sexta-feira, agosto 09, 2013

Peso real do dólar

Míriam Leitão 
O Globo

A alta forte do dólar este ano deve ter menor impacto na inflação do que no passado, menor efeito desorganizador sobre as empresas em relação às desvalorizações anteriores, mas também alavancará menos a exportação. Do piso que a moeda alcançou em fevereiro até agora a alta do dólar já foi de 15%. O principal efeito negativo será nas contas da Petrobras. 

A economia jamais fica indiferente diante das oscilações fortes do câmbio, mas desta vez, os economistas não estão temendo impacto tão alto quanto em outros momentos. Mesmo assim, a principal ameaça inflacionária nos próximos meses é o dólar. Hoje será divulgado o IPCA de julho e haverá motivo para comemoração e alívio: a taxa será zero. Em agosto pode, de novo, ficar baixo. Ninguém acredita que ficará assim nos próximos meses, mas também ninguém aposta numa disparada da inflação por causa do dólar.

Em 2008, quando o dólar subiu — de forma mais drástica do que agora —, inúmeras empresas estavam muito expostas ao risco cambial. Isso produziu uma crise penosamente superada e levou a economia a uma queda rápida do nível de atividade. Nada disso se espera agora.

— Desta vez, não parece haver descasamentos que vimos em 2008, as empresas estão mais protegidas contra a oscilação cambial e isso evita um efeito contracionista. Devemos lembrar também que o impacto maior na inflação se dá se a depreciação for contínua. Ou seja, se a moeda subiu de R$ 2 para R$ 2,30 e ficar por aí, o efeito para a inflação não deve passar de 0,4 ponto percentual — diz o economista Sergio Vale, da MB Associados.

O maior impacto é sobre a Petrobras, que sofre o peso do aumento do custo de importação da gasolina, não poderá repassá-lo aos preços e terá que absorver o aumento da defasagem da gasolina. A empresa tem uma série de compromissos de investimento, tem endividamento em dólar e, no pré-sal, terá que assumir 30% de toda a exploração, pelo modelo de partilha. Essa alta do câmbio tem efeitos negativos sobre a empresa que só não serão maiores porque ela alterou a forma de contabilizar o impacto cambial em seu balanço.

José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior, acha que as importações podem cair pelo efeito da alta do dólar, mas as exportações podem não aumentar, apesar da alta da moeda americana. Primeiro, porque a maior parte das nossas exportações é de commodities e quem define o preço é o mercado internacional. O dólar em alta apenas compensa a queda de algumas cotações. Segundo, porque na venda de manufaturados, que representa apenas 30% do que exportamos, só haverá impacto positivo na balança se for possível exportar as mercadorias este ano. Ele acha mais provável que o ganho ocorra em 2014.

O economista Elson Teles, do Itaú Unibanco, disse que a inflação deve ficar baixa em todo esse trimestre, mas pode subir um pouco no final do ano, por causa do dólar. Ele acha que atualmente o repasse da alta do dólar aos preços demora um pouco, mas acaba chegando.

A grande dúvida é se o dólar vai ficar estável, o que ninguém pode apostar. Há muitos fatores que podem provocar a pressão maior sobre a moeda americana, que tem subido apesar da forte intervenção do Banco Central. Uma notícia como a que saiu ontem no “Financial Times” ajuda a aumentar o desânimo em relação ao Brasil. O jornal apresentou a crise de Eike Batista como um sinal dos problemas brasileiros, já que ele, segundo o jornal, era o símbolo do momento de pujança brasileira. O jornal disse que seu império está “implodindo” e que sua fortuna era há um ano de US$ 30 bilhões e agora é de US$ 200 milhões.