sexta-feira, julho 18, 2014

‘Nova Oi’ nasce com capital 16,6% menor

Glauce Cavalcanti,  Bruno Rosa e  Rennan Setti
O Globo

Para união com Portugal Telecom sair, será preciso mudar regulamento do mercado

RIO - A CorpCo, empresa resultante da fusão entre Oi e Portugal Telecom (PT), vai nascer menor. Como a PT não recebeu o pagamento de uma aplicação de € 847 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões), que venceu na terça-feira, a Oi decidiu converter essa dívida em ações, que serão congeladas por até seis anos, ao serem custodiadas em Tesouraria.

Na prática, saem de circulação cerca de 16,6% do capital total da Oi, que acabou de passar por uma capitalização, ao absorver toda a PT justamente para criar a nova companhia — que terá cerca de R$ 3 bilhões a menos em seu caixa, recurso que seria usado para a redução de seu endividamento, de R$ 41,2 bilhões. Para a união entre as duas ser concretizada, será preciso ainda alterar a regulamentação do mercado de capitais no Brasil, que proíbe companhias de terem mais de 10% de suas ações em Tesouraria.
O acordo, divulgado na última madrugada, começou a ser costurado há duas semanas, quando veio à público o investimento de € 897 milhões (R$ 2,7 bi) da PT em títulos da RioForte, empresa do Grupo Espírito Santo, que passa por dificuldades financeiras e detém 10% da PT.

Desse total, outros € 50 milhões (cerca de 150 milhões) vencem hoje. Como consequência, a fatia da PT foi reduzida na Oi (de 39,7% para 27,5%) e, assim, na CorpCo, cuja participação portuguesa caiu de 37,3% para 25,6%.

Especialistas e fontes do setor, porém, criticaram o acordo, levantando dúvidas e afirmando que investidores americanos podem questionar a fusão na Justiça dos EUA. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais, informou que a “organização societária envolvendo a Oi vem sendo objeto de análise”.

Fontes lembraram que a fusão, prevista para ser concluída em outubro, só deve sair em 2015. A própria PT admite que podem ocorrer “eventuais atrasos” na união.

‘COMPANHIA ENFRAQUECIDA’
Pelo acordo, a PT será a responsável por negociar com a RioForte o pagamento da dívida, que poderá ser abatida anualmente. Em troca, recebe as ações da Oi, que estão congeladas. Para isso, as duas empresas arbitraram um valor do papel ordinário (ON, com direito a voto) da Oi em R$ 2,01 e do preferencial (PN, sem direito a voto) em R$ 1,85, mais correção.

O valor usado como referência, diz uma fonte do setor, foi o de duas semanas atrás, antes do estouro da crise entre as duas companhias. Analistas criticaram o fato de os papéis terem uma cotação maior que as de quarta-feira na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), quando as ONs fecharam a R$ 1,81 (+11,43%) e as PNs, a R$ 1,75 (+12,17%). A Bovespa fechou em queda de 0,46%, aos 55.717 pontos. O dólar fechou estável, a R$ 2,22.

— A base de cotação prejudica os acionistas da Oi. Se daqui a um ano, o valor das ações estiver menor, a PT pode não fazer a opção de compra do papel. Se estiver maior que a cotação estabelecida, pode comprar o papel e embolsar o ganho. A PT está sendo premiada. Nunca nenhuma empresa no Brasil teve 16,6% de seu capital na Tesouraria — disse uma fonte.

Em relatório, a analista do banco Brasil Plural Carolina Hess escreveu que soou “estranho” o valor maior da cotação do papel em relação ao valor de mercado, o que pode ser benéfico para a PT. Para Walter Piecyk, da trading americana BTIG, a gestão ainda sofre com problemas de credibilidade, o que poderia dificultar o levantamento de capital daqui para frente:

— A companhia terá que dar um jeito de manter o preço das ações acima do valor acordado pelas opções para ter a chance de preencher o passivo que esperava receber da RioForte.

