quinta-feira, novembro 07, 2013

A balança virou

Alvaro Gribel e Valéria Maniero 
O Globo

O ano está chegando ao fim e a balança comercial continua no vermelho: US$ 1,8 bilhão até outubro. O déficit não é o que mais incomoda, mas saber que no mesmo período de 2012 havia superávit de US$ 17 bi. A reversão foi intensa. As importações de petróleo explicam um pedaço do problema, mas o principal é que o país não tem aumentado as exportações totais em volume e os preços estão em queda.

No início do ano, o déficit era explicado pela contabilidade atrasada das importações de petróleo e derivados, que deveriam ter entrado na conta em 2012 e ficaram para 2013. Mas os meses foram passando e nada mudou. Essa importação já soma US$ 36 bilhões até outubro. Para se ter uma ideia do que esse valor significa, é 37% maior do que toda exportação de minério de ferro e 60% maior do que as vendas externas de soja. O rombo nesses produtos já é de US$ 18,9 bilhões, com apenas US$ 17 bi exportados.

O vento favorável dos preços das matérias-primas parou de soprar, e o país não tem conseguido aumentar as exportações em quantidade, como é possível ver nos dois gráficos elaborados pelo economista Marcelo Carvalho, do Banco BNP Paribas. Por outro lado, as importações estão subindo. Durante todo o período de boom das commodities, nos anos 2000, vários analistas alertavam que o país precisava aproveitar o bom momento para dar competitividade a outros tipos de produtos. Mas isso não aconteceu.

O déficit comercial está pesando sobre o déficit em conta corrente, que saiu de 2% do PIB, em 2012, para 3,6%, no acumulado de janeiro a setembro. Isso coloca pressão sobre o real e é uma fonte de inflação. A consequência pode ser um aumento maior dos juros por parte do Banco Central.

O comércio externo tem pouca participação no nosso PIB, cerca de 20%, mas uma boa notícia é que a corrente de comércio (soma de exportações e importações) cresceu 3,5%, acima do ritmo da economia.

Desconfiança maior
O CDS de cinco anos do Brasil, papel que mede o risco-país, atingiu ontem a maior cotação do ano, 180,5 pontos. Segundo Pedro Paulo Silveira, da Vetorial Asset, os investidores repercutem o mau desempenho do superávit primário e temem cada vez mais o risco de rebaixamento da nota de crédito do Brasil. O dólar foi a R$ 2,289. 

Inflação pode acelerar
A inflação oficial deve ter acelerado em outubro, por causa dos alimentos. É o que dizem os economistas. Depois de ter subido 0,35% em setembro e, pela primeira vez no ano, fechado abaixo de 6% (5,86%) em 12 meses, o IPCA pode ficar em 0,60% em outubro. Essa é a mediana das expectativas. Se confirmada, a inflação em 12 meses subiria um pouco, para 5,87%. “É provável que volte a acelerar (em 12 meses), depois de três meses em queda”, afirma o economista Luis Otávio Leal, do banco ABC Brasil. O IBGE divulga o dado oficial amanhã.