Lucas Altino e Giselle Ouchana
O Globo
Dados do ISP revelam que assassinatos caíram onde agentes mataram menos
Foto: Pablo Jacob / Agência O GLOBO
Números mostram que assassinatos caíram onde agentes mataram menos
RIO — Uma análise dos dados da criminalidade no ano de 2019 mostra que a queda recorde no número de homicídios no Rio, a maior desde 1991, nada tem a ver com a escalada das mortes em confrontos policiais que aterrorizam a população. Para especialistas, o avanço da milícia ainda é o melhor caminho para entender o atual quadro de violência do estado.
O GLOBO cruzou dados de mortes por intervenção de agentes do estado com os de homicídios. Nos cinco bairros que tiveram mais casos de pessoas mortas em confrontos no ano passado — Bangu, Ilha do Governador, Niterói, Praça da Harmonia e Tijuca —, o homicídio subiu em um deles e, em outro, o total foi o mesmo de 2018. Ao mesmo tempo, os homicídios caíram em todos os cinco lugares que registraram as maiores quedas da letalidade policial — Santa Cruz, Mesquita, Duque de Caxias, Magé e Leblon.
— Todas evidências mostram que não há relação entre aumento de autos de resistência e a queda de homicídios — disse o sociólogo Ignacio Cano, professor da Uerj.
Os índices de violência do Rio em 2019, divulgados na terça-feira pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), mostraram que o estado teve 3.995 homicídios dolosos no ano p assado contra 4.950 em 2018 — uma redução de 19,3%. Por outro lado, foram 1.810 mortes em confronto com a polícia, em média, cinco por dia. É o maior número registrado desde 1998, início da série histórica.
Pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Alberto Liebling Kopittke observa que a violência policial, cada vez mais explícita, deve ser tratada como um dos grandes problemas do Rio e não como remédio:
— Possivelmente, parte da redução dos índices pode ser explicada porque o crime está dominando cada vez mais territórios, e não ficando mais fraco.
A antropóloga Jaqueline Muniz, professora de Segurança Pública da UFF, afirma que é preciso estudar a crescente influência da milícia para entender a nova dinâmica das quadrilhas do estado.
— O estado tem funcionado como agência reguladora do crime. É um processo de privatização dos recursos públicos da segurança, que implica no barateamento da vida do policial e das vidas de moradores da periferia — avalia.
Ex-chefe do Estado-Maior da PM, o antropólogo Robson Rodrigues também destaca que não há relação de causalidade entre os dois índices:
— Prova disso é que há áreas, por exemplo, em que os dois índices caem.
Nesta quarta-feira, o governador Wilson Witzel comemorou os resultados e criticou quem questiona o aumento da letalidade contra “vagabundos”.
