sexta-feira, agosto 09, 2013

A bolsa não cresce, mas não por falta de novas cias

André Rocha  
Valor

É consenso no mercado que o mercado acionário brasileiro tem poucos investidores e poucas empresas. Surge, então, a discussão circular: a bolsa não se desenvolve porque não há empresas ou faltam empresas porque não há investidores? Estudo da auditoria e consultoria tributária RSM mostra que o surgimento de novas companhias no Brasil tem sido superior ao de muitos países.

O post “A estagnação da bolsa: faltam investidores ou cias?”, de 01/04/2013, mostra a estagnação da bolsa tanto em termos de novos investidores como em volume financeiro negociado.

É notório que o investidor brasileiro médio desconhece a aplicação em ações. O período hiperinflacionário, de juros elevados e da falta de governança corporativa das empresas explica o preconceito contra este tipo de investimento.

Contudo, o cenário mudou: a inflação atual é sombra da do passado, os juros reais estão no menor nível da história, mal alcançando 2% ao ano e vários riscos societários foram superados nos últimos 15 anos com Instruções e Pareceres emitidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), iniciativas da BM&FBovespa como a criação do Novo Mercado e alterações legislativas. Assim, a bolsa hoje não se encaixa mais no discurso vazio de que seria uma aplicação para especuladores e de uma “terra sem lei”. 

Lógico que algumas coisas precisam ser melhoradas como a remodelação do índice Ibovespa e o fechamento de algumas brechas legais como a incorporação de controladas, mas, em geral, os investidores têm um ambiente seguro na bolsa para aplicar suas poupanças.

A reportagem “Criação de empresas no país supera a média do G-7”, publicada no Valor de 28 de julho de 2013, mostrou que um dos argumentos utilizados para explicar a estagnação da bolsa - a existência de poucas empresas listadas – precisa ser mais bem analisado.

Segundo a pesquisa feita pela RSM, o crescimento médio anual de novas empresas no Brasil de 5,2% entre 2007 e 2011 foi bem superior ao de países desenvolvidos como Estados Unidos (0,3%), Reino Unido (0,7%), Canadá (0,7%) e Alemanha (0,6%). Ficou ligeiramente abaixo do dos Brics (5,8%). Foram 993,2 mil novos negócios no período. Isto mostra que apesar da carga tributária extorsiva e da burocracia legal, novas empresas têm surgido. O desafio agora é trazê-las para a bolsa.



Volto à conclusão do post de 01/04/2013, a pessoa física necessita de educação financeira. É preciso reduzir os preconceitos contra o mercado acionário. E quando falo em pessoa física, falo não somente dos investidores, mas também dos empresários. Fazê-los perceber que a abertura de capital na bolsa é uma alternativa para o financiamento de seu crescimento. Esta é a função primordial da bolsa. A pessoa física precisa aprender mais sobre o mercado acionário, criando uma massa crítica de investidores internamente para financiar nossas empresas. Dessa forma, o sucesso da abertura de capital de novas companhias não dependerá apenas do interesse dos investidores estrangeiros como ocorre atualmente.

O Brasil já descobriu a força de uma nova classe de consumidores para bens duráveis e não duráveis. Resta agora acordar as classes A e B para outro tipo de bem – as ações. Superada esta etapa, quem sabe, no futuro, até a classe média não seja acionista também. Por enquanto um sonho distante, mas como dizia o samba enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel: “Sonhar não custa nada, não se paga pra sonhar”.