Guilherme Rosa
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Obra de Alfonso Cuarón retrata magistralmente a paisagem e os movimentos que acontecem na órbita terrestre. Para contar uma boa história, no entanto, o diretor cometeu alguns erros científicos
Divulgação/Warner Bros Entertainment Inc
Sandra Bullock interpreta a doutora Ryan Stone no filme 'Gravidade'
Solta no espaço, a astronauta Ryan Stone (interpretada por Sandra Bullock) rodopia sem parar. Sozinha, sem ter onde se segurar, ela pode ficar assim para sempre — girando em órbita da Terra, como um satélite. A cena do filme Gravidade é um retrato perfeito do movimento dos corpos no espaço. A precisão científica tem sido levantada como um dos pontos altos da produção, que é a mais vista nos Estados Unidos há duas semanas e já conseguiu acumular mais de 200 milhões de dólares de bilheteria ao redor do mundo. Ainda assim, cientistas e astrônomos encontraram alguns erros e imprecisões em sua tentativa de retratar o espaço sideral.
O filme se passa em um futuro próximo, e conta a história de dois astronautas, Ryan Stone e Matt Kowalski (George Clooney), à deriva depois de sua nave ser atingida por destroços. Os movimentos de seus corpos no espaço, e sua interação com os muitos destroços à sua volta, encantou os cientistas, que viram ali um retrato fiel e bonito da mecânica dos satélites na órbita terrestre. “Ficar em órbita é estar em queda-livre perpétua. Os objetos ainda estão presos à gravidade da Terra, que os puxa para baixo, mas eles também possuem uma velocidade lateral. Assim, eles estão sempre caindo, acompanhando a curvatura do planeta — embora pareçam estar flutuando”, diz Alexandre Cherman, astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.
A beleza dessas cenas e a perfeição com que retratam o movimento dos astronautas acabou levando a uma análise mais detalhada dos aspectos científicos do filme. E ele não passou incólume. “Não se pode pensar que se trata de um documentário. Há furos", diz Cherman. “Mas é importante destacar que o filme acerta muito mais do que erra. E alguns dos erros são claramente propositais. Sem eles, não haveria filme”.
Como disse Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, em Nova York, e um dos primeiros astrônomos a procurar — e encontrar — por falhas no filme: "O que poucas pessoas parecem reconhecer é que os cientistas não se juntam para criticar filmes como Está Chovendo Hamburguer, O Homem de Aço, Transformers ou Vingadores [...] Ganhar o direito de ser criticado em um nível científico é uma grande elogio."
11 acertos e erros científicos de Gravidade
ATENÇÃO: A lista abaixo revela uma série de detalhes que podem entregar segredos da história
Acerto: Nuvem de destroços
Filme: Logo no começo da história, os astronautas são atingidos por uma enorme nuvem de destroços. Provocada pela explosão de um satélite aposentado russo, que cria uma reação em cadeia na órbita terrestre, a nuvem dá uma volta no planeta a cada noventa minutos, causando grandes danos cada vez que encontra os personagens principais.
Fato: A quantidade de detritos na órbita terrestres é uma preocupação constante das agências espaciais. O lixo é composto do resto de satélites aposentados e pedaços de aeronaves, e se encontra principalmente na órbita terrestre baixa, onde se passa o filme.
Normalmente, os detritos não estão agrupados, mas espalhados pelo espaço. "A NASA e a Agência Espacial Europeia possuem programas de computadores que rastreiam cerca de 18.000 detritos de tamanhos maiores que 10 centímetros a cada instante, e planejam suas missões com muita segurança. A própria ISS costuma fazer manobras evasivas diversas vezes ao ano para evitar a colisão", afirma Antônio Delson Conceição de Jesus, pesquisador da Universidade Estadual de Feira de Santana, especialista na dinâmica orbital dos detritos espaciais.
Uma chuva de detritos como a mostrada no filme, no entanto, não costuma exigir tantos cuidados, pois é um cenário extremamente improvável — mas não impossível. "Uma chuva realmente poderia acontecer a partir de uma explosão ou de uma colisão entre detritos. Neste caso, se uma atividade espacial estiver acontecendo nessa região, os resultados da chuva podem ser piores ainda do que os mostrados no filme", diz Delson.
