Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
Circula nos corredores do Palácio do Planalto que desta semana não passa. O dia mais provável seria amanhã, se não for hoje e não tiver sido ontem, porque em seguida o presidente Lula recebe o presidente da Alemanha, e depois, em São Paulo, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Ficaria para sábado, então, quando os fins de semana sufocam qualquer notícia política, além de realizar-se domingo a Convenção do PMDB, quando Michel Temer deve vencer Nelson Jobim na disputa pela presidência do partido?
Só Lula sabe, imaginando-se que a reforma do ministério pareça próxima. Pode muito bem ser a mini-reforma, porque dos 34 ministérios ouve-se que no máximo dez seriam trocados. O risco, com todo o respeito, parece o de a montanha gerar um rato, na medida em que grandes nomes, mesmo luminares em cada setor da vida nacional, foram ultrapassados nas especulações por parlamentares sem expressão, representantes de grupos e clubes partidários.
Lula ou Luiz XIII?
A estratégia dá a impressão de ser estratégia nenhuma, sequer a de prestigiar o seu partido, o PT. Desde novembro fica claro que Lula pretende abafar o ministério, à maneira dos reis e imperadores do passado, que não admitiam sombras à sua volta. Exceções existiram, tanto lá como cá, mas José Dirceu teve menos sorte do que o cardeal Richelieu, evidência de que o presidente brasileiro não teve vocação para seguir os passos de um outro Luiz, o Luiz XIII da França.
Desfaz-se, assim, a primeira ilusão do segundo mandato, de que exprimiria novos tempos. Salvo engano, o governo da reeleição terá as mesmas características do governo da eleição, até com menores espaços para a atuação dos ministros. Saberão todos, de antemão, estar à mercê do Rei Sol. Só falta mesmo Lula proclamar o célebre "l'etat ce moi", ou seja, que o Estado é ele.
De qualquer forma, até por cautela, será bom aguardar o transcorrer da semana, naquilo que se transformou numa brincadeira de gato e rato, ficando óbvio quem é quem, entre o presidente, de um lado, e os partidos, de outro.
Provador oficial
Semanas atrás o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, veio jantar com o presidente Lula, na Granja do Torto. Conta o folclore que o "hermano" trouxe até provador de comida, além de uma equipe de gorilas para a própria segurança, nenhum dos quais foi desarmado pelas autoridades brasileiras ao descer no aeroporto de Brasília.
Coube a Lula reagir, proibindo o provador de provar o frango com polenta servido já tarde da noite. Verdade ou não, o fato é que 240 agentes do serviço secreto americano chegarão, e alguns até já chegaram, examinando em São Paulo cada milímetro de chão por onde Bush transitará, entre varreduras nos três hotéis destacados para o sono presidencial, um dos quais apenas minutos antes será selecionado. Tudo é segredo, menos o fato de que os gorilas da Casa Branca portarão suas próprias pistolas, sem falar da parafernália eletrônica que os acompanha.
Vamos esquecer o jacobinismo de outros tempos. Em nada o Brasil se sentirá ofendido em termos de soberania vendo Bush sorver água mineral do Texas, comer pão de centeio do Kansas ou geléia da Califórnia. Muito menos se mandar para as cozinhas seus provadores, pouco antes das refeições feitas em comum com Lula e autoridades brasileiras. Não temos o costume de envenenar ninguém. Mesmo a presença de seus gorilas misturados aos agentes nacionais da Abin, da Polícia Federal ou da polícia paulista causarão qualquer problema.
Sequer ficaremos incomodados quando Bush se deslocar no "Cadillac número um", blindado e à prova de mísseis, movido a gasolina que só fala inglês, transportado no Air-Force One ou em um dos múltiplos cargueiros já estacionados em algum campo secreto da paulicéia. Trata-se de coisa de ricos, às quais ainda não nos acostumamos mas que não nos perturbam mais, como no passado.
O importante, nessa visita mal educada por ter esnobado Brasília, afinal, a capital federal, é que Lula e Bush possam dialogar, polir arestas, pensar menos em Chávez, Evos e sucedâneos e muito mais no futuro do continente. Porque diante dessa história de aquecimento global a inundação indesejada de Nova York e da Costa Leste americana causará muito maiores prejuízos do que alguns centímetros a mais de água na praia de Copacabana...
