Paulo Castro
O Globo
O palco das Olimpíadas tem 40% dos alunos do ensino fundamental matriculados em escolas sem quadras esportivas. Isso é muito grave
O Brasil já é palco de grandes eventos internacionais, como Copa do Mundo, Olimpíadas e a Jornada Mundial da Juventude, recém-realizada. A chegada desses megaeventos tem enorme impacto, trazendo milhões de turistas e atraindo os olhos do planeta.
Essa discussão tem girado em torno do legado que será deixado ao país: obras de infraestrutura, investimentos bilionários, novos negócios. Mas há mais questões, como a imagem que o Brasil quer deixar para o mundo no que tange ao respeito aos direitos humanos.
Durante a Copa das Confederações tivemos uma clara demonstração do que isso representa. Por todo o mundo, o noticiário se dividiu entre os jogos e as manifestações. O mundo se deu conta de que há mais do que futebol e samba aqui: há desejo de transformação, há reivindicação por direitos.
Sobre os direitos das crianças e dos adolescentes, os megaeventos embutem riscos. Conhecido destino do turismo sexual e marcado pelo trabalho infantil, o Brasil deve ter consciência dos perigos de violação dos direitos que fazem parte das consequências de ser país-sede, como os interesses de redes que aviltam crianças e adolescentes.
Fazer cartazes de advertência e afixá-los em aeroportos e hotéis é pouco. O abuso e a exploração sexual são potencializados pelo turismo, mas possuem raízes que precisam ser combatidas e desarticuladas com muito mais vigor. Reside aí a oportunidade da reafirmação do compromisso com a promoção e a defesa dos direitos das crianças e adolescentes.
O momento é de refletir sobre as políticas para a infância e a adolescência no que se refere ao direito ao esporte e ao lazer. O palco das Olimpíadas tem 40% dos alunos do ensino fundamental matriculados em escolas sem quadras esportivas. Isso é muito grave, se tomarmos em conta a dimensão educativa do esporte, necessária para o desenvolvimento pleno dos seres humanos e decisiva para a formação de valores, como espírito de equipe e respeito a regras.
Por estas razões, a realização dos megaeventos esportivos é uma chance para pressionar prefeituras a instituir os conselhos municipais de esportes para estimular o acesso da população à prática esportiva. Já estamos sob os olhos de todo o planeta. Como queremos ser vistos como democracia? Não podemos esquecer de que já exportamos imagens terríveis no que se refere à violação dos direitos de crianças e adolescentes, como a chacina da Candelária, que completou duas décadas neste ano.
Desde então, o Brasil mudou muito, e o Estatuto da Criança e do Adolescente é um marco desta evolução, mas há muito a ser feito. Com os holofotes sobre nós, temos a chance de ratificar nosso compromisso com o futuro.
A Copa das Confederações já deixou um legado tão inesperado quanto rico, mostrando um país que não se contenta em celebrar vitórias no esporte. Que venha a Copa do Mundo, que venham as Olimpíadas! O mundo olhará para as medalhas de ouro, mas não deixará passar despercebido o que o Brasil tem a mostrar sobre seu estágio civilizatório.