Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
Tivessem sido prestadas num país sério, as declarações do novo ministro da Previdência Social, Luís Marinho, gerariam uma de duas conseqüências: sua interdição por alienação mental, com a óbvia demissão, ou processo por atentado ao pudor social.
Na "Folha de S. Paulo" de ontem o ex-presidente da CUT, antigo defensor dos humilhados e ofendidos trabalhadores, disse com todas as letras que a Previdência Social "tem que conter a explosão de pensões por morte". Queixou-se de que hoje são pagas cerca de seis milhões de pensões por morte e de que só no ano passado 144 mil novos benefícios somaram-se ao total.
Traduzindo: em 2006 morreram 144 mil trabalhadores e, para sobreviver, suas viúvas pleitearam receber o salário mínimo garantido pela lei. Sugeriu o ministro que se uma jovem ficar viúva, sem filhos, não deve mais fazer jus à pensão. Começando pelo fim, vale indagar se Luís Marinho está sugerindo que as viúvas encontrem logo outro marido? Ou que passem a rodar bolsinha para poder continuar almoçando e jantando? Quem sabe, propõe que a Previdência Social distribua o elixir da longa vida para interromper a morte de trabalhadores?
O governo Lula já fez o diabo com aposentados e pensionistas. Obrigou que passassem a descontar para a Previdência Social, como se depois de décadas de trabalho precisassem contribuir para outra aposentadoria, certamente na eternidade. Depois, o Palácio do Planalto desvinculou as pensões e aposentadorias do salário mínimo. Em seguida, concedeu 3% de reajuste para os aposentados que recebem acima do salário mínimo, ou seja, menos do que a inflação. Agora, mais essa, de cortar a pensão das jovens viúvas. E sem falar na redução do auxílio-doença, também sugerida na referida entrevista.
O pretexto de tudo é de que a Previdência Social dá prejuízo, afirmação falsa tão a gosto do neoliberalismo. Só falta mesmo Luís Marinho convocar o Herodes para uma das diretorias de seu ministério. Porque os bebês também dão prejuízo e logo constituirão o mais novo alvo da reforma da Previdência Social...
Contra o povo
São Paulo, mais uma vez, virou o caos. Motoristas e trocadores de ônibus, mais os metroviários, decidiram paralisar suas atividades na hora crítica em que o trabalhador vai para o emprego, da madrugada às oito horas da manhã. Podem até dispor de razão, mas quem saiu prejudicado? Atrasos, problemas, cancelamento de obrigações e indignação a quem atingiram?
Certas categorias cultivam o egoísmo sem se dar conta do princípio que vem desde os tempos de Ramsés II: greve se faz contra patrão e contra governos. Quando o governo é o patrão, melhor ainda. Mas greve contra o povo?
Teria sido simples aos grevistas de ontem protestar por seus direitos no exercício de suas funções. Bastaria que circulassem com as catracas abertas. Com ninguém pagando passagem. Não haveria polícia ou milícia particular em condições de obrigar o público a comprar bilhetes.
Manifestações de apoio à greve fluiriam de todos os lados, deixando na pior patrões e governo que não cumprem suas promessas. Seriam atingidos no bolso, ponto fundamental de suas preocupações. Perderam, os grevistas, mais uma oportunidade de mudar as relações de trabalho. O resultado é que não serão atendidos em suas reivindicações e aumentaram muito o grau de irritação do povo contra eles.
Confissão
Ontem, dialogando com líderes do PMDB, em pé-de-guerra por não terem sido atendidos na pretensão de ocupar milhares de cargos de segundo escalão, o ministro Walfrido dos Mares Guia abriu o jogo. Pediu a compreensão dos aliados para o fato de que este não é um governo novo, com dez mil cargos para preencher... A conclusão a tirar é de que no primeiro mandato Lula regalou dez mil companheiros com cargos públicos. Não há administração que dê certo. É por isso que o poder público não funciona, ou funciona mal.
Quantos estavam preparados para as funções? Pior fica a situação quando se verifica que muitos, entre os dez mil, depois de quatro anos nos cargos, conseguiram aprender e demonstrar desempenho no mínimo razoável. Quem sabe a metade? Se agora estão em vias de ser demitidos, devorados por essa nova nuvem de gafanhotos a sobrevoar Brasília, pelo menos que o governo mantenha os bons e livre-se dos maus. Nem isso, porém, deve ser esperado.
