quinta-feira, maio 08, 2014

Médicos se recusam a trabalhar no Complexo do Alemão

Pâmela Oliveira
Veja online

Uma semana após a invasão da UPA, quatro médicos, um técnico e um enfermeiro pediram demissão. Prefeitura tem dificuldade para repor profissionais no conjunto de favelas que o Estado considera "pacificado"

(Guilherme Pinto/Agência O Globo) 
UPA do Complexo do Alemão foi depredada durante protesto de moradores 

A invasão à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Complexo do Alemão, no último dia 28, agravou um problema que se arrasta há quase um ano: a dificuldade de se contratar e manter médicos em uma área da cidade que, apesar de ocupada pelas forças de segurança desde novembro de 2010, voltou a ter confrontos diários entre policias e traficantes. Uma semana depois do ataque, quatro médicos, um enfermeiro e um técnico de enfermagem pediram demissão. E um médico, que começaria a trabalhar na semana da depredação, voltou atrás e não assinou o contrato. O Complexo do Alemão é um dos locais considerados "pacificados" pelo governo do Estado, por ter uma Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

O medo que se espalha entre os médicos e profissionais de serviços públicos no Alemão representa uma grande perda para a população. O clima é de medo entre os funcionários da unidade, localizada na estrada do Itararé, um dos acessos ao complexo de favelas. Episódios de violência não são raros: um médico já foi agredido com um tapa no rosto e computadores foram atingidos diversas vezes por socos desferidos por pacientes descontentes com o atendimento. Em maio do ano passado, a rotina de violência e medo levou 13 médicos a pedirem demissão da UPA, que até hoje encontra dificuldades para repor a debandada.

Os plantões, que deveriam ser compostos por quatro médicos – dois pediatras e dois clínicos – estão incompletos "Muitas vezes as pessoas já chegam aqui irritadas porque buscaram atendimento em outros locais e não conseguiram. Aqui, eles são atendidos, mas às vezes demora porque são muitos pacientes e eles acabam descontando na gente", disse um profissional que pediu para não ser identificado. 

A tensão não se limita aos profissionais da UPA. Moradores contam que escolas, creches e até um banco inaugurado logo após a ocupação do conjunto de favelas, no Parque Proletário, encerra o expediente às 15h. Os funcionários, que não são moradores do local, têm medo de ficar presos nas favelas após o fim da tarde. Por isso, se programam para deixar o local no meio da tarde. Caso ocorra qualquer confronto que impeça a movimentação dentro da favela, eles ainda têm margem de tempo antes do anoitecer.

“Uma moradora da Vila Cruzeiro reclamou comigo essa semana. Ela contou que o Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI), inaugurado esse ano, fecha às 15h. Ou seja, ela tem que pedir a uma vizinha ou a outro morador para ficar com a criança até voltar do trabalho”, diz o presidente da Associação de Moradores do Merendiba, Cláudio dos Santos. “O banco Santander, por exemplo, fica a poucos metros da base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas mesmo assim fecha cedo porque os funcionários têm medo de ficar no complexo até o fim da tarde”, conta Santos.

A rotina de limitações impostas aos moradores de áreas historicamente conflagradas pelo crime se repete no Complexo da Maré, na Zona Norte. A chegada das forças de segurança, há 37 dias, não alterou o horário de funcionamento de escolas, creches e unidades de saúde, que encerram as atividades no meio da tarde devido ao risco de conflitos.

O CIEP Elis Regina, que recebeu a visita do governador Luiz Fernando Pezão e do secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, na última sexta-feira, é um dos que encerra o turno às 15h. Localizada entre as favelas Baixa do Sapateiro e Nova Holanda, dominadas por facções rivais, a escola libera os alunos do turno da tarde duas horas antes do horário estipulado pela Secretaria municipal de Educação, prejudicando a formação dos estudantes.

O encerramento das atividades às 15h era, segundo lideranças comunitárias ouvidas pelo site de VEJA, a única forma de convencer funcionários municipais a trabalhar dentro do complexo antes da entrada das forças de segurança. Professores, enfermeiros e médicos se recusavam a permanecer nas favelas após o meio da tarde. 

A ocupação, acreditavam os moradores, acabaria com a antecipação do fim das atividades, que inclui ainda o horário de funcionamento das creches. Um dia após a entrada das forças policiais no Complexo da Maré, o subsecretário de Atenção Primária, da Secretaria Municipal de Saúde, Daniel Soranz, e um subsecretário de educação participaram de uma reunião na Vila dos Pinheiros. Ficou decidido, desde então, que as unidades municipais voltariam a funcionar no horário normal. O encontro ocorreu na Praça da Pacificação, local onde foi hasteada a bandeira do Brasil no dia 30 de abril, durante a cerimônia que simboliza a retomada do território.

Os confrontos continuaram e a determinação de funcionamento em horário normal não foi cumprida. A Secretaria municipal de Educação informou que a orientação é para que as unidades comecem a funcionar até as 17h15. A secretaria informou ao site de VEJA que vai fazer um levantamento para saber quais unidades não estão seguindo a determinação.