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Em depoimento à corregedoria, chefe de Andreia Pesseghini diz que se “expressou mal” em entrevista; PM havia emitido nota contestando informação
Reprodução/Facebook
Família de policiais militares é encontrada morta dentro de casa,
no bairro da Brasilândia, Zona norte de São Paulo
Após ser contestado por superiores, o chefe da cabo Andreia Pesseghini voltou atrás em suas declarações e disse que "se perdeu" na entrevista em que declarou que a policial militar denunciou colegas suspeitos de participação em roubos de caixas eletrônicos.
Andreia Pesseghini foi encontrada morta na noite desta segunda-feira junto como o marido, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, a mãe e uma tia. A polícia aposta na hipótese de que o filho do casal, Marcelo Pesseghini, de 13 anos foi o autor do crime – e praticamente descartou outras possibilidades para o caso, como a participação de pessoas de fora da casa.
Segundo o telejornal SPTV, o desmentido do coronel Wagner Dimas, comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, onde Andreia estava lotada, foi dado à Corregedoria da corporação. Ainda de acordo com o SPTV, o coronel disse que nenhuma acusação foi de fato formalizada contra PMs suspeitos.
As declarações de que Andreia havia realizado denúncias foram dadas pelo coronel Dimas na quarta-feira, em uma entrevista à Rádio Bandeirantes. Na mesma ocasião, ele disse que não acreditava que Marcelo pudesse ter matado a família. Após a repercussão, o coronel passou a evitar a imprensa.
A versão de Dimas entrou em choque com explicações anteriores apresentadas pelo comandante-geral da PM, Benedito Roberto Meira, que já havia dito na terça-feira que Andreia não havia feito qualquer tipo de denúncia.
Em resposta à entrevista, o comando da PM voltou a reforçar a versão de que as denúncias não existiam e desmentiu o chefe de Andreia em nota distribuída para a imprensa. Nela, a PM afirmou que consultou arquivos da Corregedoria, do Centro de Inteligência e do próprio Batalhão e que nada foi identificado. A PM também afirmava que pretendia instaurar um procedimento para apurar as declarações do coronel.
O Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga os homicídios, chamou o coronel para prestar esclarecimentos sobre o a entrevista. Ele deve ser ouvido nesta tarde.
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Seis perguntas que ainda não foram respondidas sobre a morte da família de PMs
Jean-Philip Struck
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Apesar de apontar o adolescente de 13 anos como principal suspeito dos assassinatos, investigação ainda tem diversas perguntas sem resposta
Marcos Bezerra/Futura Press
Residência do casal de policias no Bairro da Brasilândia,
Zona Norte de São Paulo, amanhece lacrada
Três dias depois do assassinato do casal de policiais militares Luis Marcelo Pesseghini e Andreia Bovo Pesseghini e de outros dois familiares, a polícia afirma estar cada vez mais convencida de que o filho do casal, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos, foi o autor dos homicídios. De acordo com essa linha de investigação, o garoto teria apanhado a pistola .40 da mãe e disparado contra os familiares, um a um. Em seguida, ele pegou o carro da mãe e foi para a escola. Ao voltar para casa, teria se matado com a mesma pistola. A hipótese foi atacada pelo restante da família, que custa a acreditar que Marcelo, descrito como um menino doente e dócil, tenha provocado a matança.
Embora a polícia sustente essa versão, o caso ainda tem perguntas em aberto.
- Quem ensinou Marcelo a atirar?
A pergunta parece ter uma resposta fácil: seus pais, que eram policiais militares. Ainda assim, não foram apresentadas testemunhas para afirmar que os pais ensinaram o filho de 13 anos a manejar uma arma. Também chama a atenção no caso o grau de precisão dos tiros e a quantidade de disparos: cada vítima foi morta com uma bala na cabeça. Peritos só encontraram cinco cartuchos na casa (um para cada vítima e um para Marcelo), o que demonstra que o atirador acertou 100% dos disparos.
- A polícia afirma que o crime parece ter sido premeditado. Como um adolescente de 13 anos consegue planejar tantos detalhes?
Aqui dois perfis entram em choque. Parentes descrevem Marcelo Pesseghini como um menino protegido pelos pais, tranquilo, que queria ser policial como o pai e que sofria diversas enfermidades, sendo incapaz de cometer atos tão bárbaros. A polícia, embora aposte no depoimento de um amigo do menino, segundo quem Marcelo tinha fantasias constantes de matar os pais, não esclareceu como ele conseguiu planejar tantos detalhes e dissimular o crime antes de morrer. O computador do menino ainda está sendo periciado.
- O que o menino pegou no carro da mãe quando deixou a escola?
Segundo depoimento do pai do amigo de Marcelo, o adolescente pegou uma carona com ele na volta para casa. No caminho, ele teria apontado para o carro da mãe, que estava estacionado próximo e pedido para que o pai do amigo estacionasse. Segundo o depoimento, Marcelo foi até o carro, pegou um objeto e voltou para o carro do pai do amigo, que não estranhou nada. Mais tarde, a polícia encontrou na mochila de Marcelo, já na casa dos pais, um revólver calibre 32.
- Por que ninguém parece ter reagido aos tiros dentro da casa?
De acordo com as investigações, três das quatro vítimas assassinadas na casa parecem ter sido atingidas enquanto dormiam – os corpos estavam deitados e não havia muito sangue espalhado. Uma das hipóteses levantadas pela perícia é que o adolescente tenha matado primeiro o pai, que estava deitado na sala, e, em seguida, a mãe, ambos no mesmo ambiente. Depois, ele teria seguido para casa no mesmo terreno onde estavam a tia avó e avó e voltou a atirar. Dos quatro, apenas a mãe não estava deitada - o corpo estava de joelhos, como se, nas palavras do delegado Itagiba Franco, ela tivesse tentado acudir o marido ou fosse forçada pelo atirador. Resta a pergunta de por que a avó e a tia avó não reagiram ou ouviram os tiros? Há hipóteses de que elas podem ter sido dopadas ou tenham ingerido medicação controlada, o que induziu ao sono. Um exame toxicológico para determinar essas possibilidades só deve ficar pronto em vinte ou trinta dias.
- O que o menino fez durante as quase cinco horas em que teria permanecido no carro próximo à escola?
Uma das provas apontadas na versão da polícia é o fato de Marcelo ter saído de casa levando o carro da mãe e estacionado o veículo próximo à escola. Uma câmera de segurança mostrou o carro seguindo por uma rua à 1h15, embora a polícia admita que as imagens não deixem claro se é mesmo Marcelo quem estava dirigindo. Às 6h22, outras imagens mostram Marcelo deixando o carro e seguindo a pé para a escola. A polícia ainda não sabe o que ele fez no veículo nessas cinco horas.
- Por que Marcelo foi para a aula e depois voltou para casa?
De acordo com o depoimento do amigo de Marcelo, o adolescente falava constantemente de um plano para matar os pais, pegar o carro e fugir. De acordo com a polícia, as duas primeiras partes do suposto plano foram cumpridas. Já a ideia de fugir acabou, de acordo com essa versão, se limitando ao percurso normal que ele fazia até a escola diariamente. Ele assistiu normalmente às aulas do dia e voltou de carona para casa, onde depois teria se matado. O motivo de ele ter adotado tal comportamento depois da matança ainda é um mistério.

