Adelson Elias Vasconcellos
Ao acatar o emprego de cotas no ensino público, o STF deu mostras que, como guardião da Carta, ele precisa aprender muito. O Supremo pode dar sua livre interpretação sobre aquele texto, mas jamais será de sua competência alterar sua essência e seus princípios. E uma das coisas mais límpidas que há na Constituição, que dispensa interpretações ou segunda leitura é a que diz que todos são iguais perante a lei, condenando em seguida qualquer vedação por conta de cor, religião, etc.
O sistema de cotas raciais, infelizmente, vai em sentido contrário ao texto constitucional. Considera uns mais do que outros. Se alguma injustiça histórica houve em relação aos negros, que se aprimorem as instituições e se ofereçam condições para que se elimine o preconceito. É claro que o caminho pode até parecer longo, mas é o único que garante a formação de uma sociedade justa, sem privilégios a quem quer que seja, que premia o mérito pessoal, ao invés de classificar e categorizar os indivíduos pela cor de sua. Se uma sociedade segregacionista retira dos negros a possibilidade de ascenderem social e economicamente, e por conta disto deve ser repudiada, outra não se entende a sociedade que interfere nesta oportunidade de ascensão para separa uns dos outros, dando a uns privilégios que aos outros são negados. Se num concurso, seja para vagas às universidades, ou mesmo para ingresso no serviço público, existir qualquer reserva de vagas fixadas por uma determinada cor de pele, estamos diante não de uma sociedade se quer mais justa, mas de uma se quer racialista. E fora deste limite, não entende o resto.
Se antes, no sistema de cotas para o ensino superior, já se tinha aberto caminho para este tipo de sociedade racialista, ao aprovar o mesmo sistema para ingresso no serviço público, a presidente Dilma deu um passo a mais na direção oposta. E se aprovada, como se pretende, que na vida política existam cotas para deputados, então o mérito e o texto constitucional estarão dispensados e tornados letra morta.
Não se pode falar em “justiça” quando uma sociedade, ou um país, passa a classificar os indivíduos pela cor de sua pele. A todos as oportunidades devem ser iguais, e o mérito da ascensão deve ser a conquista pessoal fruto do esforço que cada um dedique em aproveitar a oportunidade oferecida. Até porque, convenhamos, o DNA dos negros e pardos brasileiros, cientificamente provado, é muito mais europeu do que africano.
Além disto, esta tal “correção” histórica que pretensamente se deseja através do sistemas de “cotas” é uma aberração descomunal. Os atuais 44% da população, que são aqueles com pele “branca” culpa alguma podem carregar pelas injustiças cometidas ao tempo do império e das primeiras décadas do século passado.
A lei, de certa forma, já protege negros e pardos contra qualquer preconceito ou discriminação. Por que então deveriam eles merecer um privilégio que aos brancos não se concede? Porque, no fundo, é exatamente disto que se trata. Mesmo que alguém obtenha em concurso notas menores, será consagrado à vaga não pelo esforço melhor, mas simplesmente porque sua pele lhe assegura condições superiores aos demais candidatos. E querem classificar isto como “justiça social”? Querem corrigir erros de história com uma injustiça em sentido contrário no presente? Desde quando um erro tem o dom de justificar outro? Desde quando fazer justiça concebe mais injustiça?
Quando tais ideias começaram a despontar, isto é, cotas para ingresso no serviço público, comentei aqui que nem o próprio governo petista a praticava. E dei um exemplo bem singelo: no ministério de 39 ministros de Dilma Rousseff, quantos eram negros ou pardos? E fui além: se o que se desejava era a tal correção da “injustiça histórica”, ela poderia começar pelos mais de 20 mil cargos de confiança, nomeando assim entre 4 a 5 mil negros e pardos. Fez isto? Claro que não, porque o sistema ali vigorante é o de cotas de filiação partidária e padrinhos fortes. Cor de pele nesta seara, nem pensar.
Diante disso, vê-se que o país segue em rota contrária ao de uma sociedade que se quer mais justa, sem discriminações de nenhuma espécie, sem segregação, sem preconceitos. Onde todos são, de fato iguais, e onde a ascensão seja social, política ou econômica se obtém via esforço pessoal empreendido pelos indivíduos. Infelizmente, ao implementar o racialismo, e é inegável que os sistemas de cotas raciais é racialismo na veia, estamos criando uma sociedade com preconceito racial às avessas. Estamos eliminando esta miscigenação tão rica que construiu o povo brasileiro. Estamos criando um estado que tenta preservar, absurdamente, um paraíso de raças puras quando, o que se tem, é uma única raça: a humana, com todos os seus aspectos distintivos que a emolduram. Chega ser vergonhoso que se tenha a distinção tola da tal cultura negra, quando no fundo ela é apenas uma manifestação que, assim como as demais, também misturou raízes culturais de brancos, índios e mestiços.
E, mais uma vez, ao invés de se corrigir injustiças de um passado, evitando repetir os mesmos erros no presente via educação, estamos ensejando a formação de uma sociedade segregacionista. O processo será muito longo e triste para ser corrigido. E, muito, mas muito mesmo, as futuras gerações de brasileiros irão lamentar a nossa estupidez atual.
Espionagem é espionagem e ponto.
A senhora Rousseff precisa urgentemente de um dicionário. Afirmou, de modo cínico, que a espionagem do Brasil é diferente da americana e ainda justificou o cancelamento da viagem aos Estados Unidos porquanto Obama não pediu desculpas ao Brasil.
Primeiro, espionagem pequena, grande, comercial e de cunho político é espionagem em qualquer lugar. O Brasil espionou diplomatas estrangeiros, tanto quanto espiona qualquer país sulamericano. Sabemos que a Polícia Federal monitora milhares de ligações telefônicas de brasileiros, muitas das quais ilegais e sem autorização prévia da justiça. Em que, senhora Rousseff somos diferentes, no cinismo de não querer admitir que praticamos aquilo que condenamos nos outros?
Por outro lado, a tal denúncia até agora não mostrou nenhuma transcrição de supostas conversas telefônicas interceptadas, como também não exibiu um único e miserável documento que comprovasse bisbilhotagem na Petrobrás. Assim, o cancelamento da visita de Estado foi apenas um pretexto vesgo de alguém que precisa criar um fato para tentar recuperar sua popularidade e, claro, em prejuízo do país. Deveria, antes de qualquer aborrecimento pessoal, ter tido a grandeza de uma chefe de estado que coloca o interesse do país acima de qualquer picuinha de natureza pessoal.
Volto a repetir o meu chavão preferido: Dilma até pode ser eleita, mas tanto sua política interna quanto externa são ridículas, e o Brasil merecia e precisa de alguém com mais competência e com maior dedicação ao interesse do país e não dedicada quase exclusivamente ao projeto de poder hegemônico de seu partido. A situação fiscal, por exemplo, está cada vez mais delicada e a tal ponto que paira a possibilidade de sermos o primeiro país do bloco BRIC’s a ter seu grau de investimento rebaixado.
Que recriminasse, como fez na ONU, a bisbilhotice americana, mas que colocasse o interesse do país acima de qualquer coisa. Se, como está provado, o Brasil também xereteia outros países, que largasse a hipocrisia de lado, e fosse aos Estados Unidos com o qual o Brasil tem interesses muito mais profundos e que mereciam e ainda merecem atenção. Ou acaso vamos desprezar os investidores de lá, apenas por serem americanos? Ora...