terça-feira, maio 22, 2007

Me engana que eu gosto

José Paulo Kupfer, NoMínimo

As receitas de exportação, no primeiro quadrimestre de 2007, alcançaram US$ 46 bilhões. Mas, o valor das antecipações de contratos de câmbio, no mesmo período, chegou a US$ 63 bilhões. Houve, portanto, um ingresso excedente de US$ 17 bilhões – mais de 50% acima da diferença entre contratos de antecipação de câmbio e receitas de exportação registrada em todo o ano de 2006, como mostra o repórter Alberto Komatsu, no Estado de S. Paulo, de sábado, 19 de maio.

Além do saldo comercial e dos investimentos diretos, não é só a corrida dos exportadores para trazer o máximo de dólares, no menor espaço de tempo possível, que potencializa o ingresso de divisas e contribui para valorizar o real. Também as aplicações financeiras, na bolsa e mesmo em renda fixa, ajudam na derrubada do dólar. Pela primeira em dez anos, as aplicações em renda fixa estão positivas, em termos líquidos. Foram US$ 14,5 bilhões, de janeiro de 2006 a março de 2007, dos quais US$ 3,5 bilhões só em março, conforme reportagem de Fernando Dantos, também no Estado de S. Paulo, edição de sexta-feira, 18 de maio.

Mesmo diante de tamanhas evidências, há quem insista que essa inundação de dólares não tem a nada a ver com o nível dos juros domésticos. Se tivesse influencia, argumentam, o câmbio não estaria caindo ainda mais, pois no último ano, os juros já recuaram 7%. O fato de continuarem mais de o dobro acima dos vigentes lá fora, nessa hora, é esquecido. Contra argumentos não há fatos.
Mas isso não é tudo. Já que os juros não têm nada com a história, só há um jeito de impedir que a valorização do real avance ainda mais. É gastando dólares. Para gastar dólares, só aumentando as importações. E para aumentar as importações, só derrubando as tarifas. De preferência, numa paulada.

Trata-se mesmo de uma solução genial. Além de resolver o problema do câmbio, elimina-se, numa única cacetada, a indústria ineficiente, que viveu todo esse tempo protegida pelo “câmbio generoso”. Instala-se a competição e vamos que vamos.

Lembra a solução adotada pelo governo FHC, com a abertura do setor bancário aos bancos estrangeiros, iniciada, de forma espetacular, com a compra favorecida do Bamerindus pelo HSBC. Os estrangeiros viriam para instalar a competição no setor e reduzir as tarifas cobradas pelos bancos brasileiros. Nada a favor dos bancos brasileiros, mas, vista de hoje, a “solução competitiva” então adotada é de gargalhar.

No caso da indústria atual, a idéia de reduzir as proteções tarifárias de um modo radical e, principalmente, indiscriminado, no exato momento em que o setor se vê afetado por uma fortíssima apreciação do real, beira o crime. Revela não apenas irresponsabilidade social, mas, antes de tudo, absoluta ignorância do funcionamento da economia real.

De que indústria estão falando? Há diferenças relevantes entre uma siderúrgica que produz placas de aço e uma fabricante de automóveis ou outro bem durável de consumo. Ou entre uma mineradora e um fabricante de equipamentos eletrônicos ou mesmo automóveis. Ou ainda entre indústrias de alimentos, vestuário e calçados, e fabricantes de celulares e aviões.

Para entender essas diferenças e as diferentes políticas que, para o bem ou para mal, possam afetar a indústria, o economista David Kupfer, coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade, do Instituto de Economia da UFRJ, em artigo no jornal Valor, dividiu as indústrias em três ramos: base, miolo e topo. “Base, miolo e topo formam mundos industriais completamente diferentes”, escreve David Kupfer.

A base, onde se encontram a metalurgia e a agroindústria, requer recursos naturais, capital farto e barato e excelência em engenharia. A turma do topo, formada pelos fabricantes de eletrônico e bens duráveis, necessita de recursos financeiros e humanos em Pesquisa & Desenvolvimento, um mínimo de infra-estrutura em Ciência e Tecnologia e mecanismos de suporte ao risco tecnológico. O resto, que compõe o chamado miolo da indústria, é intensivo em mão-de-obra e depende de acesso a capitais e serviços de suporte à produção.
É claro que cada segmento reagirá de um modo diferente a políticas genéricas.

As que visam, darwinianamente, forçar a competição com a exposição a concorrentes externos, via valorização da moeda e derrubada de tarifas, podem ter conseqüências desastrosas. A capacidade de concorrer em preço é decisiva para as indústrias da base, menos importante no miolo e menos ainda no topo. Já a concorrência em inovação ou marketing é mais importante no topo, menos no miolo e pouco importante na base. “É por essa razão”, explica David Kupfer, “que a indústria brasileira, pouco capacitada para a diferenciação e a inovação, apresenta um hiato de competitividade crescente, na medida em que se percorrem os segmentos desde a base até o topo.”

Observada desse ponto de vista, uma redução acentuada e generalizada do nível de proteção efetiva da indústria, afetaria mais diretamente o miolo e, num segundo plano, o topo. A base, com suas siderúrgicas, mineradoras e agroindústria, seria menos ou quase nada afetada. Não custa saber que, embora o miolo reúna 70% das indústrias e cerca de 60% do pessoal ocupado, sua participação nas receitas da indústria, que chegava a 40%, entre os anos 80 e 90 (a base também produzia 40% e o topo, 20%), está em queda desde o ano 2000.

Para não cansar ainda mais a beleza de ninguém, o resumo dessa história é que, aplicada a solução “competitiva” do choque generalizado de importações, o que se conseguirá é a reforçar a tendência de atrofia do miolo e do topo, em favor de uma especialização ainda maior na produção de commodities.

Uma das características do segmento de base, produtor de commodities, é a limitada capacidade de gerar e sustentar empregos e renda. Se é nisso que pretendemos nos especializar, tudo bem. Mas, depois, o presidente Lula não vai poder dizer que, com o câmbio valorizado, os trabalhadores saem ganhando. A tendência seria a de haver, relativamente, menos trabalhadores para sair ganhando.