Carolina Benevides e Renato Grandelle
Há 29 anos no setor de gastroenterologia do Hospital-Geral de Bonsucesso, o médico Julio Noronha viu mais do que duas gerações de pacientes passando por suas mãos. Prestes a completar 30 anos de serviços prestados na mesma unidade, o que mais o impressiona hoje é a alta rotatividade dos colegas de profissão: não são necessários mais do que dois plantões para que um novato resolva migrar para a rede privada.
- Quando comecei, todos queriam trabalhar em hospitais públicos - lembra. - Agora, para não restringirem suas opções, preferem ficar como terceirizados na rede pública. Com mais empregos, o salário sobe, mas a formação fica comprometida. É uma opção ruim para médico e paciente.
Um funcionário concursado pode ter, no máximo, duas matrículas, o que lhe garantiria cerca de R$ 2.600 no fim do mês. Para aumentar a renda, tornou-se comum desistir do vínculo formal com o sistema público, que não tem plano de carreira nem investe em equipamentos.
Essa mudança no comportamento, que surgiu graças aos baixos salários e a falta de perspectiva, pode resultar em catástrofe. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, 60% da força de trabalho da rede hospitalar federal no Rio vai se aposentar nos próximos 10 anos - a conta não inclui o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
As unidades federais do Estado padeceram por mais de uma década sem concursos públicos - mas, quando retomada, a seleção não empolgou os candidatos. Em 2005, foram abertas 3.470 vagas para quatro instituições. No Hospital-Geral de Bonsucesso, 64% dos convocados não assumiram seus cargos. Quinze meses depois do primeiro anúncio dos aprovados, ainda há 224 postos de trabalho abertos.
- Há possibilidade de fechamento de serviços - admite Valcler Fernandes, diretor do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Rio. - Não houve renovação dos profissionais de saúde, principalmente por uma questão que não podemos mais abafar: as baixas remunerações.
Valcler tem, em sua alçada, seis instituições: os hospitais da Lagoa, Jacarepaguá, Ipanema, Andaraí, dos Servidores e Geral de Bonsucesso.
Para cuidar dos 1.800 leitos - total disponível por estas unidades - o diretor tem apenas R$ 340 milhões. É menos do que gasta com pessoal: R$ 380 milhões - uma quantia que poderia ser muito maior, se houvesse alguma lógica na distribuição do funcionalismo.
O Hospital do Andaraí é um bom exemplo da bagunça. Em março, dos 654 profissionais de saúde que batiam ponto na unidade, apenas 302 tinham vínculo empregatício fixo com o Ministério da Saúde. Do restante, 221 têm contrato temporário, e 131 são da rede municipal - a quem o hospital pertencia há dois anos. Basta uma canetada do prefeito Cesar Maia para que o déficit aumente significativamente.
- Estes funcionários sequer sabem por quanto tempo continuarão na rede - explica a presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Márcia Rosa de Araújo. - E há, também, os que desistem antes da aposentadoria, porque trabalham, em troca de uma miséria, em hospitais até 70 quilômetros distantes de onde moram.
Nem sempre praticar medicina na rede federal foi atividade tão franciscana. Em 1984, o salário inicial da atividade era equivalente a US$ 3 mil. Hoje, não passa de US$ 650 - quase três vezes menor do que o reivindicado por entidades da categoria.
- Estamos caminhando para uma situação onde os pacientes serão empilhados na porta dos hospitais - alerta Márcia Rosa. - As condições atuais da rede só afastam o médico do serviço público.
- Os hospitais são uma violência profissional ao médico - acrescenta Jorge Darze, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (Sinmed). - É ele quem tem de responder pelo tratamento, e, se o paciente morrer, sentar no banco dos réus. A família não quer saber se o governo é responsável.
Há 29 anos no setor de gastroenterologia do Hospital-Geral de Bonsucesso, o médico Julio Noronha viu mais do que duas gerações de pacientes passando por suas mãos. Prestes a completar 30 anos de serviços prestados na mesma unidade, o que mais o impressiona hoje é a alta rotatividade dos colegas de profissão: não são necessários mais do que dois plantões para que um novato resolva migrar para a rede privada.
- Quando comecei, todos queriam trabalhar em hospitais públicos - lembra. - Agora, para não restringirem suas opções, preferem ficar como terceirizados na rede pública. Com mais empregos, o salário sobe, mas a formação fica comprometida. É uma opção ruim para médico e paciente.
Um funcionário concursado pode ter, no máximo, duas matrículas, o que lhe garantiria cerca de R$ 2.600 no fim do mês. Para aumentar a renda, tornou-se comum desistir do vínculo formal com o sistema público, que não tem plano de carreira nem investe em equipamentos.
Essa mudança no comportamento, que surgiu graças aos baixos salários e a falta de perspectiva, pode resultar em catástrofe. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, 60% da força de trabalho da rede hospitalar federal no Rio vai se aposentar nos próximos 10 anos - a conta não inclui o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
As unidades federais do Estado padeceram por mais de uma década sem concursos públicos - mas, quando retomada, a seleção não empolgou os candidatos. Em 2005, foram abertas 3.470 vagas para quatro instituições. No Hospital-Geral de Bonsucesso, 64% dos convocados não assumiram seus cargos. Quinze meses depois do primeiro anúncio dos aprovados, ainda há 224 postos de trabalho abertos.
- Há possibilidade de fechamento de serviços - admite Valcler Fernandes, diretor do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Rio. - Não houve renovação dos profissionais de saúde, principalmente por uma questão que não podemos mais abafar: as baixas remunerações.
Valcler tem, em sua alçada, seis instituições: os hospitais da Lagoa, Jacarepaguá, Ipanema, Andaraí, dos Servidores e Geral de Bonsucesso.
Para cuidar dos 1.800 leitos - total disponível por estas unidades - o diretor tem apenas R$ 340 milhões. É menos do que gasta com pessoal: R$ 380 milhões - uma quantia que poderia ser muito maior, se houvesse alguma lógica na distribuição do funcionalismo.
O Hospital do Andaraí é um bom exemplo da bagunça. Em março, dos 654 profissionais de saúde que batiam ponto na unidade, apenas 302 tinham vínculo empregatício fixo com o Ministério da Saúde. Do restante, 221 têm contrato temporário, e 131 são da rede municipal - a quem o hospital pertencia há dois anos. Basta uma canetada do prefeito Cesar Maia para que o déficit aumente significativamente.
- Estes funcionários sequer sabem por quanto tempo continuarão na rede - explica a presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Márcia Rosa de Araújo. - E há, também, os que desistem antes da aposentadoria, porque trabalham, em troca de uma miséria, em hospitais até 70 quilômetros distantes de onde moram.
Nem sempre praticar medicina na rede federal foi atividade tão franciscana. Em 1984, o salário inicial da atividade era equivalente a US$ 3 mil. Hoje, não passa de US$ 650 - quase três vezes menor do que o reivindicado por entidades da categoria.
- Estamos caminhando para uma situação onde os pacientes serão empilhados na porta dos hospitais - alerta Márcia Rosa. - As condições atuais da rede só afastam o médico do serviço público.
- Os hospitais são uma violência profissional ao médico - acrescenta Jorge Darze, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (Sinmed). - É ele quem tem de responder pelo tratamento, e, se o paciente morrer, sentar no banco dos réus. A família não quer saber se o governo é responsável.