quarta-feira, julho 23, 2014

A muralha de Cristina

Francisco Jueguen (*)
O Globo

Apesar da maquiagem que o governo argentino impôs, diferença entre dados oficiais e privados aumenta inevitavelmente a cada mês

O imperador Qin Shihuang não ficou na História somente por ter mandado construir a “quase infinita” — como a descreveu Borges — Muralha da China. Em outra de suas vastas operações, mandou que fossem queimados todos os livros anteriores a seu reinado. Esta ordem tinha, entre outros sentidos possíveis, o de apagar o passado. Assim, toda a história de seu povo começaria com ele, que se autodenominou “o primeiro imperador”.

Dias atrás, o Indec informou, em sua página na web, que eliminaria de sua base digital de dados toda a informação da Pesquisa Permanente de Domicílios (EPH, na sigla em espanhol) anterior a 2007, ano em que o órgão estatístico sofreu intervenção por ordem de Néstor Kirchner, para que começasse a falsificar os dados sobre a realidade argentina. A EPH é usada para calcular o índice de pobreza, entre outros importantes indicadores sociais. Segundo cálculos de ex-técnicos do instituto, o governo fez desaparecer 13,4 milhões de pobres. É a “década ganha”.

A falsificação da realidade à imagem e semelhança do relato oficial tinha um objetivo marcado há sete anos: os dados positivos da economia tinham reconstruído a borrada silhueta presidencial argentina desde a crise de 2001/2002. O fantasma da inflação, desativada nos anos 1990, voltava a ameaçar a renovada estabilidade política.

Apesar da crença generalizada, Guillermo Moreno procurou ser sutil. Durante um ano, reclamou da lista de fontes “aliviadas” pelo Indec protegidas pelo segredo estatístico. A ideia era apertar os comerciantes para obter a chamada “manipulação externa” do índice de preços. Não conseguiu quebrar a resistência dos técnicos do órgão. No início de 2007, enviou Beatriz Paglieri para retocar os dados do turismo, das tarifas e do alface. Nada voltou a ser o mesmo.

Foi uma missão política. Desde então, o Indec se converteu na usina principal do relato oficial. Se, séculos atrás, a estatística nasceu como a ciência do Estado, como sua máquina do saber, nas mãos do kirchnerismo os números do organismo mudaram ontologicamente e se converteram num dispositivo de poder para potencializar a construção do relato com um único objetivo: manter e reproduzir sua hegemonia. Havia na época uma melhoria dos salários, mas a inflação já começava atingir a sociedade, sobretudo os pobres.

As coisas começaram a mudar há dois anos. Nos três últimos dissídios dos professores, dois foram encerrados por decreto e um reajuste dos salários reais. Na atualidade, devido à recessão, o esvaziamento dos bolsos começa a afetar os trabalhadores privados. Os bancos, as consultorias privadas e a União Industrial Argentina (UIA) estimam que este ano fechará com uma inflação de 35%. Os alimentos, segundo dados oficiais da Cidade de Buenos Aires, já tiveram alta de cerca de 40% nos últimos 12 meses. Somente o Sindicato dos Empregados no Transporte Automotor e os trabalhadores de bares e restaurantes obtiveram 35% de aumento salarial. Os demais ficaram abaixo: comércio (27%), estatais (28%), professores nacionais (29%), metalúrgicos (30%), construção civil (30%), farmácias (32%) e caminhoneiros (33%). Com este cenários, era previsível um chamado de greve nacional para o início de agosto.

Apesar da maquiagem que o governo impôs depois de seu pacto com o FMI sobre as estatísticas oficiais, a diferença entre os dados oficiais e os privados aumenta inevitavelmente a cada mês. Desta vez o objetivo parece econômico: o Indec de Axel Kicillof, que responde a Cristina Kirchner, é cúmplice do ocultamento dos reajustes salariais que as empresas e o Estado praticam sobre os trabalhadores.

São cada vez menos os que acreditam no Indec de Kicillof. O objetivo de construir o relato da retirada ficará então em mãos da Secretaria de Coordenação Estratégica para o Pensamento Nacional, dirigida por Ricardo Forster. “Defenderemos fortemente as políticas dos últimos dez anos”, reafirmou ele dias atrás, no lançamento de um projeto que tem data de vencimento em 2015. No fim de seu ciclo, o kirchnerismo se fecha cada vez mais sobre si mesmo.

A História tem seus caprichos. Segundo contam os que o estudam, Qin Shihuang proibiu que se mencionasse a morte em seu reino, buscou sem cessar o elixir da imortalidade e se refugiou num palácio. Esses dados, conta Borges, sugerem que a Muralha foi uma barreira mágica para deter a morte. Talvez o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em uma ordem fechada. Quem sabe Cristina crê poder esconder-se atrás de sua muralha.

(*) Francisco Jueguen é colunista de “La Nación”, de Buenos Aires, do Grupo de Diários América (GDA)