quarta-feira, outubro 23, 2013

Foi privatização

Adelson Elias Vasconcellos



Faz parte do jogo político  o governo tentar mascarar que o leilão do Campo de Libra como exitoso,  afirmando:

a.- Que o leilão foi um sucesso;
b.- Que o leilão não foi privatização.

Nem uma coisa nem outra. Prá começo de conversa, num leilão em que o próprio governo  tinha expectativa de 44 candidatos interessados, e  se apresentaram apenas 11 e, destes, apenas 9  resistiram até o fim. E, surpresa!, no final das contas não houve leilão algum: apenas um consórcio apresentou proposta. E, surpresa de novo!, sua proposta foi pelo preço mínimo. Ora, onde então o sucesso?

A senhora Rousseff, em mais um discurso de campanha pró-reeleição, foi ao grande público comemorar. E, como sempre o faz em ocasiões como esta, ela tentou transformar o fracasso em retumbante sucesso na base da saliva. 

Ora, nem é preciso ser intelectualmente superdotado para se saber que um leilão ocorre quando há propostas e...contrapropostas. Leilão de um? Onde? Só se esta for mais uma jabuticaba nacional... 

Mas a senhora Rousseff  tem o mau costume de criticar os críticos. E, cultiva o mau gosto de distorcer a realidade de seus feitos. Eleva a mediocridade à máxima categoria de excelência. Deveria ter ao menos a honestidade de ouvir as críticas e, antes de rebatê-las,  ao menos refletir sobre seu conteúdo. 

Há pouco mais de um mês o seu governo  tentou leiloar à iniciativa a concessão de duas rodovias. Em uma delas, vejam só, não apareceu sequer uma única e miserável proposta. Zero absoluto.  E nem assim dona Rousseff, teimosa ao último, deu o braço a torcer. E nem vou entrar em detalhes da economia brasileira. Já demonstramos aqui que a média de crescimento do país no governo Dilma conseguirá a glória de se tornar o terceiro pior de toda a história republicana. Só perde para Floriano Peixoto e Fernando Collor.  Mas ela teima em ignorar o passado, achando que o Brasil foi descoberto apenas em 2003... 

Retomo o leilão de Libra. Tanto a presidente em seu palanque, quanto algumas autoridades,  trataram de contar uma piada nova. A de que 85% do petróleo e gás que será extraído, ficará com o governo. É mesmo? Em que máquina de calcular se chegou  a tão grosseiro erro? 

Vamos aos cálculos. Projeta-se que Libra poderá render cerca de 1,4 milhão de barris/dia. Mas só para facilitar o cálculo, digamos que tudo somado e subtraído se retire 1,0 milhão de barris/dia, o que seria estupendo.  O consórcio vencedor apresentou lance mínimo que seria 41,65%. Vamos arredondar para 42%. Assim, o governo receberia livres 420.000 barris/dia, restando  para o consórcio 580.000 barris/dia. 

Este consórcio é composto de Petrobrás, com  participação de 40%, Shell e Total, com 20% cada, e mais duas estatais chinesas, com 10% cada.  E então vejamos: considerando a participação da estatal Petrobrás,  ela receberia 232.000 barris/dia, ficando os restantes 348.000 repartidos entre as demais empresas do consórcio de acordo com suas participações. 

Assim, somando agora o que fica para  governo, que serão 420.000, com o que tocará à Petrobrás, ou 232.000, chegaríamos a 652.000 barris, ou, 65,2% do total produzido.  Aonde o governo foi  arranjar aqueles 85% declarados pela senhora Rousseff,    pertence ao misterioso mundo da mistificação. 

Disse, ainda,  a senhora Rousseff em sua fala comemorativa do fracasso que ela prefere chamar de sucesso, que  “iremos transformar petróleo em saúde e educação”. 

Bom, primeiro mesmo, é preciso transformar o petróleo em riqueza. Por quê? Bem, acontece que aqueles 1,4 milhão de barris/dia é uma “projeção”, e não um fato concreto. E para alcançar este enorme depósito é preciso desenvolver máquinas e tecnologia para uma perfuração submarina abaixo de mais  de  7 mil metros do nível do mar.  É mundialmente conhecida a competência da Petrobrás em exploração a grandes profundidades. Mas isso se dá até 2,5 mil metros. Terá que ir a uma profundidade três vezes maior. 

Depois, precisará retirar este petróleo todo lá do fundo e trazê-lo para superfície e, só então, transformá-lo em riqueza. Prevê-se que se chegue a tal ponto até 2018, na melhor das hipóteses. Alguns avaliam que é coisa para 2020/2021. 