Gravidade também acerta ao mostrar o potencial destrutivo desse tipo de acidente. Em órbita, mesmo um pequeno parafuso como o que a astronauta Ryan Stone quase deixa escapar no começo da história pode ser extremamente perigoso. "Na órbita terrestre baixa, a velocidade de um detrito chega a mais de 12 quilômetros por segundo. Com esta velocidade um objeto pequeno pode destruir a estação ISS, se penetrar num compartimento essencial", diz o pesquisador.
Alfonso Cuarón acerta até no tempo em que a nuvem de detritos demora a dar a volta no planeta: 90 minutos.
Erro: Distância entre naves
Filme: A história começa com os astronautas saindo de seu ônibus espacial para consertar o telescópio Hubble. Em seguida, eles se locomovem para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), de onde vão para a estação chinesa de Tiangong.
Fato: Levando em conta a localização real das três naves, a locomoções entre elas seria impossível em tão pouco tempo e sem uso de naves funcionais. As três missões se encontram na órbita terrestre baixa, onde também estão localizados a maioria dos satélites (na verdade, todas as missões espaciais tripuladas, com exceção das que chegaram à Lua, se mantiveram dentro desse limite). Isso não quer dizer, no entanto, que elas estejam próximas.
A órbita dos objetos em torno da Terra inclui fatores como tamanho, formato da elipse e ângulo em relação ao Equador. As órbitas das naves e dos satélites são planejadas, justamente, para se manterem distantes, evitando colisões. Por isso, mesmo nos momentos de sua trajetória em que elas mais se aproximam, as três naves ainda são separadas por centenas de quilômetros.
“Há uma distância de cerca de 200 quilômetros entre a ISS e o Hubble, de quase 300 quilômetros entre a Taiangong e o Hubble, e de quase 100 quilômetros entre a Taiangong e a ISS. Seria loucura colocar estes objetos numa mesma órbita”, diz Delson Conceição de Jesus.
O transporte entre eles é até possível, mas não nas condições mostradas no filme. “Para os astronautas passearem entre as estações, seria necessário mais tecnologia e combustível, porque eles precisam ganhar velocidade para mudar de órbita. Com certeza, fariam isto através de um veículo espacial funcional, não com as suas 'próprias pernas'", afirma o pesquisador.
Acerto: Movimentos no espaço
Filme: Durante boa parte da história, os astronautas estão à solta na órbita terrestre, tentando se segurar nos objetos à sua volta e utilizando a propulsão de pequenos jatos para se locomover.
Fato: Segundo a maioria dos cientistas que viram o filme, as cenas de movimento no espaço são extremamente realistas. "Na Terra, estamos acostumados a nos movimentar em um ambiente com atrito. No espaço, ao contrário, não há nada que possa causar atrito. Qualquer empurrão pode gerar um movimento sem fim para trás", diz Alexandre Cherman, astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.
Uma das cenas que mais chamou a atenção do cientista é a que o astronauta Matt Kowalski carrega Ryan Stone pelo espaço, puxando-a por meio de um cordão que liga seus trajes. "Enquanto puxa a companheira, ele usa seu jato para ganhar impulso. Perceba que, sempre que ele consegue avançar um pouco, a corda se estica e ele sofre um tranco, voltando um pouco para trás. O movimento no espaço é assim mesmo: é a lei da ação e reação", diz.
Outro momento em que a dinâmica dos corpos em órbita está bem retratada é quando Ryan Stone usa um extintor como foguete, para se locomover pelo espaço. "Ali, qualquer sopro leva o astronauta a se mexer. Em certo momento, o extintor acaba e ela ainda está longe da nave onde quer chegar. A astronauta então joga o objeto para um lado, o que a impulsiona em direção à nave", diz o astrônomo.
