sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O fiador de Chávez, Morales e Correa

por Rolf Kuntz, do Estadão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu em Davos, na reunião do Fórum Econômico Mundial, o papel de fiador político dos vizinhos sul-americanos. Não precisaria fazê-lo, e nisso contrastou com o novo presidente mexicano, Felipe Calderón Hinojosa. Este cuidou de marcar sua distância em relação aos governantes por ele descritos como aspirantes à ditadura vitalícia. Não citou nomes, mas seu recado foi claro.
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Ao assumir a condição de fiador, o presidente Lula, em sua generosidade, mais uma vez se esqueceu de consultar os parceiros por ele defendidos. E mais uma vez, como tem ocorrido no comércio regional e em decisões sobre orientação econômica, esses parceiros o deixaram falando sozinho.
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Menos de uma semana depois da participação de Lula em Davos, o Congresso venezuelano completou a aprovação da famigerada Ley Habilitante, concedendo ao presidente Hugo Chávez poderes excepcionais para legislar. Nenhum governante democrático dispõe de poderes semelhantes.
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Houve quem os comparasse, no Brasil, à faculdade constitucional de editar medidas provisórias. Só pode fazer essa comparação quem não leu o projeto. A liberdade concedida ao presidente venezuelano vai muito além da necessária para estatizar algumas empresas ou promover reformas econômicas democráticas.
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Pelo artigo 1º, o presidente fica autorizado a “ditar normas para atualizar e transformar o ordenamento legal que regula as instituições do Estado, para que estas orientem sua atuação a serviço dos cidadãos, de forma eficaz, eficiente, honesta, participativa, simples, imparcial, racional e transparente, evitando o superdimensionamento estrutural e garantindo a participação popular”. Descontado o aranzel estilístico, sobra uma pergunta irrecusável: quais são os limites atribuídos à ação presidencial, nesse texto, exceto aqueles ditados por sua concepção de como devam ser instituições “a serviço dos cidadãos”, etc.?
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Da mesma forma, quais os limites de um poder para “ditar normas que adaptem a legislação existente à construção de um novo modelo econômico e social que permita a inserção do coletivo no desenvolvimento do país” e assim por diante? E qual o sentido preciso de “participação popular por meio do controle social”, outro objetivo da faculdade legislativa atribuída ao presidente?
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Com essas faculdades, a ele atribuídas por votação unânime num Congresso inteiramente submetido a seu controle, o presidente Chávez dificilmente encontrará limites a seu arbítrio. Poderá consolidar um sistema autocrático, se não for imprudente e não cometer, de início, alguma violência inaceitável até para seus seguidores mais entusiasmados.
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Desses seguidores não se deve esperar nenhum ato em defesa da informação livre ou dos direitos de qualquer movimento oposicionista condenado por seu líder. A atual oposição, é preciso reconhecer, fez muito para consolidar o poder de Chávez. Também isso contribuirá para dificultar a ação de qualquer oposição legalista.
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Chávez foi eleito, e mais de uma vez, como lembrou o presidente Lula em Davos, mas esse argumento só vale para quem desconhece História. Muitos governantes autoritários chegaram ao poder pelo voto ou por processos típicos do regime parlamentar e não se teriam sustentado sem o apoio de massas.
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Massas, principalmente quando frustradas e ressentidas, pouco se preocupam com regras e freios institucionais. Não faltam motivos, na América Latina, para frustrações e ressentimentos, facilmente conversíveis em vantagens políticas por líderes como Chávez e Evo Morales. Tipicamente, cada um deles dispõe não só de um apoio difuso em grandes setores da população, mas também de tropas de choque. Não precisam assumir a violência em seus discursos.
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O ataque ao Congresso equatoriano, por partidários do presidente Rafael Correa, foi também um episódio típico da ascensão do autoritarismo populista. “Lamentamos que se tenham produzido estes incidentes, mas creio que a oposição não deveria brincar com a vontade popular”, disse o subsecretário de Governo Eduardo Paredes. Mais “cenários de mobilização não tão pacíficos” poderão ocorrer, advertiu Paredes, se políticos e juízes continuarem resistindo à convocação da consulta popular sobre uma constituinte. Pode haver algo mais típico do que essa ameaça? Seria interessante descobrir como o presidente Lula poderia interpretá-la, se ainda estivesse em Davos como fiador dos amigos Chávez, Morales e Correa.