quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Avacalhar o cidadão

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo

Isso está ficando ridículo. Escolha em seu cardápio qualquer uma das barbáries urbanas recentes e clique na reação correspondente do poder público. Você vai se sentir um idiota. Se não se sentir, seu caso é mais grave.

Foi avisado neste espaço (e não havia nada de profético nisso) que Gabinete Integrado e Força Nacional de Segurança são só coreografia. Foi a aspirina que te deram para passar pelos atentados em série da bandidagem no Rio.

Você consumiu aquelas manchetes e ficou com a sensação de que alguma coisa estava sendo feita por parte do poder público. Agora consulte qualquer especialista em segurança sobre a atuação dessa Força Nacional. Não se assuste com a gargalhada.

A morte brutal do menino arrastado por assaltantes chocou o país e, como convém nesses casos, lá vem aspirina. O problema é que a aspirina às vezes pode dar dor de cabeça.

Esse governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho assumiu o cargo com uma postura política bastante correta. Atitude conciliatória com o prefeito e com o presidente da República. Perfeito. Mas como se trata de um conhecido canastrão, profissional da enrolação, vai ter que mostrar muito serviço para dar a impressão de que está levando a brincadeira a sério.

Por enquanto, nada. É responsável por enfrentar um dos maiores flagelos nacionais, que é a segurança pública no Rio de Janeiro – e até agora comporta-se como legítimo herdeiro da família Garotinho: deixa estar para ver como é que fica, polícia negocia com traficante, e quando a opinião pública enche o saco faz-se uma blitz cinematográfica em algum ponto bem visível da cidade para forjar eficiência.

Um crime bárbaro detona a indignação da sociedade? Não seja por isso. O governador Sérgio Cabral Filho planta uma blitz gigante em São Conrado, num dos corredores mais movimentados da cidade numa noite de sexta-feira, provocando um engarrafamento monumental que só não afetará os bandidos – que não são doidos de se enfiarem ali.

O cidadão de bem, no entanto, é devidamente avacalhado. Famílias voltando de um passeio ou de um compromisso social são aprisionadas em seus próprios carros, e depois constrangidas a desfilarem diante de fuzis, fardas e maus modos. Elas (as famílias) são as suspeitas. Documentos, por favor (o “por favor” é uma cortesia do repórter).

Jovens estudantes, turistas, casais apaixonados, vão todos para a vitrine da blitz. Ficam ali de pé, expostos à curiosidade dos passantes, tratados como elementos dignos da desconfiança do Estado. Seu crime pode ser um IPVA atrasado, um pisca-pisca com defeito ou um CD tocando alto demais. É assim que a polícia de Sérgio Cabral Filho combate a barbárie urbana.
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Se a blitz é cinematográfica, o filme é conhecido: governante marqueteiro responde à indignação geral avacalhando o cidadão. E o bandido morre no final? Morre de rir.