Mas sejamos otimistas, com tudo dando certo e o país se forrando com bilionárias cifras. E, aí, senhores, talvez até mais  difícil do que retirar petróleo e gás da camada do pré-sal, será fazer com que os governantes de plantão empreguem esta fortuna “apenas” em educação e saúde.  Se algumas merrecas hoje já são alvo da imensa gula e ganância da classe política brasileira, com desvios de toda a ordem, com verbas destinadas à saúde, merenda escolar e até bolsa família fazendo a festa de nossos gigolôs, imaginem diante da fortuna de bilhões e bilhões sobrevoando os cofres do tesouro!!!

Mas, como disse aqui ontem, assistir Dilma tentando explicar que o leilão não foi privatização, não tem preço. Ora, o leilão foi o quê, então, minha senhora? Está se concedendo à iniciativa privada a exploração de um campo de petróleo que pertence à União, de cuja produção total parte ficará em mãos deste grupo vencedor e do qual apenas a Petrobrás é empresa brasileira.  Ou seja, goste Dilma ou não, o fato é que se privatizou a exploração do Campo de Libra por um determinado tempo, a um preço determinado em percentuais de produção. 

Deveria, portanto, a senhora Rousseff ser um pouco mais honesta e ter mais respeito para com a  inteligência das pessoas que tem miolo com mais de dois neurônios.   Que mal tem em admitir que, aquilo que realmente se realizou ontem no Rio Janeiro, foi uma privatização? Vimos acima que ao governo caberá uma cota final de 65%. Não se tratou de doação do patrimônio como alguns imbecis se arvoraram a praguejar.  O patrimônio continua sendo da União, que terá a totalidade da produção retomada após o prazo fixado. 

Trata-se de um negócio comercial, de imenso significado para o país, cujo resultado,  se não desvirtuado,  representará um salto gigantesco em nosso processo de desenvolvimento. Não fosse  a veia preconceituosa com que o modelo foi desenhado, esta cota poderia ter sido bem maior, pois se houvesse outros concorrentes o lance vencedor seria bem acima do mínimo fixado.  Além disto, criou-se, pelo regime de partilha,  e com imensa intervenção estatal, uma obrigação de investimentos para a Petrobrás que,  se sabe, ela hoje não tem como cobrir.  Para fazer frente à sua obrigação de realizar, a Petrobrás se verá obrigada a cancelar alguns investimentos em refino que hoje já estão bem atrasados. 

Assim, o que temos ao cabo de tudo é que o tal leilão foi uma privatização, e que só não foi plenamente favorável ao país dado que se criaram regras tão absurdas e intervencionistas que acabou por afastar os maiores investidores do ramo do petróleo.

E, mesmo que hoje a senhora Rousseff tenha se apressado em dizer que não mudará o regime de partilha, ficou claro que as regras precisarão ser mais flexibilizadas nos próximos leilões,   para  permitir que a cota do lance mínimo possa ser elevada, produzindo maiores ganhos para o Tesouro.

Para encerrar: adoraria saber onde foi que a senhora Rousseff leu alguma coisa parecida com crítica quanto à participação das estatais chinesas no leilão? Só se foi em algum destes manifestos bestialógicos circulando por aí pedindo a suspensão do leilão. Mas neste caso, o dedo deve virar-se para os próprios aliados da presidente, dentre eles sindicatos e “milidoidos” do PSTU, PC do B e PSOL, avesso a qualquer progresso ou avanço civilizatório. 

Muito embora a senhora Rousseff afirme categoricamente que o regime de partilha não será alterado, o que não muda muita coisa, ela deveria refletir melhor sob a obrigação imposta à Petrobrás para a estatal ser a única operadora dos campos do pré sal. Isto representa um volume tão imenso de recursos que melhor seria fatiar esta obrigação. A Petrobrás não tem cacife econômico-financeiro, tão o Brasil, para operar campos que serão perfurados de Santa Catarina ao Espírito do Santo, que é a extensão toda do pré sal. Esta divisão com outros parceiros não impõem prejuízos ao país tampouco à própria Petrobrás. Até pelo contrário. É até aconselhável que seja assim. 

Muito embora no regime de concessão o ganho possa ser até maior, já que os custos são todos do consórcio vencedor, a União fica apenas com o filé,  no regime de partilha como vimos acima,  os ganhos também são fabulosos, apesar do custo maior. Assim, o governo até pode insistir, como quer a senhora Rousseff em manter o regime de partilha. Mas teimar em ter a Petrobrás como única operadora, além do tal conteúdo nacional,  é apostar no perigo e flertar com ele em tempo integral.