Editorial
O Globo
Regimes ‘companheiros’, Cuba corre contra o tempo para não sucumbir e a Venezuela faz o contrário: dilapida riquezas para construir o socialismo chavista
Depois de participar, pela primeira vez em mais de três anos de mandato, da reunião anual mais importante do capitalismo em Davos, Suíça, a presidente Dilma Rousseff volta com escalas em capitais no outro extremo do espectro econômico e ideológico: Havana e Caracas. Na primeira, toma parte hoje de reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Na segunda, de encontro do Mercosul.
Se o Brasil precisa resolver graves problemas estruturais para recuperar o dinamismo, está em situação muitíssimo melhor que Cuba e Venezuela. Raúl Castro tenta reinventar o regime stalinista para não ver exaurir o legado da revolução. E o faz com medidas de liberalização que abrem pequenas portas à iniciativa privada, e com tentativas de redução do tamanho do Estado: a ideia é desmobilizar funcionários públicos, que têm a chance de abrir pequenos negócios, dirigir táxis, de modo a economizar fundos estatais para fins mais nobres.
Por afinidades ideológicas, Dilma estará mais à vontade em Havana e Caracas do que em Davos, embora seja a líder de um dos maiores mercados emergentes, onde a democracia felizmente vigora há 29 anos — o que é saudado pela própria presidente. Tudo bem ao contrário de Cuba e Venezuela.
Dilma descobriu uma forma de satisfazer uma necessidade premente do Brasil e, ao mesmo tempo, ajudar o regime “companheiro” cubano, com o Programa Mais Médicos, que ela irá reafirmar. Importa profissionais escassos no Brasil e despeja dólares nos cofres castristas.
Em Caracas, a chefe de Estado irá prestar solidariedade ao “companheiro” Nicolás Maduro, que preside a um dos mais terríveis desmoronamentos de uma nação, a Venezuela. Não que ele o tenha iniciado. Foi Chávez quem escolheu o insustentável rumo de populismo, exacerbação de gastos públicos, restrição das liberdades individuais, políticas e de expressão e imprensa, estatização desenfreada, perseguição à iniciativa privada. Financiado pelo petróleo, chamou tudo isso de “socialismo do século XXI”, que colhe uma inflação de 50%. Mas Chávez morreu e a bomba estourou no colo de Maduro. Este potencializa a catástrofe ao “aprofundar a revolução”.
O lulopetismo tenta ajudar a Venezuela, e na operação-socorro se destaca sua admissão ao Mercosul. Para azar do bloco, hoje com dois de seus membros na UTI: a Venezuela e, pior, o principal parceiro do Brasil, a Argentina, cada vez mais protecionista e no hall de entrada de grave crise cambial, como era esperado. A inflação dispara (com o dado oficial manipulado, cálculos privados apontam 37% em 2013), o dó lar decola no oficial e no paralelo e as reservas despencam — eram US$ 52 bilhões em 2011, estão em torno de US$ 29 bilhões. Por enquanto. Foi no que deu o kirchnerismo se inspirar no chavismo. Pode-se, enfim, esperar algum efeito didático das visitas de Dilma a Havana e Caracas. Está claro, ali,o que não se deve fazer.