João Ricardo Moderno, Jornal do Brasil
A seguir, leiam o artigo do José Ricardo que vale pela chamada à realidade que nos é feita. Comentaremos no post seguinte.
A barbárie brasileira estruturou as suas bases históricas simultaneamente ao projeto voluntarioso da cultura brasileira de converter-se em civilização brasileira. Esse desejo frustrou-se. Felizmente, outros desejos e sonhos - como o de estabelecer no Brasil um entreposto do totalitarismo comunista soviético - fracassaram. A barbárie totalitária foi barrada por um projeto nacional ancorado no restabelecimento do Estado de Direito Democrático.
As tendências regressivas da sociedade brasileira foram desprezadas. O fim da autoridade conduziu-nos ao autoritarismo absoluto do crime organizado e desorganizado. A ética, a lógica e a estética do bandido dominaram o Brasil. O carrasco é uma celebridade. Somos uma sociedade do medo. O terrorismo e o consumo de drogas ilícitas são a mesma moeda. Vivemos o autoritarismo dos criminosos que contamina os poderes da República, igualmente autoritários e por vezes igualmente delinqüentes.
A barbárie brasileira é o totalitarismo do bandido. Semelhante ao fascismo nazista, comunista e islâmico. Os próprios bandidos usam o termo "barbarizar". A força do espírito foi derrotada pelo espírito da força. A lei do mais forte acabou com o Estado de Direito Democrático. O primado da força física é a regra que converteu gradativamente parcelas cada vez maiores da sociedade. Todos querem ser maus. A ordem social estabelecida engendrou a desordem.
A desmoralização crescente do professor, da escola, da educação, da ciência e da cultura é coincidente com a ascensão da barbárie. O elogio da favela e da miséria transformou a vida social num inferno. O culto do corpo associa-se à lei do mais forte. A violência física praticada em escala industrial é o resultado dessa reificação do ser humano. As pessoas querem ser coisas fortes. A força física tornou-se um absoluto. O argumento pela força do grito está na mesma lógica da força do bandido. A barbárie do corpo é o corpo da barbárie.
Os valores do espírito foram para a lixeira e os corpos do genocídio para os cemitérios, ou para os "microondas", apelido cunhado nos campos de concentração para a fogueira do inferno tupiniquim. Na Baixada Fluminense, o assassinato é considerado "morte natural". O homicídio foi naturalizado. Cabeças de vítimas são carregadas nas mãos de crianças. O instinto lúdico é exercido em favor das trevas. Facínoras fazem tiro ao alvo em inocentes civis e policiais, e fazem o marketing da bala perdida que é sempre atribuída à polícia. O sadismo tornou-se um produto natural da eliminação do espírito. Da eliminação do amor. A incapacidade de amar gerou a dureza do coração. A exaltação da dureza e da frieza criou gerações de assassinos cruéis.
Paul Valéry antes da I Guerra Mundial já profetizava que a desumanidade teria um grande futuro. Os sonhos nazistas hoje estão naturalizados e justificados por boa parte da bioética brasileira. A defesa da eutanásia pelos nazistas foi incorporada pelas boas consciências científicas, assim como o assassinato para tráfico de órgãos é justificado pelos defensores do uso das células-tronco embrionárias, através da lógica industrial de produzir peças de reposição. Não se faz o bem através do mal.
O genocídio do aborto é defendido até mesmo para controle da natalidade. A tortura do trote universitário é exercida por jovens no templo mesmo da ciência e da cultura sob o silêncio das autoridades universitárias. A eugenia descolou-se do terror nazista. A tortura nos campos e nas cidades é um exercício prático do poder. Até recentemente, havia uma clara divisão entre barbárie e civilização. Hoje há uma naturalização da barbárie. Esta se dissimulou e transformou a crueldade em solidariedade, a desumanidade em fraternidade e a alienação em consciência crítica.
As raízes da barbárie devem ser procuradas nos carrascos, como bem assinala o filósofo Theodor Adorno, e não nas vítimas. O lado mais fraco é sempre o da vítima. Entretanto, a responsabilidade geral pela criação de monstros é do Estado brasileiro, secundado por uma sociedade que somente começa a acordar depois que os olhos dos inocentes já se fecharam. Só uma força armada extraordinária será capaz de dar início ao resgate do Estado de Direito Democrático e criar as condições da retomada do ideal de uma civilização brasileira.
