Mais adequado seria o empresariado ter dado ao seminário o nome de Reforma Política Nunca
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Dora Kramer , Jornal Cruzeiro do Sul (Sorocaba)
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O seminário Reforma Política Já, promovido pelo Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), reuniu parlamentares de cinco partidos diferentes (PT, PMDB, PFL, PSDB e PPS) e, ao fim, produziu o prognóstico mais preciso entre tantos que andam por aí sobre a reforma política: não sai porque ameaça o fisiologismo, cuja extinção não interessa ao Poder Executivo nem ao Poder Legislativo, em sua ampla maioria.
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Mais adequado seria o empresariado ter dado ao seminário o nome de Reforma Política Nunca. Em palavras poucas e francas, como em raras ocasiões se ouvem em encontros de políticos, os deputados José Eduardo Martins Cardozo (PT), Arnaldo Jardim (PPS) e Silvio Torres (PSDB) e o senador Jorge Bornhausen concordaram no adeus às ilusões e informaram ao respeitável público que a discussão em curso é vazia e não chegará a lugar algum.
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O único a discordar, numa atitude sintomática ante as circunstâncias das negociações de seu partido com o Planalto, foi o deputado Michel Temer, presidente do PMDB, dizendo-se otimista com a possibilidade de aprovação.
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Mais realista, o senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, resumiu a situação num retrato sem meios-tons: Para aprovar a reforma é preciso derrotar o balcão de negócios que é o Congresso Nacional.
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Com larga experiência em apoio a sucessivos governos, Bornhausen sabe o que diz. É dele a resposta mais objetiva a quem externa a dúvida sobre a dificuldade para aprovar uma reforma política, um assunto em pauta há pelo menos 12 anos:
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Políticos não aprovam a reforma porque é o único assunto sobre o qual entendem muito bem. Quer dizer, sabem pesar e medir com precisão a contrariedade e o atendimento de seus interesses.
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E como a reforma visaria a corrigir distorções do sistema representativo e quebrar a dinâmica da barganha e da cooptação que preside as relações entre Executivo e Legislativo, ela obviamente contraria uma lógica que, para os políticos sem veleidades a fazer oposição, tem sido excelente companheira.
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Os deputados e o senador reunidos no seminário não negaram a evidência. O petista José Eduardo Martins Cardozo, sem excluir seu partido, até acrescentou outra: a mesquinhez da política brasileira. Interessa mais impor derrotas ao adversário do que construir coisas conjuntas.
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Talvez os parlamentares não tenham se dado conta, mas tal franqueza de repente faz história. Se abrirem no Congresso o verbo como abriram na conversa com os empresários e não tirarem o dedo da ferida, muito possivelmente ajudarão a romper a paralisia sustentada no corporativismo tão bem descrito por eles.
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Fogo fátuo
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Em tese, o julgamento das contas da campanha do presidente Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral deveria merecer toda a atenção, já que irregularidades poderiam pôr em risco o mandato presidencial. De acordo com a legislação, é o candidato e não mais o tesoureiro quem responde judicialmente por eventuais ilícitos.
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A prática, porém, mostra que o anunciado rigor da Justiça Eleitoral acabou se revelando quase que só um lance de efeito.
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As impugnações de candidaturas do início da campanha foram revistas em sua grande maioria e ninguém fala mais na possibilidade de tentar impedir a posse dos envolvidos com fraudes, corrupção e abuso de poder econômico, à exceção do caso do deputado Juvenil Alves, que está na cadeia.
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Diante do quadro de leniências e acochambros, realmente é uma fantasia acreditar que o exame de contas possa representar alguma ameaça.
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Saldo negativo
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O assunto dossiê Vedoin, a cujo impacto se atribuiu a realização do segundo turno da eleição presidencial, irá para o vale dos esquecidos em menos de um mês.
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A Polícia Federal tem mais 20 dias para encerrar as investigações com os dados de que dispõe e a CPI dos Sanguessugas, que servia para manter vivo o tema na arena política, também acabará em breve.
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Da PF não se emitem sinais de vida a respeito da origem do dinheiro, embora haja consenso sobre a ilicitude da(s) fontes(s) e da CPI não sairá rigorosamente coisa alguma.
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Para se ter uma idéia da inutilidade da participação do Congresso no episódio - com destaque para o providencial arrefecimento dos ânimos oposicionistas pós-eleições -, os trabalhos chegam ao fim com 200 requerimentos por votar e sem que tenham sido ouvidos Freud Godoy, de quem teria partido a ordem da missão, de acordo com um dos executores do crime, e Ricardo Berzoini, o cabeça da operação, segundo suspeita de ninguém menos que o presidente da República.
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A conclusão da CPI dos Sanguessugas é especialmente patética, pois o Conselho de Ética do Senado absolveu sem investigações mais profundas os acusados e na Câmara as coisas vão para o mesmo caminho.
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E aí fica a dúvida: a CPI foi leviana ao acusar ou os conselhos foram cúmplices ao inocentar? Como atuaram em dimensões excludentes, não há hipótese de ambos terem agido com honestidade. (Agência Estado).
