Assis Moreira, Valor Econômico
O Globo
Negociações entre os dois países vão desde a cooperação na pecuária até a áreas como defesa
Foto: Altaf Hussain / Reuters
Jair Bolsonaro, presidente do brasil, e Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia,
durante a assinatura de acordos bilaterais
NOVA DELHI — O presidente Jair Bolsonaro destacou neste sábado, em Nova Delhi, capital da Índia, um reforço da parceria estratégica com o país asiático que, ao seu ver, vai potencializar os negócios bilaterais entre os dois emergentes com uma população que junta chega a 1,5 bilhão de pessoas.
Os dois países confirmaram a assinatura de 15 acordos bilaterais, numa cerimônia na Hyderabad House, o palácio que o governo indiano usa para banquetes e encontros com visitantes estrangeiros. Inclui desde tratado para facilitação de investimentos a cooperação na pecuária e produção leiteira.
Para fontes da deleção brasileira, Bolsonaro e Narendra Modi, o primeiro ministro indiano, apertaram o botão para reiniciar o relacionamento com um forte potencial econômico dos respectivos mercados.
— O sentimento que levo é de que são dois países que, ao firmar grandes parcerias, irão potencializar e fazer com que o mundo olhe de maneira diferentes para nós — afirmou Bolsonaro.
Modi destacou o volume dos acordos anunciados, como também o potencial para aprofundamento em áreas como a defesa. Ele acredita que juntos, Brasil e Índia podem impulsionar também reformas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde ambos desejam ter assento permanente.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, ao saudar seu "querido amigo Bolsonaro", falou de uma "parceria estratégica que tem bases em ideologia e valores parecidos". E que, apesar da distância geográfica entre os dois grandes emergentes, eles estão "juntos, de mãos dadas, em muitos fóruns globais", além de serem "parceiros de desenvolvimento"
Em seu primeiro dia de visita oficial à Índia, Bolsonaro e o primeiro-ministro indiano deram mostras públicas de apreciação recíproca, enquanto analistas observam posturas nacionalistas de direita, polêmicas e críticas a ambos na cena internacional.
'Ameaça à democracia'
Foto: Alan Santos / Presidência da República
Bolsonaro desembarca em Nova Délhi, na Índia, para visita oficial de três dias.
Presidente chegou por volta de 16h (7h30 de Brasília), após um voo que durou cerca de 25 horas
Na sexta-feira, o presidente Bolsonaro minimizou críticas feitas na imprensa a seu anfitrião e se comparou a ele. A revista britânica The Economist publicou reportagem focada numa "Índia intolerante" e acusando Modi de ser uma ameaça à democracia indiana.
A crítica fez referencia a uma medida, a Citizenship Amendment Bill, que emenda uma lei de 1955, regularizando os refugiados hindus, sikhs, cristão, budistas, parsis e outros que chegaram antes de 2014e fugiram por razões religiosas do Afeganistão, Paquistão e Bangladesh. Apenas os residentes muçulmanos são excluídos do dispositivo, permanecendo sem documentos e portanto sem direitos.
— Dizem que eu também sou ameaça à democracia. Diziam durante a campanha (eleitoral) e dizem agora — reagiu Bolsonaro na sexta-feira, ao ser questionado sobre a reportagem.
Neste sábado, após a primeira reunião com Modi, Bolsonaro disse que só vai viajar de volta ao Brasil dentro de dois dias.
— Mas já estou com saudades da Índia — disse Bolsonaro.
Acordos
Foto: Alan Santos / Presidência da República
Bolsonaro estava acompanhado da filha, Laura Bolsonaro,
e da enteada, Letícia Firmo
O aprofundamento da relação estratégica entre o Brasil e a Índia vem com um plano de ação para vigorar até 2023, pelo qual os países vão acompanhar os 15 acordos anunciados hoje e examinar outros a serem incluídos mais tarde.
Um dos principais acordos entre os dois grandes emergentes visa facilitar e promover o investimento mútuo, incluindo mecanismo de diálogo, de mitigação de riscos e de prevenção de controvérsias. Outro acordo regula a relação entre os dois grandes emergentes sobre benefícios e cobertura da previdência social.
Também considerado da maior importância o memorando de entendimento sobre cooperação para promover a produção e o uso de bicombustíveis, incluindo etanol, biodiesel, bioquerosene e biogás, bem como bioenergia e co-produtos e subprodutos.
Outro acordo é sobre assistência mútua em matéria penal, em especial no combate à corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico ilícito de pessoas, drogas, armas de fogo, munição e explosivos, terrorismo e seu financiamento.
Um programa de intercâmbio cultural para 2020-2024 também foi acertado.
Na área econômica, foi anunciado também um memorando de entendimento para incentivar e promover a cooperação bilateral em questões mútuas relacionadas à exploração petrolífera e de gás. Na mesma linha, Brasil e Índia querem desenvolver cooperação sobre geologia e recursos minerais.
Outro memorando de entendimento foi assinado para intercâmbio de informações referentes à segurança cibernética, ''de acordo com as leis, regras e regulamentos relevantes de cada país e com base na igualdade, na reciprocidade e no benefício mútuo.''
Um programa de cooperação entre ciência e tecnologia entre 2020-2023 também foi anunciado. Também haverá cooperação para o estabelecimento de uma instituição na Índia para desenvolver pesquisa em bioenergia.
Na área agrícola, foi divulgada uma declaração conjunta para fortalecer a cooperação em pecuária e produção leiteira.
Um memorando de entendimento também prevê cooperação em medidas de primeira infância.


