sábado, setembro 21, 2013

A ofensiva de charme do Irã

Editorial
O Globo

Comunidade internacional deve corresponder à mudança de atitude de Teerã

A partir da eleição do moderado Hassan Rouhani para presidente da República Islâmica, em junho, o Irã iniciou uma série de movimentos para melhorar as relações com a comunidade internacional, indicação de que o regime dos aiatolás está no limite do estrangulamento econômico imposto por sanções internacionais, decorrentes do impasse sobre o programa nuclear.

A sinalização dos novos rumos foi reforçada pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Num discurso à Guarda Revolucionária, defensora da Revolução Islâmica, Khamenei disse não se opor “a medidas apropriadas de diplomacia” para resolver o impasse com o Ocidente, embora ressalvando que a “flexibilidade heroica” é uma tática necessária diante dos contatos diplomáticos a serem mantidos por Rouhani à margem da Assembleia Geral da ONU, na qual discursará terça-feira. Já o chefe da Organização de Energia Atômica, Ali Akbar Salehi, disse esperar que até o fim do ano no calendário persa (que se encerra em março), haja avanços na questão nuclear. E o governo de Teerã decidiu transferir dos militares para a chancelaria as negociações sobre o programa nuclear. Outro bom sinal.

Rouhani surpreendeu ao divulgar uma mansagem de Feliz Ano Novo aos judeus, impossível de não se contrastar com o comportamento sectário do antecessor, Mahmoud Ahmadinejad, que não perdia oportunidade para negar a existência do Holocausto. Washington e Teerã confirmaram que os presidentes Obama e Rouhani trocaram cartas recentemente, em tom amistoso, o que levou a especulações de que podem se encontrar na ONU.

Em outra frente, o governo iraniano decidiu soltar 11 prisioneiros políticos, com destaque para a advogada Nasrin Sotoudeh, defensora de jornalistas e ativistas de direitos humanos, incluindo a Prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi. Todos foram presos arbitrariamente há três anos, na violenta repressão aos protestos de rua que se seguiram à contestada reeleição de Ahmadinejad para um segundo mandato. Mas outros importantes oposicionistas, como Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi, continuam detidos.

As sanções internacionais fizeram as exportações de petróleo despencar de 2,4 bilhões em 2011 para menos de 1 bilhão de barris/dia hoje; a inflação disparou, o valor da moeda, o rial, caiu à metade e há produtos em falta no comércio. Ao flexibilizar as relações com o Ocidente, Teerã mostra que está sensível ao descontentamento popular com a situação econômica e aos anseios por mais liberdades e livre circulação de ideias.

A comunidade internacional precisa corresponder à abertura iraniana, mas com as devidas cautelas, para não ser surpreendida. Vale lembrar que o Irã é um dos atores mais importantes no caso da Síria, e pode ser decisivo em qualquer acordo para acabar com o banho de sangue no país dos Assad.