terça-feira, março 06, 2007

Lula não esquece nem os pingüins

Augusto Nunes, Coisas da Política, Jornal do Brasil

Convidado a registrar por escrito o que tem a dizer de Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas, o presidente Lula massacraria as consoantes do sobrenome do primeiro, revogaria o "Dornelles" que se segue ao prenome do segundo e não iria além de 12 linhas. Como não é de perder tempo com leituras sobre a vida e a obra de antecessores, não sabe direito quem foram, o que fizeram de bom ou ruim, que espécie de país governaram. Isso é coisa para intelectuais.

Para Lula, bastou aprender que ambos cintilam no imaginário nacional como os presidentes mais populares do século 20 para nomear-se, ainda no começo do primeiro mandato, especialista em Getúlio e JK. Era só o começo da extraordinária metamorfose. O especialista logo se tornou em discípulo exemplar. Em seguida, proclamou-se herdeiro político. E enfim revelou que era o fruto da fusão de Getúlio e JK, que haviam reencarnado com o codinome Luiz Inácio da Silva.

Deus é brasileiro, e bom brasileiro. Sempre demonstrou muito apreço pelos compatriotas. Mas tem muito mais a fazer além de bancar babá de marmanjos irresponsáveis. Todos os países têm complicações a resolver, muitos exigem atenções especiais. Para corrigir a agenda sem esquecer o berço, resolveu enviar à pátria, pela rota Reino dos Céus-Garanhuns o maior governante desde a chegada das caravelas. Ficaria famoso como o apelido de Lula.

Inspirar-se num modelo só, por melhor que fosse, pareceu insuficiente. E Ele então optou pela fórmula 2 em 1. Juntou a prudência de Getúlio com a audácia de JK, a vocação conciliadora de um com o poder de sedução do outro, as inclinações nacionalistas do gaúcho com a vocação cosmopolita do mineiro. Apimentou a mistura com temperos sindicalistas e acionou o liquidificador. Minutos depois, Lula estava saindo do forno, pronto para resolver todos os problemas acumulados desde 1500.

O resultado das eleições de outubro mostra que, para a maioria dos brasileiros, Lula fez o suficiente para merecer mais quatro anos no poder. O presidente está convencido de que fez muito mais que todos os outros somados. Não pôde resolver todos os problemas do Brasil, mas faltam poucos. Serão removidos até 2010, reiterou neste começo de março.

Removidos com a ajuda dos aliados e adversários, dos empresários, da classe-média e dos trabalhadores, das nações amigas e inimigas, além da compreensão do povo brasileiro, condicionou. "O desempenho da economia não depende da vontade do presidente", admitiu o candidato que atravessou a campanha festejando uma expansão de 7% a partir de 2007. Ele achou de bom tamanho o crescimento raquítico do PIB. E muito satisfatório o desempenho da turma que prepara a estréia do espetáculo do desenvolvimento, ensaiado desde 2003. "A equipe econômica está blindada pelo sucesso", avisou. "Não vou substituir ninguém".

Ao discorrer sobre a questão da segurança pública, garantiu - de novo, mais uma vez - que haveria menos violência se houvesse mais empregos. E aqueles 10 milhões prometidos em 2002? Não chegamos lá, rendeu-se. Mas a cifra seria até ultrapassada se os empresários fossem menos mesquinhos. "Bastaria que cada um providenciasse mais dez empregos", exemplificou. "A vida dos brasileiros ficaria ainda melhor".

Já é bem melhor que a dos pingüins, ensinou no fim da conversa, emocionado com um documentário que viu recentemente. "Eles enfrentam mais dificuldades que os seres humanos", comoveu-se o presidente, que não pára de pensar nesses bichos tão simpáticos que sofrem longe do Brasil. Melhor deixá-los por lá. Aqui, a espécie sofreria muito mais. Se já não estivesse extinta.