Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
Toda empresa que se preze tem seu plano-diretor. Traduzindo: as grandes companhias traçam e revisam periodicamente a ampliação de sua produção e de seus serviços, junto com o elenco de esforços necessários ao aumento da produtividade e, sem a menor dúvida, estratégias para lucrar mais gastando menos.
Mesmo se admitindo como indiscutível a evidência de que o Brasil não é uma empresa, mas um estado nacional, com preocupações bem superiores ao lucro, pois fundadas no bem-estar geral, na justiça social, na distribuição de renda e na afirmação da soberania, mesmo assim a gente conclui pela necessidade de um plano-diretor para o País. Como viabilizar as metas sociais, de que maneira expandir o crescimento econômico, de que forma ocupar regiões abandonadas pelo poder público e pela iniciativa privada?
É aqui que a vaca vai para o brejo, porque além de enunciados genéricos e de chavões rotineiros, ignoramos de uns tempos para cá os mecanismos específicos que a autoridade pública deveria preparar para nossa continuidade como nação. Alguns retrógrados sustentam que tudo deve ser deixado à iniciativa privada e ao inefável mercado, ou seja, à prevalência do interesse particular sobre o interesse geral. No reverso da medalha, certos anacrônicos jogam todas as suas fichas na ação do estado, fiados na ilusão de que somos dirigidos por anjos, arcanjos e querubins.
No pronunciamento feito no Congresso, no dia da segunda posse, o presidente Lula avançou uma espécie de preâmbulo que, isolado, representa apenas mais um pacote de ilusões retóricas, mas que, em paralelo, se desenvolvido, poderia constituir o novo plano diretor nacional.
Não vamos radicalizar e concluir que até agora, transcorrida uma semana, nenhuma continuidade se viu. É cedo, seria açodamento exigir do chefe do governo, horas depois, um plano específico a respeito do que fazer, ou seja, do modus faciendi das exortações iniciais. O diabo é que nos últimos quatro anos nada aconteceu.
Tratou-se de um mandato perdido, em termos de plano diretor, apesar de certos esforços em prol da situação dos menos favorecidos. Mas o que o Brasil quer saber, entre mil indagações, é como interromper, por exemplo, a escalada da insegurança pública. Como ocupar a Amazônia entregue à cobiça internacional. Como levar água para o Nordeste e prevenir a falta de energia que já desponta lá no fim do túnel como violenta locomotiva. Como reduzir o déficit habitacional e criar empregos de verdade, acima e além da publicidade oficial.
Como ampliar a malha ferroviária e recuperar a rodoviária. Como multiplicar os portos e erigir silos por todo o território nacional, aumentando as exportações não apenas de produtos primários, mas daqueles com valor agregado. Como evitar o êxodo rural, realizar a reforma agrária e levar educação e saúde a toda a população. E quantas metas a mais, que não basta citar emocionalmente, senão apontar em detalhes os meios para realizá-las.
Passou o tempo da condescendência e até da compreensão para com equipes despreparadas e até sujeitas aos vícios comuns da natureza humana, como corrupção e indolência. A hora é já, e a pergunta, por tão simples, não pode mais calar: COMO?
Explicação
Amigos e admiradores do ex-presidente José Sarney espantaram-se com o tom agressivo de um jornal de sua propriedade a respeito do já agora ex-governador do Maranhão, José Reinaldo. O indigitado amigo transformado em inimigo foi chamado de Judas e até foi dada a sugestão de se jogar sal grosso na sede do Executivo estadual, o Palácio dos Leões, para espantar o mau-olhado e os resquícios da presença do adversário.
Não deixa de ser singular que nesse palácio tenha habitado o então jovem governador Sarney, como, anos depois, sua filha predileta, por dois mandatos. Sal grosso, ao que se sabe, foi espalhado pela última vez em Cartago, pelos romanos.
A explicação poderia estar na derrota recente de Roseana, na disputa para retornar ao governo do Maranhão, resultado que o pai atribui especificamente a José Reinaldo.
Reeleito senador pelo Amapá, espera-se que José Sarney retome a característica amena e conciliadora, apesar de firme, que tem marcado sua vida pública. Caso contrário, se tiver começado a temporada do ajuste de contas, sobrará muito pouca gente...
Encerramento com fecho de ouro
Diz o mote popular que pior do que o atual Congresso, só o próximo. Vai ser difícil, porém, imaginar uma legislatura tão desmoralizada como a atual. Para culminar, quando os trabalhos já se encontram encerrados e apenas se empurra o mês de janeiro com as férias regulamentares, qual a justificativa para 23 suplentes de deputado federal empossados esta semana receberem perto de 85 mil reais para não vir a Brasília? Subsídios, ajudas de custo, verbas de gabinete, recursos para atuar nos estados, passagens aéreas e franquias, tudo somado chega a essa nada desprezível quantia.
O Ministério Público também se encontra de férias, mas seria bom que algum promotor público de plantão se dirigisse ao Supremo Tribunal Federal, obstando essa farra. Só que tem um problema: o Supremo também está de férias...
