quarta-feira, janeiro 24, 2007

Medidas do PAC não levam a crescimento de 5%

Folha de S. Paulo
.
O PAC vai na direção correta na avaliação de alguns economistas. Outros acreditam que o programa do governo é equivocado em vários pontos. Mas a maioria concorda em pelo menos um ponto: corretas ou não, as medidas não são suficientes para fazer a economia brasileira crescer os 5% almejados pelo governo Lula.
.
"Se crescermos 3,5% tem que soltar rojão", alfineta Samuel Pessôa, economista da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Para ele, o pacote muda pouco o potencial de crescimento da economia brasileira. "Há investimentos meritórios, como saneamento básico e construção de casas populares, mas que não têm impacto muito forte na taxa de crescimento", argumenta o economista.
.
Crítico da gestão econômica do governo Lula, Pessôa diz avaliar que a qualidade da política econômica piorou na gestão do presidente, motivo pelo qual, mesmo com o cenário internacional muito mais favorável, o crescimento médio foi igual ao do último mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. "A única explicação para crescer a mesma coisa, com a mesma taxa real de juros mas com cenário melhor é uma política econômica pior", diz.
.
Gustavo Loyola, da Tendências Consultoria, afirma que o Brasil pode até crescer 4% ou mais neste ano, mas que pouco disso seria explicado pelas medidas anunciadas ontem, que têm "impacto praticamente nulo ou muito pequeno".O crescimento adicional em relação a 2006 -ano para o qual as projeções apontam expansão de menos de 3%- viria do cenário internacional extremamente favorável, diz o ex-presidente do Banco Central.
.
Loyola ressalta que a capacidade de investimento do governo "é muito limitada", insuficiente, portanto, para elevar a taxa de investimento aos 25% do PIB (Produto Interno Bruto) que, avalia a maior parte dos economistas, seria necessária para o país crescer 5%.
.
"O PAC falha em não atacar questões estruturais importantes", diz Vladimir Caramaschi, economista-chefe da Fator Corretora. Em sua opinião, o PAC não tem o combustível necessário para o crescimento de 5%. "As reformas da Previdência, a trabalhista, as questões estruturais não foram nem mencionadas".Menos crítico, Carlos Langoni, economista do Centro de Economia Mundial da FGV, avalia que o pacote vai na direção correta, mas que é apenas o primeiro passo para um patamar mais elevado e sustentável de crescimento.
.
"É lógico que é preciso avançar nas reformas estruturais", ressalva Langoni, que não arrisca estimar o crescimento adicional gerado pelas medidas. "Crescimento não é um parâmetro que você pode controlar com precisão".
.
Já João Sicsú, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que o cenário e as medidas são compatíveis com crescimento de 4,5% neste ano. Mas ressalta que "o pacote não é suficiente, ele trata apenas de medidas fiscais". Para ele, atingir a meta de crescimento depende da coordenação das expectativas por parte do governo, com o PAC sendo complementado com redução de juros de forma mais acentuada.
.
Mais: com juros menores, o governo deveria comprar mais reservas, impedindo valorização do câmbio, "para não termos problemas externos em 2008, gerados pela alta das importações", diz. "Câmbio valorizado e crescimento elevado são uma combinação explosiva para as importações."