Uma das cenas mais criticadas é aquela em que Matt Kowalski e Ryan Stone se separam. A astronauta segura seu companheiro por uma corda, que ele decide largar pois estaria puxando Ryan com ele, o que poderia levar os dois à morte. Segundo os críticos, a cena seria inverossímil porque não existe nenhuma força puxando Kowalski para longe de Ryan Stone — no espaço, eles começariam a flutuar logo após o primeiro tranco. Para Alexandre Cherman, no entanto, a cena faz sentido: “Na verdade, a estrutura em que Ryan se segura está girando. Logo, existe uma força centrífuga, que empurra os astronautas para longe, para escapar pela tangente. Quando Kowalski larga, ele é jogado para fora, e a astronauta é impulsionada para dentro”.
Acerto: GPS no espaço
Filme: A astronauta Ryan Stone tanta achar sua posição na órbita terrestre utilizando um aparelho GPS.
Fato: O filme acertou: o GPS pode funcionar em pleno espaço. "Os satélites responsáveis pela rede de GPS estão localizados na órbita terrestre média, juntamente com o sistema de localização russo e satélites militares. Assim, eles estão a uma altura de 20.183 quilômetros, mais de 30 vezes mais altos do que as estações onde a ação se passa", diz Delson Conceição de Jesus.
Nessa altura, os satélites de GPS conseguem orbitar em torno da Terra na mesma velocidade com que o planeta gira em torno de seu eixo — o que é chamado de órbita geoestacionária. Desse modo, eles permanecem sempre em cima do mesmo ponto da superfície terrestre, o que é essencial para que funcionem corretamente.
Erro: Falta de comunicação
Filme: Logo após a nuvem de destroços entrar em movimento, a comunicação dos astronautas com a Terra é cortada. Isso acontece porque os satélites responsáveis por fazer o contato foram danificados.
Fato: A falta de comunicação adiciona tensão ao filme, mas ela não aconteceria no mundo real. Ao criar uma nova rede de comunicação, os cientistas tomam vários cuidados para que um acidente que aconteça em uma única faixa da órbita terrestre não seja capaz de derrubar todo o sistema. "As redes de comunicação são criadas com uma série de redundâncias, ou seja, com diversos satélites em diferentes órbitas. No caso do filme, a comunicação deveria continuar funcionando, pois, mesmo com a perda de um satélite, ainda haveria o plano B, o plano C, e assim por diante", diz Alexandre Cherman.
Acerto: Fogo e água no espaço
Filme: Em determinado momento, a nave que transporta Ryan Stone pega fogo. Além das labaredas que se espalham pelas paredes da nave, também surgem pequenas bolas de fogo, flutuando pelo ar. Mais à frente na história, Ryan começa a chorar. Em vez das lágrimas escorrerem por seu rosto, elas se soltam, e ganham o formato de bolhas flutuantes.
Fato: Segundo Alexandre Cherman, tanto o movimento da água quanto o do fogo estão retratados de modo perfeito. "No espaço, um pequeno movimento pode fazer a lágrima se desgrudar do rosto da pessoa. Como a gravidade não a puxa para o chão da nave, ela flutua com o formato de uma pequena bola. O desenho que nós estamos acostumados a associar com a gota — uma bola com um pequena cauda — só acontece porque ela está caindo."
Do mesmo modo, na Terra as labaredas de fogo têm formato vertical por causa da ação da gravidade. Na atmosfera do planeta, o ar mais quente sobe, o que faz as chamas seguirem essa direção. "No espaço isso não acontece. O fogo pode se espalhar no formato de pequenas bolas", diz o pesquisador.
Acerto: Alucinação
Filme: Em uma das cenas mais emocionantes do filme, Ryan Stone imagina estar conversando com seu colega Matt Kowalski, dentro de uma cápsula espacial. Mais à frente, é revelado que a astronauta estava sozinha — ela delirava.
Fato: No momento da alucinação, Ryan Stone havia despressurizado a cabine onde estava, com a intenção de se matar de forma indolor. Acontece que a falta de oxigênio no cérebro pode provocar uma série de sintomas, como perda de memória, dor de cabeça, fadiga e alucinações auditivas e visuais. A aparição de Kowalski pode ser explicada pela simples química cerebral da astronauta.
