terça-feira, fevereiro 27, 2007

Real forte ajuda a conter inflação, conclui estudo

Nilson Brandão Junior, Estadão online

Pela primeira vez desde o Plano Real, a taxa mensal da inflação ficou abaixo de 0,5% por 12 meses consecutivos, até janeiro

A inflação brasileira está em níveis baixíssimos e o câmbio fraco tem sido determinante para isso. Pela primeira vez desde o início da estabilização monetária - em 1994, com o Plano Real -, a taxa mensal ficou abaixo de 0,5% por 12 meses consecutivos, até janeiro. Cálculo do Instituto de Economia (IE) da UFRJ mostra que, não fosse a valorização do real em 2006, o Índice de Preços ao Consumidor Ampo (IPCA) do ano, que foi de 3,4%, teria ficado entre 4,4% a 5%.
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A estimativa foi feita pelo responsável pela inflação no Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ, Carlos Thadeu de Freitas Filho. Ele explica que apenas a valorização do real nas últimas semanas - ontem, o dólar chegou a R$ 2,077, valor mais baixa desde 10 de maio de 2006, quando foi de R$ 2,060 - já foi suficiente para motivar revisões da inflação prevista para o ano. A projeção de inflação do grupo foi rebaixada de 3,8% para 3,65% este ano, informa Freitas Filho.
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Para o economista da MB Associados, Sérgio Valle, o recuo do dólar dos R$ 2,15 do fim do ano para o nível atual de R$ 2,10 vai perdurar por algum tempo. “A gente acredita que o câmbio vai continuar sendo importante em termos de inflação, mas o efeito não vai ser tão grande como nos anos anteriores, quando houve uma apreciação cambial muito forte.” A consultoria também reviu a previsão de IPCA de 4,1% para 3,8% em 2007.
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“O câmbio nos últimos dois anos foi muito importante para manter a inflação baixa”, diz Valle. Os efeitos se dão de várias formas sobre os preços internos. Com o dólar fraco, o valor em real dos produtos importados diminui, assim como o custo de matérias-primas compradas em outros países, o que dá margem para baratear produtos fabricados no País. Ajuda, também, a compensar eventuais elevações de preços em dólar de commodities (cotados internacionalmente), como os produtos agrícolas.
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Além disso, ao reduzir a competitividade das exportações de alguns setores, o câmbio fraco acaba permitindo a destinação ao mercado interno de mercadorias que seriam exportadas, pressionando os preços domésticos para baixo. Valle afirma que o dólar gera, ainda, efeito indireto sobre os preços no atacado calculados pelos Índices Gerais de Preços (IGPs) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Estes indicadores são usados para corrigir serviços, como energia e aluguéis.
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Efeito mais lento
Freitas Filho comenta que o efeito do câmbio sobre serviços é mais lento do que sobre os produtos. Segundo ele, a maior parte dos custos do setor de serviços é de mão-de-obra, ainda que alguns utilizem insumos importados. É o caso do consultor em informática e professor Edgar Monteiro. Ele compra componentes e peças para montar e consertar computadores e reconhece que alguns preços ficaram melhores. Na medida do possível, Monteiro tenta repassar aos clientes estes ganhos. “Quando compro peças mais baratas, consigo praticar preços melhores e vender mais. Meu interesse é manter minha margem com os mesmos preços. Não estou sozinho.”
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No varejo, consumidores acreditam que o câmbio baixo beneficia determinados tipos de produtos. O advogado Mauro Machlach conta que tem visto preços de carros importados mais baixos e avalia que isso ajuda, indiretamente, a controlar também os valores dos automóveis fabricados no País. Conta também que comprou recentemente dois televisores com tela de cristal líquido a preços mais baixos do que há dois anos.
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O advogado elogia o câmbio baixo, que segundo ele aumenta o poder de compra, mesmo reconhecendo a dificuldade de alguns setores para exportar. “Ficou bom para o povo, ficou bom para o governo politicamente, aumentou a chance de compra. Prefiro que o câmbio fique no mesmo patamar.” Segundo ele, além do ganho direto pelo acesso mais barato a produtos importados, aumenta a concorrência com itens produzidos no País.

COMENTANDO A NOTICIA: Sempre há duas maneiras de se enxergar um mesmo problema. No caso do real valorizado, tem que festeje a inflação baixa. De outro, há quem lamente a desindustrialização do país, a geração de empregos lá fora, o fechamento de fábricas e postos de trabalho, a perda de investimentos, perda de mercados para exportação de manufaturados. Dá para compatibilizar as duas situações ? Sim, por certo que dá, só que tem de haver competência e vontade para isto. Parece que no caso do governo Lula, faltam ambas. O que este governo parece não ver, ou não querer ver, é que esta situação acaba se voltando contra o próprio país. E pela singela razão de que diminuindo emprego, fechando fábricas, deixando de exportar mais, o governo perde também arrecadação de tributos.

E isto acaba interferindo no volume disponível para os programas sociais e investimentos capazes de impulsionar o crescimento do país. Aliás, o governo Lula é e tem sido pródigo em enxergar tudo só por uma única via, aquela que produz resultados políticos de curto prazo. Não por outra razão nosso crescimento tem sido medíocre, e Lula parecer estar satisfeito com a pobreza de resultados que seu desgoverne consegue realizar. Deveria antes avisar a nação de que sua opção será a mediocridade. Pelo menos a gente não era pego desprevenido.