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Dora Kramer , Jornal Cruzeiro do Sul (Sorocaba)
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O seminário Reforma Política Já, promovido pelo Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), reuniu parlamentares de cinco partidos diferentes (PT, PMDB, PFL, PSDB e PPS) e, ao fim, produziu o prognóstico mais preciso entre tantos que andam por aí sobre a reforma política: não sai porque ameaça o fisiologismo, cuja extinção não interessa ao Poder Executivo nem ao Poder Legislativo, em sua ampla maioria.
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Mais adequado seria o empresariado ter dado ao seminário o nome de Reforma Política Nunca. Em palavras poucas e francas, como em raras ocasiões se ouvem em encontros de políticos, os deputados José Eduardo Martins Cardozo (PT), Arnaldo Jardim (PPS) e Silvio Torres (PSDB) e o senador Jorge Bornhausen concordaram no adeus às ilusões e informaram ao respeitável público que a discussão em curso é vazia e não chegará a lugar algum.
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O único a discordar, numa atitude sintomática ante as circunstâncias das negociações de seu partido com o Planalto, foi o deputado Michel Temer, presidente do PMDB, dizendo-se otimista com a possibilidade de aprovação.
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Mais realista, o senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, resumiu a situação num retrato sem meios-tons: Para aprovar a reforma é preciso derrotar o balcão de negócios que é o Congresso Nacional.
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Com larga experiência em apoio a sucessivos governos, Bornhausen sabe o que diz. É dele a resposta mais objetiva a quem externa a dúvida sobre a dificuldade para aprovar uma reforma política, um assunto em pauta há pelo menos 12 anos:
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Políticos não aprovam a reforma porque é o único assunto sobre o qual entendem muito bem. Quer dizer, sabem pesar e medir com precisão a contrariedade e o atendimento de seus interesses.
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E como a reforma visaria a corrigir distorções do sistema representativo e quebrar a dinâmica da barganha e da cooptação que preside as relações entre Executivo e Legislativo, ela obviamente contraria uma lógica que, para os políticos sem veleidades a fazer oposição, tem sido excelente companheira.
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Os deputados e o senador reunidos no seminário não negaram a evidência. O petista José Eduardo Martins Cardozo, sem excluir seu partido, até acrescentou outra: a mesquinhez da política brasileira. Interessa mais impor derrotas ao adversário do que construir coisas conjuntas.
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Talvez os parlamentares não tenham se dado conta, mas tal franqueza de repente faz história. Se abrirem no Congresso o verbo como abriram na conversa com os empresários e não tirarem o dedo da ferida, muito possivelmente ajudarão a romper a paralisia sustentada no corporativismo tão bem descrito por eles.
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Fogo fátuo
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Em tese, o julgamento das contas da campanha do presidente Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral deveria merecer toda a atenção, já que irregularidades poderiam pôr em risco o mandato presidencial. De acordo com a legislação, é o candidato e não mais o tesoureiro quem responde judicialmente por eventuais ilícitos.
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A prática, porém, mostra que o anunciado rigor da Justiça Eleitoral acabou se revelando quase que só um lance de efeito.
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As impugnações de candidaturas do início da campanha foram revistas em sua grande maioria e ninguém fala mais na possibilidade de tentar impedir a posse dos envolvidos com fraudes, corrupção e abuso de poder econômico, à exceção do caso do deputado Juvenil Alves, que está na cadeia.
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Diante do quadro de leniências e acochambros, realmente é uma fantasia acreditar que o exame de contas possa representar alguma ameaça.
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Saldo negativo
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O assunto dossiê Vedoin, a cujo impacto se atribuiu a realização do segundo turno da eleição presidencial, irá para o vale dos esquecidos em menos de um mês.
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A Polícia Federal tem mais 20 dias para encerrar as investigações com os dados de que dispõe e a CPI dos Sanguessugas, que servia para manter vivo o tema na arena política, também acabará em breve.
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Da PF não se emitem sinais de vida a respeito da origem do dinheiro, embora haja consenso sobre a ilicitude da(s) fontes(s) e da CPI não sairá rigorosamente coisa alguma.
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Para se ter uma idéia da inutilidade da participação do Congresso no episódio - com destaque para o providencial arrefecimento dos ânimos oposicionistas pós-eleições -, os trabalhos chegam ao fim com 200 requerimentos por votar e sem que tenham sido ouvidos Freud Godoy, de quem teria partido a ordem da missão, de acordo com um dos executores do crime, e Ricardo Berzoini, o cabeça da operação, segundo suspeita de ninguém menos que o presidente da República.
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A conclusão da CPI dos Sanguessugas é especialmente patética, pois o Conselho de Ética do Senado absolveu sem investigações mais profundas os acusados e na Câmara as coisas vão para o mesmo caminho.
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E aí fica a dúvida: a CPI foi leviana ao acusar ou os conselhos foram cúmplices ao inocentar? Como atuaram em dimensões excludentes, não há hipótese de ambos terem agido com honestidade. (Agência Estado).