João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia e professor da Uerj
A seguir, leiam o artigo do José Ricardo que vale pela chamada à realidade que nos é feita. Comentaremos no post seguinte.
A barbárie brasileira estruturou as suas bases históricas simultaneamente ao projeto voluntarioso da cultura brasileira de converter-se em civilização brasileira. Esse desejo frustrou-se. Felizmente, outros desejos e sonhos - como o de estabelecer no Brasil um entreposto do totalitarismo comunista soviético - fracassaram. A barbárie totalitária foi barrada por um projeto nacional ancorado no restabelecimento do Estado de Direito Democrático.
As tendências regressivas da sociedade brasileira foram desprezadas. O fim da autoridade conduziu-nos ao autoritarismo absoluto do crime organizado e desorganizado. A ética, a lógica e a estética do bandido dominaram o Brasil. O carrasco é uma celebridade. Somos uma sociedade do medo. O terrorismo e o consumo de drogas ilícitas são a mesma moeda. Vivemos o autoritarismo dos criminosos que contamina os poderes da República, igualmente autoritários e por vezes igualmente delinqüentes.
A barbárie brasileira é o totalitarismo do bandido. Semelhante ao fascismo nazista, comunista e islâmico. Os próprios bandidos usam o termo "barbarizar". A força do espírito foi derrotada pelo espírito da força. A lei do mais forte acabou com o Estado de Direito Democrático. O primado da força física é a regra que converteu gradativamente parcelas cada vez maiores da sociedade. Todos querem ser maus. A ordem social estabelecida engendrou a desordem.
A desmoralização crescente do professor, da escola, da educação, da ciência e da cultura é coincidente com a ascensão da barbárie. O elogio da favela e da miséria transformou a vida social num inferno. O culto do corpo associa-se à lei do mais forte. A violência física praticada em escala industrial é o resultado dessa reificação do ser humano. As pessoas querem ser coisas fortes. A força física tornou-se um absoluto. O argumento pela força do grito está na mesma lógica da força do bandido. A barbárie do corpo é o corpo da barbárie.
Os valores do espírito foram para a lixeira e os corpos do genocídio para os cemitérios, ou para os "microondas", apelido cunhado nos campos de concentração para a fogueira do inferno tupiniquim. Na Baixada Fluminense, o assassinato é considerado "morte natural". O homicídio foi naturalizado. Cabeças de vítimas são carregadas nas mãos de crianças. O instinto lúdico é exercido em favor das trevas. Facínoras fazem tiro ao alvo em inocentes civis e policiais, e fazem o marketing da bala perdida que é sempre atribuída à polícia. O sadismo tornou-se um produto natural da eliminação do espírito. Da eliminação do amor. A incapacidade de amar gerou a dureza do coração. A exaltação da dureza e da frieza criou gerações de assassinos cruéis.
Paul Valéry antes da I Guerra Mundial já profetizava que a desumanidade teria um grande futuro. Os sonhos nazistas hoje estão naturalizados e justificados por boa parte da bioética brasileira. A defesa da eutanásia pelos nazistas foi incorporada pelas boas consciências científicas, assim como o assassinato para tráfico de órgãos é justificado pelos defensores do uso das células-tronco embrionárias, através da lógica industrial de produzir peças de reposição. Não se faz o bem através do mal.
O genocídio do aborto é defendido até mesmo para controle da natalidade. A tortura do trote universitário é exercida por jovens no templo mesmo da ciência e da cultura sob o silêncio das autoridades universitárias. A eugenia descolou-se do terror nazista. A tortura nos campos e nas cidades é um exercício prático do poder. Até recentemente, havia uma clara divisão entre barbárie e civilização. Hoje há uma naturalização da barbárie. Esta se dissimulou e transformou a crueldade em solidariedade, a desumanidade em fraternidade e a alienação em consciência crítica.
As raízes da barbárie devem ser procuradas nos carrascos, como bem assinala o filósofo Theodor Adorno, e não nas vítimas. O lado mais fraco é sempre o da vítima. Entretanto, a responsabilidade geral pela criação de monstros é do Estado brasileiro, secundado por uma sociedade que somente começa a acordar depois que os olhos dos inocentes já se fecharam. Só uma força armada extraordinária será capaz de dar início ao resgate do Estado de Direito Democrático e criar as condições da retomada do ideal de uma civilização brasileira.
João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia e professor da Uerj