Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa
Decidiu, o Lula, deixar cair o peso depositado em seus ombros, reconhecendo erros e defeitos do PT, partido que acaba de completar 33 anos de vida. Deve ser elogiado pela franqueza e a coragem ao citar a valorização demasiada do Parlamento e de cargos públicos por parte dos companheiros, sem esquecer o surgimento da corrupção, desde que assumiram o poder.
Bem que o ex-presidente poderia ter convocado uma entrevista coletiva em São Paulo, ou comparecido à televisão, em Brasília, no lugar de falar ao jornal espanhol “El País”, mas o detalhe não obscurece o principal. No caso, a evidência “de um partido que era pequeno e ficou grande haver adquirido defeitos e acabar como as demais legendas, quando a proposta era agir de maneira diferente”.
A leitura dessa singular entrevista leva à constatação de estar o primeiro-companheiro preocupado com o PT por conta da sucessão presidencial do ano que vem. Sabe que cairá chumbo grosso sobre o partido e, obviamente, sobre sua candidata à reeleição. Ignora-se se Dilma foi avisada, se concordou ou lavou as mãos diante de conceitos tão duros, pois a verdade é que seu antecessor criou um terremoto ao aconselhar a renovação nos quadros do PT. Sem muita convicção, defendeu os réus do mensalão, mas ofendeu o Supremo Tribunal Federal ao denunciar ter sido a imprensa a condenar primeiro os petistas flagrados no que chamou de “defeitos”, mas, na verdade, tratava-se de crimes.
A fala do Lula assemelha-se a uma espécie de “freio de arrumação” que impôs ao PT e prenuncia enquadramento dos companheiros frente às eleições do próximo ano. Como motorista do ônibus lotado, cabe-lhe acomodar os passageiros mas, ao mesmo tempo, abrir as portas para o ingresso dos mais jovens, quem sabe até aqueles que se dedicam a dar as costas à política e ao partido. Mesmo com seu linguajar simples e suas imagens óbvias, o Lula continua um estrategista. Retificou rumos com o seu mea culpa do final da semana.
EXAGEROS SÃO PERIGOSOS
Dilma parece haver recolhido os flaps, pois não rebate mais as críticas de Marina à performance do governo, muito menos ao seu comportamento. Aconselhada a não aceitar o desafio, fechou-se no palácio do Planalto ou a bordo do avião presidencial, em sucessivas viagens pelo país. Ficar rebatendo cada uma das agressões da ex-senadora só ampliaria os espaços dela.
No reverso da medalha, Marina precisaria conter seus ataques, pelo menos antes de o PSB elaborar um programa de campanha com começo, meio e fim. Parece perigoso denunciar pontualmente que nada se fez no setor da reforma agrária, que a agroecologia inexiste, que o Código Florestal favorece o desmatamento, que o governo Dilma é um retrocesso ou que acaba de entregar o petróleo ao estrangeiro. Essas acusações o vento leva com rapidez, se desligadas de um fio central, de um roteiro completo. Enquanto Eduardo Campos se poupa em matéria de desafios, Marina Silva dá a impressão de candidata a D’Artagnan, aquele que desafiou de uma só vez os Três Mosqueteiros.
CARAVANA IMOBILIZADA
Há mais de um ano ouve-se falar no imediato início de uma caravana destinada a percorrer o país inteiro, chefiada por Aécio Neves. Seria a solução para popularizar o candidato, fazendo-o conhecido em regiões onde jamais pôs os pés. O problema é que essas viagens não começam, pelo menos de forma ordenada e contínua. Pode até ser a melhor estratégia, ainda há um ano das eleições, mas fariam melhor os tucanos se não anunciassem com tanta ênfase o início da campanha.