O Globo
Jornal britânico se baseou em avaliação de economistas do Barclays, sediados em São Paulo
Aumentam as preocupações com relação ao superávit primário, que segue ladeira a baixo, e o avanço da dívida líquida do setor público, afirma o 'FT'
RIO - “Espelho, espelho meu, qual dos quatro grandes mercados emergentes será o primeiro a perder o grau de investimento? Muito provavelmente o Brasil”, afirma o jornal britânico “Financial Times” em texto publicado nesta quarta-feira. O país seria o primeiro do grupo Bric (acrônimo para o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China) a perder o grau de investimento.
O periódico se baseou na avaliação realizada pelos analistas Bruno Rovai e Marcelo Salomon, do Barclays. De acordo com os economistas, a perda do título poderia ocorrer no início de 2014 se a economia brasileira não acelerar seu crescimento e a situação fiscal continuar deteriorada.
"Os resultados fiscais do mês de setembro vieram muito mais fracos do que o esperado, atingindo R$ 10,4 bilhões, muito acima do que aguardava o mercado. O surpreendente resultado pobre foi impulsionado principalmente por um forte avanço das despesas extraordinárias durante o mês, mas as receitas menores que as esperadas também intensificaram o déficit", afirma o texto.
Ontem, do outro lado do Atlântico, o Brasil também recebeu críticas sobre sua gestão econômica, feitas pelo jornal "The New York Times". Segundo o colunista, apesar de a Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016 serem dois eventos bastante esperados, incomoda entre os brasileiros os reflexos da escolha como sede:
"O boom imobiliário (uma bolha para alguns) atingiu níveis sem precedentes, o desemprego é baixo; vastas novas reservas de petróleo prometem baldes de dinheiro e uma classe média com maior acesso ao crédito do que nunca continua a crescer. Mas há uma nova tendência de inquietação. Por um lado, a inquietação é sobre a gestão econômica. O crescimento abrandou drasticamente. A dívida pública aumentou. A inflação mexe", afirmou a publicação.
Os dois analistas do Barclays disseram ainda que estão bastante céticos sobre a possibilidade de que a tendência verificada no Brasil possa ser revertida no curto prazo “especialmente considerando que as eleições (para presidente) serão realizadas em outubro do próximo ano”. Ou seja, para a dupla, a perspectiva é de que o governo brasileiro não faça alterações muito radicais de sua gestão econômica.
O downgrade brasileiro poderia ocorrer, segundo o FT, principalmente porque aumentam as preocupações com relação ao superávit primário, que segue ladeira a baixo, e o avanço da dívida líquida do setor público.
Mas o receio sobre as questões fiscais brasileiras apresentado pelo Barclays não é solitário. A agência Standard & Poor´s também deu o mesmo argumento quando cortou a perspectiva do Brasil de estável para negativa em junho. Em outubro, o movimento foi seguido pela Moody´s, que diminuiu sua perspectiva de positiva para estável.
"Um rebaixamento de qualquer uma das agências de rating colocaria o Brasil no limite do status de 'junk'", alerta a reportagem do “Financial Times”.
Irônico, o jornal finaliza o texto afirmando que o Brasil, no entanto, não afundaria sozinho.
"A boa notícia para o Brasil é que ele não é o único Bric que está andando sobre uma fina camada de gelo. A Índia também está sendo amplamente apontada como uma candidata a ver rebaixada suas notas de crédito".