segunda-feira, janeiro 08, 2007

Cabral dá um mês para Saúde funcionar

A dona de casa Luciene Ramos da Silva, de 31 anos, teve a sorte de encontrar o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) no corredor do Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, Zona Norte. Só assim ela conseguiu atendimento para o pai, Inácio Cabral da Silva, de 68 anos, que espera há quatro anos uma cirurgia de próstata e sofre com a falta de médicos na emergência, onde está internado desde terça-feira, em busca de um urologista.

Cabral pediu o telefone dela, entregou um papel com o nome de um assessor e prometeu telefonar no fim do dia. "A senhora tem toda a razão, vou ligar para saber se ele foi atendido", declarou o governador, após determinar à direção do hospital que dê atenção especial ao caso. Com o joelho sangrando, Geneval Dias, de 51 anos, estava sentando numa cadeira de rodas ao lado de Silvana Bonfim, de 40, em pé no corredor com dores no antebraço.

Quando o governador passou, ouviu reclamações dos dois, que aguardavam atendimento há quatro horas. Após receber a confirmação de que não havia ortopedistas para atendê-los, Cabral mandou chamar uma ambulância e levá-los para outro hospital. A visita de meia hora do governador ao Getúlio Vargas - o sexto hospital inspecionado até o quarto dia de governo - pode ter ajudado os três, mas não mudou a rotina da maioria dos pacientes.

Cabral admitiu que eles não são prioridade na rede pública de saúde. "Fiquei muito irritado porque a rede de saúde do estado é de uma completa insensibilidade. Há uma banalização do atendimento, como se fosse normal as pessoas não serem atendidas", declarou o governador.

Segundo ele, acabar com o descaso que existe nos hospitais é uma "prioridade". "É inaceitável, estou indignado. Está faltando vergonha na cara e boa administração, o que estamos implantando agora. Quero o hospital funcionando em um mês. Vou voltar aqui."

Uma equipe de filmagem contratada pelo governo acompanhava o governador e o secretário da Saúde, Sérgio Côrtes, que também participou da vistoria. "Os problemas aqui são superlotação, baixo salário e carência de médicos. Há meses que não temos ortopedista na segunda e na quinta-feira. Não conseguimos um profissional", declarou o diretor Sebastião Neves, há um dia no cargo, mas que trabalha há 28 anos no Getúlio Vargas.

Segundo ele, há 20 médicos na emergência: eles fazem plantão de 12 horas duas vezes por semana e recebem salário de R$ 1,35 mil. Há instalações para 60 pessoas no setor, que recebe o dobro de pacientes por dia. Em todo o hospital, são 800 atendimentos. Porém, uma ala com 200 leitos está desativada.

Invasão
Antes de seguir para a Penha, Cabral percorreu o Hospital de Ortopedia Anchieta e o Instituto de Infectologia São Sebastião, no Caju. No primeiro, cercado por favelas, parte do terreno foi invadida e funcionários afirmaram que criminosos entram com freqüência, ameaçando médicos.

Cabral pediu à PM um plano de segurança para a unidade. Só o ambulatório funciona. Apesar de uma reforma de R$ 3 milhões realizada há dois anos, segundo Cabral, o prédio está condenado: quando chove, o centro cirúrgico e a enfermaria ficam alagados.

No São Sebastião, o governador constatou uma situação inusitada: 500 funcionários e apenas 9 leitos em funcionamento, com alas deterioradas e falta de equipamentos. Ele pediu a Côrtes a apresentação, em dez dias, de um plano de recuperação dos dois hospitais.

Na quarta-feira, Cabral classificara de "genocídio" a situação do atendimento no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo. Ele disse que fará um mutirão no Instituto de Traumato-Ortopedia (Into) neste fim de semana para realizar cirurgias consideradas mais graves.