Erro: As roupas de Sandra Bullock
Filme: Após entrar na Estação Espacial Internacional, Ryan Stone tira o traje de astronauta. Por baixo, ela veste um shorts grudado e uma camiseta regata.
Fato: Em missões reais, nenhum astronauta da Nasa se vestiria desse jeito por debaixo do traje principal. "Quando alguém vai fazer uma caminhada espacial, usa pelo menos duas camadas extras de roupa sob o traje. E, por baixo de tudo, veste uma fralda, para qualquer eventualidade que aconteça fora do ônibus espacial", diz Alexandre Cherman. "A cena deveria ter mostrado, no mínimo, a fralda. Mas essa é uma decisão estética do diretor —a cena ficou muito mais bonita desse modo. Além disso, duvido que a Sandra Bullock assinaria o contrato para fazer o filme se soubesse que teria que passar o tempo inteiro usando um fraldão."
Acerto: Aurora polar
Filme: Em determinado momento de sua longa caminhada espacial, Ryan Stone vê brilhos verdes percorrendo a Terra. Trata-se de uma aurora polar.
Fato: A aurora é um fenômeno luminoso natural, que costuma ocorrer nas regiões polares da Terra. Ela acontece alinhada com os campos magnéticos do planeta, por causa do impacto de partículas energéticas solares com a alta atmosfera. E, sim, ela pode ser vista de fora da atmosfera. “Os astrônomos conseguem enxergar até auroras que acontecem em outros planetas, não há nenhum problema nisso. A única coisa que não fica clara no filme é se o que vemos é uma aurora boreal ou uma aurora austral, pois não sabemos se o fenômeno está no Polo Norte ou no Polo Sul”, diz Alexandre Cherman.
Erro: A mochila de George Clooney
Filme: No começo da história, Matt Kowalski acompanha o conserto do telescópio Hubble de longe, flutuando com o auxílio de uma mochila equipada com jatos, conhecida como Unidade de Manobra Tripulada (MMU, na sigla em inglês). Ele usa os foguetes para brincar no espaço. Depois do acidente com os destroços, a mochila se torna o principal mecanismo de transporte para a dupla fugir em direção à ISS.
Fato: A mochila usada por Kowalski já foi usada em missões reais. A MMU chegou a ser empregada em algumas missões na década de 1980, para ajudar os astronautas a manobrarem pelo espaço. Depois de três missões, no entanto, seu uso foi abandonado, por ser considerado inseguro.
Hoje, astronautas utilizam uma versão reduzida da mochila, que só pode ser empregada em momentos de emergência — no caso de alguém se soltar da nave durante uma caminhada, espacial, por exemplo. Usá-la para brincadeiras, com faz Kowalski, é terminantemente proibido. A mochila também não teria a capacidade de transportar os astronautas por toda a distância entre o Hubble e a ISS.
Acerto: Chegada na Terra
Filme: No final da película, a astronauta Ryan Stone consegue pousar com segurança no mar terrestre. Ela sai da nave e vai nadando até uma praia próxima. Chegando à terra firme, no entanto, não consegue se levantar de imediato. Só depois de algum esforço, fica de pé e o filme acaba.
Fato: A vida no espaço costuma alterar a fisiologia dos astronautas. Em órbita, seus corpos não estão submetidos ao mesmo peso que na Terra, o que faz com que percam parte de sua força muscular. Ao voltar para o planeta , podem sofrer dificuldade para andar e praticar outras atividades corriqueiras (por isso, astronautas na ISS têm à sua disposição equipamentos de ginástica para que fortaleçam os músculos).
No caso de Ryan Stone, como ela estava participando de uma missão em um Ônibus Espacial, sua estadia no espaço era provavelmente muito curta — o que não permitiu a seus músculos perderem muita força. “Nadar foi fácil porque seu peso ainda era muito menor do que em terra firme. Assim, seu movimento na água é parecido com o do espaço. Difícil mesmo foi se mover na praia, porque o peso é muito maior”, diz Alexandre Cherman.