Toda empresa que se preze tem seu plano-diretor. Traduzindo: as grandes companhias traçam e revisam periodicamente a ampliação de sua produção e de seus serviços, junto com o elenco de esforços necessários ao aumento da produtividade e, sem a menor dúvida, estratégias para lucrar mais gastando menos.
Mesmo se admitindo como indiscutível a evidência de que o Brasil não é uma empresa, mas um estado nacional, com preocupações bem superiores ao lucro, pois fundadas no bem-estar geral, na justiça social, na distribuição de renda e na afirmação da soberania, mesmo assim a gente conclui pela necessidade de um plano-diretor para o País. Como viabilizar as metas sociais, de que maneira expandir o crescimento econômico, de que forma ocupar regiões abandonadas pelo poder público e pela iniciativa privada?
É aqui que a vaca vai para o brejo, porque além de enunciados genéricos e de chavões rotineiros, ignoramos de uns tempos para cá os mecanismos específicos que a autoridade pública deveria preparar para nossa continuidade como nação. Alguns retrógrados sustentam que tudo deve ser deixado à iniciativa privada e ao inefável mercado, ou seja, à prevalência do interesse particular sobre o interesse geral. No reverso da medalha, certos anacrônicos jogam todas as suas fichas na ação do estado, fiados na ilusão de que somos dirigidos por anjos, arcanjos e querubins.
No pronunciamento feito no Congresso, no dia da segunda posse, o presidente Lula avançou uma espécie de preâmbulo que, isolado, representa apenas mais um pacote de ilusões retóricas, mas que, em paralelo, se desenvolvido, poderia constituir o novo plano diretor nacional.
Não vamos radicalizar e concluir que até agora, transcorrida uma semana, nenhuma continuidade se viu. É cedo, seria açodamento exigir do chefe do governo, horas depois, um plano específico a respeito do que fazer, ou seja, do modus faciendi das exortações iniciais. O diabo é que nos últimos quatro anos nada aconteceu.
Tratou-se de um mandato perdido, em termos de plano diretor, apesar de certos esforços em prol da situação dos menos favorecidos. Mas o que o Brasil quer saber, entre mil indagações, é como interromper, por exemplo, a escalada da insegurança pública. Como ocupar a Amazônia entregue à cobiça internacional. Como levar água para o Nordeste e prevenir a falta de energia que já desponta lá no fim do túnel como violenta locomotiva. Como reduzir o déficit habitacional e criar empregos de verdade, acima e além da publicidade oficial.
Como ampliar a malha ferroviária e recuperar a rodoviária. Como multiplicar os portos e erigir silos por todo o território nacional, aumentando as exportações não apenas de produtos primários, mas daqueles com valor agregado. Como evitar o êxodo rural, realizar a reforma agrária e levar educação e saúde a toda a população. E quantas metas a mais, que não basta citar emocionalmente, senão apontar em detalhes os meios para realizá-las.
Passou o tempo da condescendência e até da compreensão para com equipes despreparadas e até sujeitas aos vícios comuns da natureza humana, como corrupção e indolência. A hora é já, e a pergunta, por tão simples, não pode mais calar: COMO?
Explicação
Amigos e admiradores do ex-presidente José Sarney espantaram-se com o tom agressivo de um jornal de sua propriedade a respeito do já agora ex-governador do Maranhão, José Reinaldo. O indigitado amigo transformado em inimigo foi chamado de Judas e até foi dada a sugestão de se jogar sal grosso na sede do Executivo estadual, o Palácio dos Leões, para espantar o mau-olhado e os resquícios da presença do adversário.
Não deixa de ser singular que nesse palácio tenha habitado o então jovem governador Sarney, como, anos depois, sua filha predileta, por dois mandatos. Sal grosso, ao que se sabe, foi espalhado pela última vez em Cartago, pelos romanos.
A explicação poderia estar na derrota recente de Roseana, na disputa para retornar ao governo do Maranhão, resultado que o pai atribui especificamente a José Reinaldo.
Reeleito senador pelo Amapá, espera-se que José Sarney retome a característica amena e conciliadora, apesar de firme, que tem marcado sua vida pública. Caso contrário, se tiver começado a temporada do ajuste de contas, sobrará muito pouca gente...
Encerramento com fecho de ouro
Diz o mote popular que pior do que o atual Congresso, só o próximo. Vai ser difícil, porém, imaginar uma legislatura tão desmoralizada como a atual. Para culminar, quando os trabalhos já se encontram encerrados e apenas se empurra o mês de janeiro com as férias regulamentares, qual a justificativa para 23 suplentes de deputado federal empossados esta semana receberem perto de 85 mil reais para não vir a Brasília? Subsídios, ajudas de custo, verbas de gabinete, recursos para atuar nos estados, passagens aéreas e franquias, tudo somado chega a essa nada desprezível quantia.
O Ministério Público também se encontra de férias, mas seria bom que algum promotor público de plantão se dirigisse ao Supremo Tribunal Federal, obstando essa farra. Só que tem um problema: o Supremo também está de férias...