Carlos Newton
Tribuna da Imprensa
Não é preciso ser especialista para apontar as contradições do depoimento de Maria das Graças Foster no Senado. A presidente da Petrobras falou muito, mas não conseguiu explicar nada. Não apresentou documentos que comprovassem suas alegações e acabou se contradizendo muitas vezes, evidenciando que a compra da refinaria nos Estados Unidos (em Pasadena, Texas) foi mesmo uma negociata jamais vista na Petrobras.
1ª CONTRADIÇÃO: PREJUÍZO OU LUCRO
Como se viu, Graça Foster (ela prefere ser chamada assim) admitiu que hoje “não há como reconhecer contabilmente” que Pasadena foi bom negócio. Contudo, defendeu as premissas que embasaram a decisão, sob o argumento de que a Petrobras, antes da crise financeira de 2008, tinha margens “muito boas” (ou seja, dinheiro em caixa para esbanjar). Confessou que o prejuízo para a Petrobras com aquisição da refinaria foi de US$ 530 milhões. Depois, caiu em contradição, ao dizer que a usina tem operado em sua capacidade de processamento, de 100 mil barris por dia.
É uma argumentação falaciosa. Se a unidade realmente processasse 100 mil barris por dia, teria sido um grande negócio, a Petrobras estaria no lucro, o assunto estaria encerrado e nem haveria necessidade de CPI ou qualquer outra apuração a respeito.
2ª CONTRADIÇÃO: DECISÃO ESTRATÉGICA
Graça Foster disse aos parlamentares que, em 2005, a ampliação de refino fora do Brasil era “decisão estratégica”. Alegou que, no caso de Pasadena, o motivo principal era a localização da refinaria em um grande centro do maior mercado consumidor mundial. Como se isso significasse grande coisa, informou que o Citigroup deu aval para aquisição de Pasadena, com ressalvas comuns. “Precisávamos refinar o óleo pesado do Campo de Marlim fora do país”, completou, sem que nenhum parlamentar manifestasse estranheza.
A alegação da “decisão estratégica” de ter refinarias fora do Brasil precisa ser confirmada. Em que estudo técnico essa decisão se baseou? A melhor estratégia, por óbvio, sempre foi instalar mais refinarias aqui, como está acontecendo agora. Com essa desculpa sem a menor base, Graça apenas tentou abrir algum caminho que pudesse justificar a compra de Pasadena.
3ª CONTRADIÇÃO: A IMPORTÂNCIA DO AVAL
Dizer que o Citigroup deu aval, como se isso comprovasse alguma coisa, chega a ser ridículo. Qualquer organização bancária do mundo aceita avalizar as negociações da Petrobras, não só porque ganha dinheiro com isso, mas também porque a empresa brasileira tem patrimônio gigantesco, muito maior do que o do próprio Citigroup, que anda mal das pernas e recentemente teve de ser socorrido pelo governo americano.
4ª CONTRADIÇÃO: REFINAR ÓLEO PESADO
Por fim, dizer que “a Petrobras precisava refinar o óleo pesado do Campo de Marlim fora do país” é um disparate completo. Ocorre justamente o contrário. A Petrobras precisa desesperadamente refinar óleo pesado aqui no Brasil, mas não domina as melhores tecnologias, desenvolvidas por especialistas canadenses e venezuelanos, acreditem se quiserem. A Petrobras tem de importar óleo leve (mais caro) para misturar ao óleo pesado e conseguir processá-lo no país. Aliás, a importância da parceira com a Venezuela na refinaria Abreu Lima era justamente para adquirir tecnologia de refino do óleo pesado extraído em nosso país.
5ª CONTRADIÇÃO: PASSANDO DOS US$ 2 BILHÕES
A presidente da empresa também informou que o investimento na refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), chegou a US$ 685 milhões, desde sua aquisição pela companhia de petróleo brasileira em 2006. Mas esse valor não inclui o aporte total de U$ 1,23 bilhão que a Petrobras pagou pela refinaria. Ou seja, com a correção monetária, o gasto está passando dos US$ 2 bilhões, valor de uma refinaria zero quilômetro e de maior capacidade.
E sabe-se que a Petrobras já tentou vender a unidade (instalada pela dinastia Rockefeller em 1934), mas não conseguiu oferta que chegasse nem mesmo a US$ 200 milhões, o que significa apenas um décimo do total já “investido”, se é que podemos considerar assim.
CONCLUSÃO: O QUE FALTA SABER
A presidente da Petrobras omitiu as principais informações, que deveriam ser entregues por escrito aos parlamentares, em forma de relatório. O que se precisa saber agora é quanto a refinaria realmente produz por dia e quem fornece petróleo bruto, já que a produção da subsidiária Petrobras America é de apenas 22,9 mil barris diários. Ficam faltando, portanto, 77,1 mil barris diários para completar os 100 mil barris que Graça Foster alardeia, em sua missão impossível de tentar justificar o injustificável…
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