quinta-feira, agosto 22, 2013

Bancos centrais de países emergentes agem contra valorização do dólar

João Sorima Neto 
Com Agências Internacionais

Além do BC brasileiro, as instituições da Índia, Indonésia e Turquia intervieram no mercado para segurar a queda das moedas locais

SÃO PAULO - A expectativa da mudança de política monetária nos EUA não está fazendo apenas o Banco Central brasileiro trabalhar intensamente para evitar a desvalorização do real. Bancos centrais de outros países emergentes, como Turquia, Índia e Indonésia também estão tendo muito trabalho para evitar a desvalorização das moedas locais e a fuga de investidores da Bolsas de Valores para a segurança dos títulos americanos.

O BC brasileiro já ofertou cerca de US$ 40 bilhões no mercado futuro, desde maio, quando o Federal Reserve (Fed) sinalizou que a compra de títulos que despeja todos os meses US$ 85 bilhões na maior economia do mundo será reduzida. Ontem no Brasil, o BC fez dois leilões de swap cambial e mais uma oferta de US$ 4 bilhões no mercado à vista, para garantir liquidez aos investidores. Como cresceram as apostas de que essa redução começará em setembro, o nervosismo aumentou no mercado financeiro mundial nesta semana.

- E, no Brasil, temos problemas adicionais como a falta de consenso entre as autoridades na condução da política econômica, o que gera mais desconfiança dos investidores - diz Ricardo Mendonça, gestor de renda variável da XP Investimentos.

O real, lembra Mendonça, tem se desvalorizado numa intensidade superior a outras divisas.

Também o banco central da Turquia anunciou que vai intervir diariamente no mercado de câmbio, fazendo leilões de dólares de no mínimo US$ 100 milhões. Na segunda, o BC turco também elevou a taxa de empréstimo overnight a fim de conter a desvalorização da lira diante das incertezas no país e da expectativa do início da mudança da política monetária dos Estados Unidos. A lira turca já se desvalorizou 1,3% no mês frente ao dólar.

Na Índia, o banco central também anunciou que fará intervenções sempre que for necessário garantir a liquidez dos bancos. O BC indiano vai recomprar 80 bilhões de rupias, o equivalente a US$ 1,2 bilhão, em títulos de maior prazo. A rupia atingiu esta segunda-feira seu patamar mínimo histórico frente ao dólar: 62,46 rupias por dólar. No ano, a rúpia já perdeu 14% de seu valor frente ao dólar, ficando apenas atrás do real, que se desvalorizou 15% e do rand sulafricano, que recuou 17%, segundo a agência Bloomberg.

O banco central indiano anunciou ainda mais medidas para fortelecer a rúpia. Agora, os bancos terão permissão para tomar emprestado do banco central somente até 0,5% de seus depósitos líquidos com uma taxa de juros de 7,25% ao ano. A medida tem como objetivo restringir a oferta de rúpias no sistema bancário local, tornando mais caro para especuladores comprar dólares com rúpias emprestadas.

Na indonésia, a rúpia perdeu 9% de seu valor frente ao dólar em três meses e só não se desvalorizou mais em função das intervenções feitas pelo banco central local.

Para a consultoria Capital Economics, de Londres, autoridades desses países emergentes deverão considerar novos movimentos de saída de investidores, com impacto negativo nas moedas locais. Para a Capital Economics, o tamanho e a rapidez das recentes baixas nas moedas dos emergentes, no rastro de saídas de recursos de Bolsas e outras aplicações, pegaram de surpresa o mercado.

Uma reportagem do jornal inglês Financial Times lembra que o fantasma da crise asiática de 1997/1998 está de volta. A reversão do fuxo de dólares baratos, vindos do exterior para as economias da região, pode provocar um crise de crédito e monetária semelhante a da década de 90. Índia e Indonésia estão na berlinda, já que são os dois países com maior déficit em conta corrente, diz o Financial Times, tornando-os mais dependentes do capital externo. A desaceleração da economia chinesa, maior motor de crescimento da Ásia, pode agravar a situação, diz o jornal.