segunda-feira, janeiro 27, 2014

Argentinos esnobam peso e querem dólar

José Luis Espert
O Globo

Apesar de o Estado ter arrecadação histórica, o gasto público cresceu tanto que o déficit fiscal é o quarto maior em meio século (6% do PIB)

O problema da disparada do dólar e/ou da perda de reservas do Banco Central está em que as pessoas não querem pesos, mas dólares. Por sua vez, isto ocorre porque a inflação no país é recorde mundial, as taxas de juros são extremamente negativas para o pequeno depositante e o controle cambial, ao romper a livre conversibilidade do peso em relação ao dólar, aumentou a incerteza, ou seja, fez com que o público demandasse ainda menos pesos e mais dólares.

Por que a inflação bate recorde mundial, as taxas de juro são negativas e há incerteza?Porque, apesar de o Estado ter obtido uma arrecadação histórica a partir de uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo, o gasto público que a classe política vota todos os anos em orçamentos nacionais, provinciais e municipais cresceu tanto que o déficit fiscal é o quarto maior em meio século (6% do PIB).

Este déficit é financiado com pesos que as pessoas não querem e dólares, que querem. Logo, ou o Banco Central perde reservas ou o dólar (oficial e paralelo) sobe.

Então, enquanto não se lance um plano anti-inflacionário de ajuste fiscal, monetário e de eliminação total do controle cambial que aumente a demanda por pesos e baixe a procura por dólares, a deterioração no mercado de dólares e das reservas continuará.

Haveria um caminho intermediário se o governo não está disposto a lançar um plano anti-inflacionário porque isto “cheira” a ajuste: a colocação da dívida para absorver pesos e dólares, mas sempre como ponte para um inexorável plano anti-inflacionário.

Desde outubro de 2011, o governo sempre disse que não havia controle... formal, de direito. Porque a compra de dólares pelas pessoas não estava proibida. Mas, quando alguém ia ao banco comprar dólares, não havia disponibilidade suficiente por parte da Afip (Receita Federal argentina). Assim, de fato, o controle existe desde 2011.

O chefe de Gabinete da Presidência, Jorge Capitanich, diz agora que os que demonstrem capacidade contributiva vão poder comprar dólares. Ou seja, o mesmo que ocorre há mais de dois anos. Nada mudou, portanto, salvo se a esse anúncio vazio for acrescentado conteúdo nos próximos dias. Veremos.

Este anúncio parece a fumaça que sai da negociação com o Clube de Paris: o Clube nega que haja começado e o governo afirma que sim, quando há um Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) assinado por Cristina Kirchner desde setembro de 2008, que manda pagar 100% da dívida com reservas do Banco Central.

A única coisa concreta anunciada é a redução de 35% a 20% da antecipação de lucros para compra de divisas para viagens ao exterior e para compras com cartões de crédito no exterior.