Circula nos corredores do Palácio do Planalto que desta semana não passa. O dia mais provável seria amanhã, se não for hoje e não tiver sido ontem, porque em seguida o presidente Lula recebe o presidente da Alemanha, e depois, em São Paulo, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Ficaria para sábado, então, quando os fins de semana sufocam qualquer notícia política, além de realizar-se domingo a Convenção do PMDB, quando Michel Temer deve vencer Nelson Jobim na disputa pela presidência do partido?
Só Lula sabe, imaginando-se que a reforma do ministério pareça próxima. Pode muito bem ser a mini-reforma, porque dos 34 ministérios ouve-se que no máximo dez seriam trocados. O risco, com todo o respeito, parece o de a montanha gerar um rato, na medida em que grandes nomes, mesmo luminares em cada setor da vida nacional, foram ultrapassados nas especulações por parlamentares sem expressão, representantes de grupos e clubes partidários.
Lula ou Luiz XIII?
A estratégia dá a impressão de ser estratégia nenhuma, sequer a de prestigiar o seu partido, o PT. Desde novembro fica claro que Lula pretende abafar o ministério, à maneira dos reis e imperadores do passado, que não admitiam sombras à sua volta. Exceções existiram, tanto lá como cá, mas José Dirceu teve menos sorte do que o cardeal Richelieu, evidência de que o presidente brasileiro não teve vocação para seguir os passos de um outro Luiz, o Luiz XIII da França.
Desfaz-se, assim, a primeira ilusão do segundo mandato, de que exprimiria novos tempos. Salvo engano, o governo da reeleição terá as mesmas características do governo da eleição, até com menores espaços para a atuação dos ministros. Saberão todos, de antemão, estar à mercê do Rei Sol. Só falta mesmo Lula proclamar o célebre "l'etat ce moi", ou seja, que o Estado é ele.
De qualquer forma, até por cautela, será bom aguardar o transcorrer da semana, naquilo que se transformou numa brincadeira de gato e rato, ficando óbvio quem é quem, entre o presidente, de um lado, e os partidos, de outro.
Provador oficial
Semanas atrás o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, veio jantar com o presidente Lula, na Granja do Torto. Conta o folclore que o "hermano" trouxe até provador de comida, além de uma equipe de gorilas para a própria segurança, nenhum dos quais foi desarmado pelas autoridades brasileiras ao descer no aeroporto de Brasília.
Coube a Lula reagir, proibindo o provador de provar o frango com polenta servido já tarde da noite. Verdade ou não, o fato é que 240 agentes do serviço secreto americano chegarão, e alguns até já chegaram, examinando em São Paulo cada milímetro de chão por onde Bush transitará, entre varreduras nos três hotéis destacados para o sono presidencial, um dos quais apenas minutos antes será selecionado. Tudo é segredo, menos o fato de que os gorilas da Casa Branca portarão suas próprias pistolas, sem falar da parafernália eletrônica que os acompanha.
Vamos esquecer o jacobinismo de outros tempos. Em nada o Brasil se sentirá ofendido em termos de soberania vendo Bush sorver água mineral do Texas, comer pão de centeio do Kansas ou geléia da Califórnia. Muito menos se mandar para as cozinhas seus provadores, pouco antes das refeições feitas em comum com Lula e autoridades brasileiras. Não temos o costume de envenenar ninguém. Mesmo a presença de seus gorilas misturados aos agentes nacionais da Abin, da Polícia Federal ou da polícia paulista causarão qualquer problema.
Sequer ficaremos incomodados quando Bush se deslocar no "Cadillac número um", blindado e à prova de mísseis, movido a gasolina que só fala inglês, transportado no Air-Force One ou em um dos múltiplos cargueiros já estacionados em algum campo secreto da paulicéia. Trata-se de coisa de ricos, às quais ainda não nos acostumamos mas que não nos perturbam mais, como no passado.
O importante, nessa visita mal educada por ter esnobado Brasília, afinal, a capital federal, é que Lula e Bush possam dialogar, polir arestas, pensar menos em Chávez, Evos e sucedâneos e muito mais no futuro do continente. Porque diante dessa história de aquecimento global a inundação indesejada de Nova York e da Costa Leste americana causará muito maiores prejuízos do que alguns centímetros a mais de água na praia de Copacabana...