foram hospedadas, por falhas no serviço ou nas instalações. Os uruguaios, por exemplo, não gostaram de descobrir que seu hotel no Recife não tinha nem sequer uma sala de ginástica. Tiveram de ir procurar uma academia. E essa é a vida de quem fica nos hotéis escolhidos pela Fifa. Mais imprevisível ainda será a experiência dos turistas que tiverem de ocupar os quartos de estabelecimentos defasados e mal conservados, outro problema recorrente nas sedes. O investimento no setor é alto para o ano que vem. Ainda assim, os representantes da Fifa sabem que, se em número total de leitos o Brasil promete dar conta do recado e abrigar todos os visitantes, nos quesitos qualidade e atendimento ainda há muito a melhorar. Para piorar, existe o temor sobre o aumento repentino e abusivo das diárias cobradas no decorrer do período de disputa da Copa.
• Baixa qualidade de alguns serviços
O ministro Aldo Rebelo costuma dizer que o brasileiro é tão caloroso e simpático que transformará a estadia dos estrangeiros no país durante a Copa numa experiência sempre agradável e sem sobressaltos. Na prática, porém, não é bem assim. O setor de serviços se desenvolveu muito nos últimos anos, mas ainda está longe de atingir o grau de aperfeiçoamento dos países em que há maior fluxo de turistas. Nos hotéis, nos restaurantes, nas lojas e nos táxis, o visitante acabará, em algum momento, sofrendo nas mãos de funcionários pouco capacitados. Para complicar, ainda há a barreira do idioma, que persiste principalmente nas cidades pouco acostumadas a receber grandes números de estrangeiros. É um problema de difícil solução - e que reflete bem o atual estágio do Brasil na escala do desenvolvimento econômico. Falta pouco tempo para o Mundial, mas a qualificação e o treinamento de quem receberá os visitantes em 2014 devem estar entre as prioridades de quem pretende aproveitar a realização do evento para sair lucrando. Além disso, é um investimento que renderá mais frutos no futuro.
• Segurança não só nos estádios
Trata-se de uma preocupação que cerca o evento desde que o Brasil foi escolhido para receber a competição, em 2007. Naquela ocasião, os questionamentos sobre a violência urbana no país provocaram enorme irritação no então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que chegou a responder de forma ríspida aos jornalistas estrangeiros que o questionavam na sede da Fifa. Conforme o próprio cartola brasileiro afirmou na ocasião, a enorme maioria dos países tem de lidar com a criminalidade, de fato. A contagem regressiva para a Copa, porém, transcorre em meio a um clima de preocupação crescente com os índices de crimes. As cidades que receberão a abertura e a final, São Paulo e Rio, enfrentam cenários alarmantes. Para complicar o quadro, a mobilização das forças de segurança em torno das arenas - ainda mais em caso de instabilidade social, como na Copa das Confederações - faz com que os contingentes policiais e militares tenham de se desdobrar em múltiplas funções. Haverá policiamento suficiente para manter o perímetro de segurança dos jogos e ao mesmo tempo proteger os visitantes nas cidades?