Tivessem sido prestadas num país sério, as declarações do novo ministro da Previdência Social, Luís Marinho, gerariam uma de duas conseqüências: sua interdição por alienação mental, com a óbvia demissão, ou processo por atentado ao pudor social.
Na "Folha de S. Paulo" de ontem o ex-presidente da CUT, antigo defensor dos humilhados e ofendidos trabalhadores, disse com todas as letras que a Previdência Social "tem que conter a explosão de pensões por morte". Queixou-se de que hoje são pagas cerca de seis milhões de pensões por morte e de que só no ano passado 144 mil novos benefícios somaram-se ao total.
Traduzindo: em 2006 morreram 144 mil trabalhadores e, para sobreviver, suas viúvas pleitearam receber o salário mínimo garantido pela lei. Sugeriu o ministro que se uma jovem ficar viúva, sem filhos, não deve mais fazer jus à pensão. Começando pelo fim, vale indagar se Luís Marinho está sugerindo que as viúvas encontrem logo outro marido? Ou que passem a rodar bolsinha para poder continuar almoçando e jantando? Quem sabe, propõe que a Previdência Social distribua o elixir da longa vida para interromper a morte de trabalhadores?
O governo Lula já fez o diabo com aposentados e pensionistas. Obrigou que passassem a descontar para a Previdência Social, como se depois de décadas de trabalho precisassem contribuir para outra aposentadoria, certamente na eternidade. Depois, o Palácio do Planalto desvinculou as pensões e aposentadorias do salário mínimo. Em seguida, concedeu 3% de reajuste para os aposentados que recebem acima do salário mínimo, ou seja, menos do que a inflação. Agora, mais essa, de cortar a pensão das jovens viúvas. E sem falar na redução do auxílio-doença, também sugerida na referida entrevista.
O pretexto de tudo é de que a Previdência Social dá prejuízo, afirmação falsa tão a gosto do neoliberalismo. Só falta mesmo Luís Marinho convocar o Herodes para uma das diretorias de seu ministério. Porque os bebês também dão prejuízo e logo constituirão o mais novo alvo da reforma da Previdência Social...
Contra o povo
São Paulo, mais uma vez, virou o caos. Motoristas e trocadores de ônibus, mais os metroviários, decidiram paralisar suas atividades na hora crítica em que o trabalhador vai para o emprego, da madrugada às oito horas da manhã. Podem até dispor de razão, mas quem saiu prejudicado? Atrasos, problemas, cancelamento de obrigações e indignação a quem atingiram?
Certas categorias cultivam o egoísmo sem se dar conta do princípio que vem desde os tempos de Ramsés II: greve se faz contra patrão e contra governos. Quando o governo é o patrão, melhor ainda. Mas greve contra o povo?
Teria sido simples aos grevistas de ontem protestar por seus direitos no exercício de suas funções. Bastaria que circulassem com as catracas abertas. Com ninguém pagando passagem. Não haveria polícia ou milícia particular em condições de obrigar o público a comprar bilhetes.
Manifestações de apoio à greve fluiriam de todos os lados, deixando na pior patrões e governo que não cumprem suas promessas. Seriam atingidos no bolso, ponto fundamental de suas preocupações. Perderam, os grevistas, mais uma oportunidade de mudar as relações de trabalho. O resultado é que não serão atendidos em suas reivindicações e aumentaram muito o grau de irritação do povo contra eles.
Confissão
Ontem, dialogando com líderes do PMDB, em pé-de-guerra por não terem sido atendidos na pretensão de ocupar milhares de cargos de segundo escalão, o ministro Walfrido dos Mares Guia abriu o jogo. Pediu a compreensão dos aliados para o fato de que este não é um governo novo, com dez mil cargos para preencher... A conclusão a tirar é de que no primeiro mandato Lula regalou dez mil companheiros com cargos públicos. Não há administração que dê certo. É por isso que o poder público não funciona, ou funciona mal.
Quantos estavam preparados para as funções? Pior fica a situação quando se verifica que muitos, entre os dez mil, depois de quatro anos nos cargos, conseguiram aprender e demonstrar desempenho no mínimo razoável. Quem sabe a metade? Se agora estão em vias de ser demitidos, devorados por essa nova nuvem de gafanhotos a sobrevoar Brasília, pelo menos que o governo mantenha os bons e livre-se dos maus. Nem isso, porém, deve ser esperado.