Por Pedro Porfírio, na Tribuna da Imprensa
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"Se você conhecer uma pessoa muito idosa e esquerdista, é porque ela está com problema. Se acontecer de conhecer uma pessoa muito nova de direita, também está com problema." (Luiz Inácio Lula da Silva, nascido em 1945)
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E agora? Nasci em 1943, tenho a cabeça branquinha há uns 20 anos, mas os cabelos começaram a pratear já aos trinta. Adolescente, de uma família conservadora, apaixonei-me primeiro pela revolução francesa. Foi quando fiquei sabendo: nos Estados Gerais, as representações do povo (o terceiro estado) sentavam-se à esquerda; clero e nobreza, à direita e ao centro.
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A esquerda passou a identificar os inconformados com a injustiça social e as desigualdades. E já na segunda metade do Século XIX se aplicou aos defensores do socialismo, anarquismo e comunismo, de tudo o que se opunha ao capitalismo. Por isso me criei na esquerda.
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O tempo foi passando e hoje, ao contrário de sua lógica, alimento os mesmos sonhos. Sem tirar, nem pôr. Estou cada vez mais convencido de que esse capitalismo individualista já deu o que tinha de dar. Principalmente por estas plagas, onde a concentração de renda se mescla com a transferência de nossas riquezas para centros hegemônicos da economia global.
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Isso significa o quê? Estarei com algum problema fora da percepção médica ou psicológica? Não notei nada de especial. Ou será que o não ter notada é o "x" do problema? Um colérico eleitor do PT já me chamou de "psicótico, maníaco, depressivo". Então é isso?
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Esquerda de cabelos brancos
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Vou continuar sonhando os mesmos sonhos e não pretendo pintar o cabelo. Com certeza, não sou o único. Conheço brasileiros mais vividos que atravessaram todas as procelas e se mantiveram na plenitude de sua dignidade ideológica.
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Mário Alves já não era garoto quando foi torturado até à morte nos porões do DOI-Codi. Carlos Marighela tinha 58 anos quando, à frente de um grupo de guerrilha, foi alvejado mortalmente. Luiz Carlos Prestes passou dos 90 anos fiel às suas convicções. E Brizola, nossa grande referência, morreu cultivando a coerência com suas convicções e sua biografia.
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Que diria Lula de Osmar Niemeyer? O mais consagrado arquiteto brasileiro está aí, com uma obra aclamada em todos os países do mundo, e a mesma convicção dos tempos juvenis. Estará ele também com algum problema?
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Quando Lula diz uma coisa, pode crer, não é ao acaso. Cumpre alguma tarefa, decorrente de alguma conversa e com vistas a um desdobramento. Sua declaração num evento de bacanas de alto coturno tem endereços certos. Vale a pena transcrever mais do seu achado filosófico:
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"Eu agora sou amigo do Delfim Netto. Passei 20 e tantos anos criticando o Delfim Netto e agora ele é meu amigo, e eu sou amigo dele. Por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana. Quem é mais de direita, vai ficando mais de centro. Quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. E as coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito".
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Digamos que ele está tentando uma "descompressão compensatória" em face da lista de presidentes eleitos na América Latina com discursos de esquerda. Só Deus sabe como deve ter sido seu relacionamento a quatro paredes com Evo Morales e Hugo Chávez na reunião da semana passada, na qual o presidente venezuelano desabafou, dizendo que o nosso continente está sem rumo.
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Todo mundo sabe que o governo Bush paga qualquer preço para desarticular qualquer tentativa de formatação de um bloco deste lado do equador. E todo mundo sabe que a Casa Branca relaciona o nosso presidente entre os amigos do peito para situações desconfortáveis. Não teria sido essa declaração um presentinho para aliviar a situação de Bush, que já impacienta a própria sociedade norte-americana?
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No sindicato pela direita
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Mas não é só isso. Como já lembrei aqui mais de uma vez, Lula nunca foi de esquerda. Por mais de uma vez, questionado a respeito, disse ser apenas um torneiro-mecânico.
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"Se você conhecer uma pessoa muito idosa e esquerdista, é porque ela está com problema. Se acontecer de conhecer uma pessoa muito nova de direita, também está com problema." (Luiz Inácio Lula da Silva, nascido em 1945)
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E agora? Nasci em 1943, tenho a cabeça branquinha há uns 20 anos, mas os cabelos começaram a pratear já aos trinta. Adolescente, de uma família conservadora, apaixonei-me primeiro pela revolução francesa. Foi quando fiquei sabendo: nos Estados Gerais, as representações do povo (o terceiro estado) sentavam-se à esquerda; clero e nobreza, à direita e ao centro.