Lucas Martins, da Ativa, e Pedro Galdi, da SLW, lembram que a CorpCo, por ter menos caixa no primeiro momento, pode revisar alguns projetos no curto prazo. Ao mesmo tempo, ela terá de gerenciar seu nível de endividamento. Mas ressaltam que a nova empresa, por ter operações no Brasil, em Portugal e em países da África, terá forte geração de caixa.

Segundo os analistas, a fatia dos outros acionistas da Oi permanece a mesma em relação ao capital total, mas menor em relação às ações em circulação. Os papéis da PT subiram 3,27% na Bolsa de Lisboa, assim como os do Banco Espírito Santo (BES), com alta de 19,7%.

Apesar da alta nas ações, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou os ratings da Oi e da PT. Segundo a empresa, a alavancagem líquida da CorpCo terá aumento de 0,3 vezes. Analistas afirmam que o episódio afetou a imagem e a governança da companhia.

Fontes do setor voltaram ainda a questionar o porquê do investimento feito pela PT na RioForte não ter sido informado durante o processo de capitalização da Oi, há três, que somou quase R$ 14 bilhões. Uma fonte lembrou ainda que a companhia passará por mudanças no Conselho de Administração da CorpCo, o que deve significar menos poder da PT no conselho.

O acordo divulgado pelas empresas ainda precisa passar pelo crivo dos acionistas da Oi e da PT, o que deve ocorrer até setembro.

— A estratégia por trás da fusão era fortalecer a Oi para que ela fosse capaz de investir em qualidade e competir com as rivais de igual para a igual. Só que a PT que se juntará à operadora brasileira é uma companhia enfraquecida, que sofreu um calote enorme. Eles terão que arranjar uma solução, porque os investimentos continuam precisando ser feitos — disse Juarez Quadros, sócio da consultoria Orion e ex-ministro das Comunicações.

ATIVOS DA RIOFORTE À VENDA
No centro do impasse, está a RioForte, empresa que reúne ativos não-financeiros do Grupo Espírito Santo (GES), que está começando a vender parte de seus ativos. A companhia de investimento controla as atividades do GES na América do Sul, onde atua desde os anos 70.

No Brasil, as atividades em agropecuária são desenvolvidas pela Cobrape, na Fazenda Pantanal de Cima (TO), e pela Companhia Agrícola Botucatu, em parceria com a Agriways, na Fazenda Morrinhos, no interior de São Paulo. Na área de energia, tem participação na Georadar, de serviços para a indústria de óleo e gás; na Luzboa, de PCHs em Minas Gerais, além da Energias Renováveis do Brasil, de geração de energia de biomassa. No setor imobiliário, tem a Espírito Santo Property Brasil, parceria com o grupo Óscar Americano. Na indústria, tem participação no Grupo Monteiro Aranha.

No setor hoteleiro, a empresa é dona da rede Tivoli Hotels & Resorts, que estaria à venda.

Ao menos três grupos fizeram ofertas para adquirir as unidades da companhia portuguesa, afirmam fontes de mercado.

A principal proposta reúne a espanhola Iberostar, que tem mais de cem hotéis, com dois resorts e um barco-hotel no Brasil, em parceria com o fundo Pimco (EUA) e a Helvetia (Suíça), totalizando mais de € 330 milhões, disse uma fonte.

Em nota, a Iberostar disse que está “permanentemente buscando novas oportunidades de negócios e parcerias em todo o mundo”, mas que sua política prevê a comunicação de novos negócios apenas quando os acordos estão confirmados.

Grupos de Portugal, como o Pestana Hotels, e da Tailândia também estão na disputa pela Tivoli. Ainda no setor hoteleiro, a RioForte detém 3,7% de participação na brasileira BHG, que totaliza 51 hotéis no Brasil. A fatia da empresa portuguesa no grupo, segundo valores de mercado, equivaleria a R$ 30 milhões.