terça-feira, maio 22, 2007

Relatório acusa "Estado ausente" nos rincões do país

Jornal do Brasil

O dia 18 de maio foi escolhido como a data oficial de combate ao abuso e exploração sexual da criança e do adolescente. Por uma triste coincidência, nessa mesma data, no ano passado, a Justiça libertou em Porto Ferreira, pequeno município paulista, vereadores e empresários presos por organizarem orgias com adolescentes num sítio da cidade.

- Naquele dia, acordei com essa notícia - lembra a senadora Patrícia Saboya (PSB-CE).

No dia 6 deste mês, o jornalista Luiz Carlos Barbon, 37 anos, que denunciou todo o esquema, foi assassinado num bar de Porto Ferreira. A polícia não sabe ainda se foi vingança. Independentemente do crime, o relatório, concluído antes do assassinato, revela que o Estado continua ausente nos rincões do Brasil. "Entendemos que o atendimento às vítimas de exploração sexual infantil continua a ser um grande desafio para os 5.562 municípios do país", diz o documento.

- Como cidadã, tenho muita vergonha de ter me esforçado tanto na investigação e ver que pouco se fez na Justiça - queixa-se a senadora.

Sem soluções a curto prazo, o Ministério da Justiça informou que prepara um Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, que será implantado no próximo semestre, mas não detalhou o projeto. O anúncio foi feito pelo ministro Tarso Genro na quinta-feira, para os parlamentares que entregaram o dossiê com o resultado dos processos de exploração sexual infantil denunciados na CPI.

Tarso entrou mudo e saiu calado do evento, reclama a senadora Patrícia Saboya. A deputada Maria do Rosário (PT-RS) diz, no entanto, estar confiante de que o programa não será um simples método paliativo para minorar o problema.

O Comitê de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, que reúne entidades em todos os Estados, sugere uma parceria com o governo para se aproximar das comunidades carentes.

- As pessoas preferem esquecer a violência do que revivê-la. Isso tira a capacidade de qualquer instituição poder mensurar o problema. Enquanto falar de violência sexual for uma vergonha, estaremos sempre distantes dos números - analisa a presidente do comitê, Neide Castanho. (L.M.)