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A esquerda passou a identificar os inconformados com a injustiça social e as desigualdades. E já na segunda metade do Século XIX se aplicou aos defensores do socialismo, anarquismo e comunismo, de tudo o que se opunha ao capitalismo. Por isso me criei na esquerda.
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O tempo foi passando e hoje, ao contrário de sua lógica, alimento os mesmos sonhos. Sem tirar, nem pôr. Estou cada vez mais convencido de que esse capitalismo individualista já deu o que tinha de dar. Principalmente por estas plagas, onde a concentração de renda se mescla com a transferência de nossas riquezas para centros hegemônicos da economia global.
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Isso significa o quê? Estarei com algum problema fora da percepção médica ou psicológica? Não notei nada de especial. Ou será que o não ter notada é o "x" do problema? Um colérico eleitor do PT já me chamou de "psicótico, maníaco, depressivo". Então é isso?
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Esquerda de cabelos brancos
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Vou continuar sonhando os mesmos sonhos e não pretendo pintar o cabelo. Com certeza, não sou o único. Conheço brasileiros mais vividos que atravessaram todas as procelas e se mantiveram na plenitude de sua dignidade ideológica.
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Mário Alves já não era garoto quando foi torturado até à morte nos porões do DOI-Codi. Carlos Marighela tinha 58 anos quando, à frente de um grupo de guerrilha, foi alvejado mortalmente. Luiz Carlos Prestes passou dos 90 anos fiel às suas convicções. E Brizola, nossa grande referência, morreu cultivando a coerência com suas convicções e sua biografia.
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Que diria Lula de Osmar Niemeyer? O mais consagrado arquiteto brasileiro está aí, com uma obra aclamada em todos os países do mundo, e a mesma convicção dos tempos juvenis. Estará ele também com algum problema?
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Quando Lula diz uma coisa, pode crer, não é ao acaso. Cumpre alguma tarefa, decorrente de alguma conversa e com vistas a um desdobramento. Sua declaração num evento de bacanas de alto coturno tem endereços certos. Vale a pena transcrever mais do seu achado filosófico:
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"Eu agora sou amigo do Delfim Netto. Passei 20 e tantos anos criticando o Delfim Netto e agora ele é meu amigo, e eu sou amigo dele. Por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana. Quem é mais de direita, vai ficando mais de centro. Quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. E as coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito".
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Digamos que ele está tentando uma "descompressão compensatória" em face da lista de presidentes eleitos na América Latina com discursos de esquerda. Só Deus sabe como deve ter sido seu relacionamento a quatro paredes com Evo Morales e Hugo Chávez na reunião da semana passada, na qual o presidente venezuelano desabafou, dizendo que o nosso continente está sem rumo.
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Todo mundo sabe que o governo Bush paga qualquer preço para desarticular qualquer tentativa de formatação de um bloco deste lado do equador. E todo mundo sabe que a Casa Branca relaciona o nosso presidente entre os amigos do peito para situações desconfortáveis. Não teria sido essa declaração um presentinho para aliviar a situação de Bush, que já impacienta a própria sociedade norte-americana?
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No sindicato pela direita
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Mas não é só isso. Como já lembrei aqui mais de uma vez, Lula nunca foi de esquerda. Por mais de uma vez, questionado a respeito, disse ser apenas um torneiro-mecânico.
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No seu reino sindical, Lula tinha ojeriza aos jovens de esquerda, que viam nele o resgate de derrotas passadas. Em uma de suas greves de ampla repercussão midiática, sua "segurança" pôs para correr a socos e pontapés os jovens militantes do MR-8 e do PC do B que foram distribuir jornais de apoio ao movimento.
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Aos 24 anos, foi indicado pelo irmão José Francisco da Silva, este, sim, filiado ao PCB, para ser suplente do conselho fiscal da chapa consentida pela ditadura, encabeçada por Paulo Vidal, que pleiteava sua reeleição para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.
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Naquele então, o "Frei Chico" trabalhava na Metalúrgica Campos Sales e temia ser demitido se mostrasse a cara. Daí ter indicado o irmão, que não tinha nada na cabeça além do Corinthians, e era bem visto pelo patrão Paulo Villares.
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Em 1972, aos 27 anos, Lula recusou convite da esquerda metalúrgica para encabeçar uma chapa de oposição. Preferiu ser o primeiro secretário de Paulo Vidal, homem da inteira confiança do Ministério do Trabalho, assimilado pelo SNI.
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Daí para se tornar presidente do sindicato em 1975, com a mesma base política, foi um pulo. Em 1973, fez um treinamento na John Hopkins University, segundo o empresário Mário Garnero, em seu livro "Jogo duro".
