quarta-feira, dezembro 20, 2006

TOQUEDEPRIMA...

Record leva mais dinheiro público com Lula no governo
Folha de S. Paulo
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Números inéditos sobre investimentos publicitários estatais federais mostram a Rede Record como a única emissora de TV neste ano a registrar um aumento com esse tipo de faturamento -computados os dados até o final de novembro.
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Esse crescimento da emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus coincidiu com a reestruturação de sua grade de programação, mas também com a saída, em 2005, do jornalista Boris Casoy. À época, a demissão do âncora foi atribuída a pressões do Palácio do Planalto -algo sempre negado pelo governo e pela emissora.
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De 2003 para cá, houve também uma progressiva aproximação entre o Palácio, a Igreja Universal, o PRB (sigla ligada a essa religião) e a TV Record.
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No fim de 2005, o vice-presidente José Alencar se filiou ao PRB, coligado ao PT de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição. De janeiro a novembro deste ano, a Record já recebeu R$ 61,2 milhões em verbas publicitárias estatais federais das administrações direta e indireta.
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A cifra equivale a um aumento de 12,1% sobre o ano de 2005.
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Todas as outras grandes emissoras de TV registravam até novembro uma queda de verbas de publicidade estatal federal na comparação com o ano passado. É natural que ocorra essa queda em anos eleitorais, pois o governo fica impedido de fazer determinados tipos propaganda. Ainda assim, a restrição não afetou a Record.
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A emissora é a única grande rede a avançar constantemente em volume de verbas estatais no governo Lula. Confrontada com os dados, a Record diz que a variação é natural, pois sua audiência também aumentou.
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Os números sobre publicidade estatal mostram a TV Globo muito à frente das demais. A novidade fica por conta da Record, que se aproximou como nunca da sempre segunda colocada, o SBT de Silvio Santos. No primeiro ano do governo Lula, em 2003, a Record teve R$ 24,8 milhões de receita com publicidade estatal federal. O SBT abocanhou nesse mesmo ano R$ 59,8 milhões. A diferença entre ambas era de R$ 35 milhões (atualizado pelo IPCA).
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Neste ano de 2006, a Record já faturou R$ 61,2 milhões do governo Lula contra R$ 71,2 milhões do SBT. A diferença caiu para R$ 10 milhões.
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Chama a atenção o valor que cada emissora recebe comparado ao total que o governo entrega para todas as TVs. Em 2003, a Record só ficou com 6% dos R$ 568,5 milhões de dinheiro público gasto com emissoras televisivas. Ao SBT coube 14,5%. Agora, a Record tem 12,8% e o SBT fica com 14,8%.
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Audiência X Verbas
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Esses percentuais atuais da Record e do SBT não são idênticos à audiência dessas emissoras, segundo dados do Ibope.
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Neste ano, até novembro, a Record teve um "share" de audiência nacional de 11% -isto é, de todos os televisores ligados, na média, 11% sintonizavam essa emissora. O SBT teve 17%. Como a Record fica com 12,8% da publicidade federal estatal, recebe proporcionalmente mais verbas do que oferece de audiência. Com o SBT ocorre o inverso: tem 14,8% das verbas para audiência de 17%.
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Ainda donatária do maior volume de recursos, a Globo teve altos e baixos com Lula no poder, mas sempre melhor do que no final do período de Fernando Henrique Cardoso. Em 2001 e 2002, a Globo teve 49,9% e 52,6% do total das verbas, respectivamente. Sob Lula, chegou a 61,1% em 2003, e 56,5% até novembro deste ano.
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Líder absoluta, a Globo recebe em publicidade mais do que atrai de telespectadores. Neste ano, o "share" é de 53% -3,5 pontos percentuais abaixo da publicidade que abocanha.
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Antes de chegar ao poder, o PT e o presidente Lula criticavam os altos gastos com publicidade. Ao tomar posse, Lula repetiu a política de FHC. O tucano teve seu pico de gastos em 2001 (R$ 858,8 milhões investidos). Lula o ultrapassou: R$ 978,8 milhões em 2004 e R$ 888,4 milhões em 2005. Os valores estão atualizados pelo IPCA. O governo apresenta os dados atualizados pelo IGP-M, o que distorce a evolução devido à variação do dólar.
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Governo não divulga valor de repasses
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As informações usadas nesta reportagem são consideradas secretas pelo governo. Os dados foram obtidos pela Folha na condição de não revelar a fonte. São números oficiais e estão disponíveis num sistema de computadores controlado pela Subsecretaria de Comunicação Institucional (antiga Secom).As informações são reservadas sob duas alegações: porque os gastos de publicidade expõem as empresas privadas que recebem os recursos (jornais, TVs e outros) e porque parte dos investimentos são de estatais que competem no mercado.
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A Folha já requisitou essas informações por meio oficial e não as obteve. A opção de buscar as informações no Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal) também resulta infrutífera, pois não contém detalhes sobre a administração pública indireta (estatais).
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Não há meio de calcular o valor exato que o governo federal consome em publicidade, produção de comerciais e patrocínio. A estimativa mais modesta no mercado publicitário é que seja algo em torno de R$ 1,5 bilhão. (FR)
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Depois De Casoy:
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TV abrandou tom crítico de âncora para criar sua imitação do "JN"
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A TV Record rescindiu contrato com Boris Casoy em dezembro de 2005 para criar na emissora um "clone" do "Jornal Nacional". Era mais um passo na estratégia de, em busca de audiência, copiar a programação da Globo. Deixou para trás o tom crítico do âncora, que apresentou o "Jornal da Record" durante oito anos para colocar no ar um jornal menos editorializado. O governo teria reclamado da cobertura dada a temas desgastantes para o Planalto, como o caso Celso Daniel e a CPI do Banestado. Governo e emissora negam.
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Verba e audiência são compatíveis, afirma Secom
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Ao ser comunicada que a Folha publicaria as informações contidas nesta reportagem, a Subsecretaria de Comunicação Institucional da Secretaria Geral da Presidência da República, a Secom, disse, por meio de sua assessoria, que "a distribuição dos recursos para publicidade atende a critérios técnicos compatíveis com a audiência das emissoras".
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A Folha quis saber por que algumas TVs têm proporcionalmente mais publicidade do que audiência. A Secom preferiu não comentar.O gerente nacional de comunicação da TV Record, Ricardo Frota, disse ver com naturalidade o aumento de verbas federais de publicidade para a emissora.
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"Esse percentual de crescimento reflete o investimento da Record na área de programação e o ganho de audiência no período", disse.
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Entre os investimentos, citou três novelas de produção própria no ar, a construção de um centro de teledramaturgia no Rio e a compra de um pacote com filmes da Universal.
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Segundo Frota, a Record teve um aumento de seu faturamento publicitário da ordem de 173% no período de 2004 a 2006. "Seria natural que todos os tipos de anunciantes aumentassem sua participação", diz.
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Sobre a saída de Boris Casoy e a aproximação entre o Palácio do Planalto e o PRB, braço político da Igreja Universal, o executivo da Record não faz comentários.
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Frota disse que a publicidade estatal representa 5% no seu faturamento total com propaganda.
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Esse é o mesmo número divulgado pela Rede Globo a respeito da participação de verbas estatais em seu faturamento publicitário. A emissora preferiu não comentar sobre o valor específico que recebe do governo em comparação com a audiência. (FR)