sexta-feira, dezembro 08, 2006

O ano terminou antes de acabar

por Villas-bôas Corrêa, no Jornal do Brasil
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A sentença embalada na ambigüidade do jeito lulista de alternar as marteladas na ferradura com as pancadas rítmicas no ferro não é apenas o palpite de uma alteração no calendário gregoriano, mas, e principalmente, o reconhecimento da herança de erros e fracassos do primeiro mandato, com o atestado de óbito antes do último suspiro do moribundo.
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Muitas vezes citada e repetida, merece mais uma reprodução na forma precisa com que foi cunhada, como os recados da esperteza para tampar o rombo que se amplia na reta do último mês das aflições antes do bis: "O dado concreto é que não estou pensando em 2006. Estou pensando em 2007, 2008, 2009 e 2010"..O presidente-reeleito empurra a pedra para soterrar o pífio crescimento de 0,5% da economia no terceiro trimestre deste ano. E que, na projeção dos economistas, deve rebaixar o índice do Produto Interno Bruto para abaixo de 3%, ao redor de 2,8%.
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A evidência do ano perdido, com o rolo compressor passando por cima da esmagadora consagração eleitoral carimbada por mais de 58 milhões de votos, inspirou a curiosa alteração da folhinha. Mas, pelo visto, sem grande sucesso. A tapeação, com o toque de ingenuidade, só piorou o soneto, que já ia mal nos rabiscos dos primeiros versos com a equivocada condução das alianças partidárias, espichada como novela, em capítulos que não se encadeiam na lógica do enredo.
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Para empurrar a roda do tempo, Lula apelou para a sua experiência como o maior líder sindical do país na articulação de greves: alongar a negociação para superar em etapas as resistências patronais. Acontece que são coisas absolutamente diferentes. Ao delongar os intermináveis entendimentos com cada partido que considera conquistável, o presidente desgasta a autoridade que se afirma exatamente na decisão pronta e firme, excita as ambições e aguça o apetite dos que aguardam na fila a hora e a vez de apresentar as suas reivindicações. E a goela dos políticos é um poço sem fundo, nada satisfaz a sua voracidade. Tanta conversa para atrair o PMDB, francamente...
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Presidente-reeleito não é obrigado a reformar o ministério. Pode conservar todos os 34 ministros e secretários, trocar alguns e manter outros. Para não paralisar o governo, como acontece, o bom senso recomenda a providência elementar de reduzir o nevoeiro das dúvidas e baixar as expectativas com a confirmação dos que serão mantidos.
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Misturar todos no mesmo balaio de fim de feira dá no que estamos assistindo: o governo de mãos atadas, tocando a rotina essencial pela virtual presidente-em-exercício, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com a ajuda de dois ou três ministros da cota presidencial.
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E, no reino da molenga bagunça para passar o tempo, o presidente conversa, discursa, viaja, distribuiu declarações, posa para fotografias e câmeras de TV e anuncia o êxito de acordos com partidos que se coçam para saltar a cerca arrombada e cair no terreiro palaciano para disputar as fatias na divisão do bolo. E só quando cada um estiver com o prato cheio, poderá comemorar a conquista de mais alguns votos na inconstância de um Congresso que chafurda no lameiro da desmoralização e não é confiável.
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O preço do erro tático do reeleito empilha faturas alarmantes. O governo perdeu o comando político do país em todas as áreas vitais. A ressaca da desobediência inunda o Judiciário, exposto no triste espetáculo chinfrim das picuinhas internas pelo aumento dos vencimentos de ministros, desembargadores, juízes, promotores na corrida para furar o teto constitucional com as chicanas da rabulice.
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Só falta, como fecho de ouro, a demissão da ministra Marina Silva por imposição dos defensores do desenvolvimentismo ao preço da destruição das nossas reservas ambientais, já bastante reduzidas com a conivência oficial.