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Lula, portanto, não foi um jovem esquerdista, nem um militante de esquerda, mesmo como principal referência do PT, partido fundado meio contra a sua vontade, por iniciativa do então deputado Benedito Marcílio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, da Convergência Socialista, de setores da Igreja Católica e conforme a estratégia do general Golbery, que tomou o PTB de Brizola e criou mais uma válvula para o povo revoltado.
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A sua não é, portanto, a saga de um homem de esquerda, mas de alguém com talento suficiente para representar um certo papel até chegar onde chegou como a melhor alquimia para a construção do estado mínimo, neoliberal e atrelado ao sistema globalizado.
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O que ele disse agora, portanto, faz parte do script. Só surpreende aos menos avisados.
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Um dado interessante
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Outra coisa: o movimento sindical do ABC se projetou exatamente em cima de uma manipulação dos índices de inflação, feita por Delfim Neto em 1973 e só denunciada em 1977, com base numa informação sigilosa, repassada pelo Banco Mundial.
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O Dieese e a Fundação Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo, já sabiam em 1974 que Delfim Netto enganou o País ao garantir que o custo de vida subira 12,6% e não 22,5%, como se revelou 4 anos depois. Mas calaram, alegando "motivos de ordem econômica".
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Pois foi a divulgação de um relatório secreto do Bird sobre a economia brasileira que forneceu insumos para a mobilização de alguns sindicatos, projetando Lula. No documento, o Banco Mundial afirmava: "A figure of 22.5% for the rate of inflation in 1973 has been used instead of the official figure of 12,6% (Um valor de 22,5% para a taxa de inflação em 1973 foi utilizado em lugar do valor oficial de 12,6%)".
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Espero que você reflita sobre esse conjunto de informações. Aí entenderá porque agora Lula diz que não tem nada com a esquerda, como se algum dia tivesse tido.
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Aos 24 anos, foi indicado pelo irmão José Francisco da Silva, este, sim, filiado ao PCB, para ser suplente do conselho fiscal da chapa consentida pela ditadura, encabeçada por Paulo Vidal, que pleiteava sua reeleição para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.
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Naquele então, o "Frei Chico" trabalhava na Metalúrgica Campos Sales e temia ser demitido se mostrasse a cara. Daí ter indicado o irmão, que não tinha nada na cabeça além do Corinthians, e era bem visto pelo patrão Paulo Villares.
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Em 1972, aos 27 anos, Lula recusou convite da esquerda metalúrgica para encabeçar uma chapa de oposição. Preferiu ser o primeiro secretário de Paulo Vidal, homem da inteira confiança do Ministério do Trabalho, assimilado pelo SNI.
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Daí para se tornar presidente do sindicato em 1975, com a mesma base política, foi um pulo. Em 1973, fez um treinamento na John Hopkins University, segundo o empresário Mário Garnero, em seu livro "Jogo duro".
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Lula, portanto, não foi um jovem esquerdista, nem um militante de esquerda, mesmo como principal referência do PT, partido fundado meio contra a sua vontade, por iniciativa do então deputado Benedito Marcílio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, da Convergência Socialista, de setores da Igreja Católica e conforme a estratégia do general Golbery, que tomou o PTB de Brizola e criou mais uma válvula para o povo revoltado.
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A sua não é, portanto, a saga de um homem de esquerda, mas de alguém com talento suficiente para representar um certo papel até chegar onde chegou como a melhor alquimia para a construção do estado mínimo, neoliberal e atrelado ao sistema globalizado.
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O que ele disse agora, portanto, faz parte do script. Só surpreende aos menos avisados.
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Um dado interessante
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Outra coisa: o movimento sindical do ABC se projetou exatamente em cima de uma manipulação dos índices de inflação, feita por Delfim Neto em 1973 e só denunciada em 1977, com base numa informação sigilosa, repassada pelo Banco Mundial.
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O Dieese e a Fundação Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo, já sabiam em 1974 que Delfim Netto enganou o País ao garantir que o custo de vida subira 12,6% e não 22,5%, como se revelou 4 anos depois. Mas calaram, alegando "motivos de ordem econômica".
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Pois foi a divulgação de um relatório secreto do Bird sobre a economia brasileira que forneceu insumos para a mobilização de alguns sindicatos, projetando Lula. No documento, o Banco Mundial afirmava: "A figure of 22.5% for the rate of inflation in 1973 has been used instead of the official figure of 12,6% (Um valor de 22,5% para a taxa de inflação em 1973 foi utilizado em lugar do valor oficial de 12,6%)".
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Espero que você reflita sobre esse conjunto de informações. Aí entenderá porque agora Lula diz que não tem nada com a esquerda, como se algum dia tivesse tido.