por Denis Rosenfield, Blog Diego Casagrande
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As manifestações do dia 1º de maio exibiram uma inusitada aliança de duas das maiores centrais sindicais, a CUT e a Força Sindical, em torno do governo Lula e, em particular, em torno da figura do presidente. Até então rivais, deram um inequívoco símbolo de união do ponto de vista dos discursos. Partidariamente, podemos igualmente dizer que o PT e o PDT, brindados com representantes sindicais no ministério, o da Previdência e o do Trabalho, estão muito satisfeitos com essa adesão dos sindicatos ao governo, ou melhor, à estrutura estatal. As centrais sindicais vão, assim, perdendo a sua independência, atrelando-se a um Poder que lhes confere, agora, uma parte do Imposto sindical. Manifestações de desapreço ou de crítica desaparecem, por assim dizer, do horizonte imediato em proveito de conveniências políticas, financeiras e partidárias. Todos se encontram bem acomodados. Mal acomodados ficam aqueles que prezam a independência.
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Não faz muito tempo, a esquerda considerava, depreciativamente, esse tipo de comportamento como pelego. Os antigos “pelegos”, os trabalhistas de outrora, são, agora, os novos “companheiros”, todos incrustados no aparelho de Estado. Ora, o peleguismo, enquanto forma de tratamento depreciativo de lideranças sindicais, ganhava essa denominação por uma visão que criticava o colaboracionismo de classes dessas lideranças e a sua adesão ao governo. Se fossem, ainda segunda essa visão, lideranças revolucionárias, que pregassem a ruptura institucional, elas seriam vistas favoravelmente. O “pelego” era um líder sindical que procurava conciliar os interesses do trabalho e do capital, usufruindo politicamente dessa situação. Era aquele que tinha abandonado a idéia de revolução.
Não faz muito tempo, a esquerda considerava, depreciativamente, esse tipo de comportamento como pelego. Os antigos “pelegos”, os trabalhistas de outrora, são, agora, os novos “companheiros”, todos incrustados no aparelho de Estado. Ora, o peleguismo, enquanto forma de tratamento depreciativo de lideranças sindicais, ganhava essa denominação por uma visão que criticava o colaboracionismo de classes dessas lideranças e a sua adesão ao governo. Se fossem, ainda segunda essa visão, lideranças revolucionárias, que pregassem a ruptura institucional, elas seriam vistas favoravelmente. O “pelego” era um líder sindical que procurava conciliar os interesses do trabalho e do capital, usufruindo politicamente dessa situação. Era aquele que tinha abandonado a idéia de revolução.
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Neste sentido, ele se situava dentro da estrutura mesmo do Estado e servia aos interesses dos trabalhadores no estabelecimento de vantagens sociais. Poder-se-ia dizer que se tratava de um reformista. O “não-pelego”, ainda segundo essa visão, era o líder sindical que pregava a sociedade socialista, tudo fazendo para que ela fosse instalada, conduzindo as reivindicações dos trabalhadores ao ponto da ruptura político-social. Seu objetivo era propriamente revolucionário e não se esgotava no – e na verdade nem se preocupava primordialmente com o – atendimento de demandas sociais, consideradas pejorativamente como reformistas. Trata-se de um exemplo particularmente claro da predominância de um imaginário de esquerda radical que qualificava depreciativamente os seus adversários. Tal denominação não teria tido curso se o marxismo não tivesse naquela época se estabelecido como marco mesmo de análise, o marco de análise “verdadeiro” ou “científico”.
Neste sentido, ele se situava dentro da estrutura mesmo do Estado e servia aos interesses dos trabalhadores no estabelecimento de vantagens sociais. Poder-se-ia dizer que se tratava de um reformista. O “não-pelego”, ainda segundo essa visão, era o líder sindical que pregava a sociedade socialista, tudo fazendo para que ela fosse instalada, conduzindo as reivindicações dos trabalhadores ao ponto da ruptura político-social. Seu objetivo era propriamente revolucionário e não se esgotava no – e na verdade nem se preocupava primordialmente com o – atendimento de demandas sociais, consideradas pejorativamente como reformistas. Trata-se de um exemplo particularmente claro da predominância de um imaginário de esquerda radical que qualificava depreciativamente os seus adversários. Tal denominação não teria tido curso se o marxismo não tivesse naquela época se estabelecido como marco mesmo de análise, o marco de análise “verdadeiro” ou “científico”.
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Os ventos parecem estar mudando. A Força Sindical, desde de há muito, trilhava esse caminho e não se deixava intimidar pelos arroubos revolucionários cutistas ou petistas. A novidade consiste em que a CUT, na verdade, joga em várias frentes, vindo explicitamente a privilegiar uma via que tinha dificuldades em adotar. No caso dessa manifestação de 1º de maio ou, mesmo antes, em sua incrustação no Estado em busca de cargos, prebendas e financiamentos, ou ainda, em ter ministros no governo, ela mostra essa sua face “pelega”, adaptando-se ao status quo e abandonando, cada vez mais, o conceito de luta de classes enquanto norteador de suas ações. Sob esta ótica, poder-se-ia dizer que ela está realizando um processo de social-democratização, semelhante ao ocorrido com as centrais sindicais européias vinculadas à social-democracia. Ela está passando a participar mais plenamente do jogo da democracia, fazendo com que os seus membros usufruam de maiores vantagens sociais e, os seus líderes, de benefícios financeiros e de poder.
Os ventos parecem estar mudando. A Força Sindical, desde de há muito, trilhava esse caminho e não se deixava intimidar pelos arroubos revolucionários cutistas ou petistas. A novidade consiste em que a CUT, na verdade, joga em várias frentes, vindo explicitamente a privilegiar uma via que tinha dificuldades em adotar. No caso dessa manifestação de 1º de maio ou, mesmo antes, em sua incrustação no Estado em busca de cargos, prebendas e financiamentos, ou ainda, em ter ministros no governo, ela mostra essa sua face “pelega”, adaptando-se ao status quo e abandonando, cada vez mais, o conceito de luta de classes enquanto norteador de suas ações. Sob esta ótica, poder-se-ia dizer que ela está realizando um processo de social-democratização, semelhante ao ocorrido com as centrais sindicais européias vinculadas à social-democracia. Ela está passando a participar mais plenamente do jogo da democracia, fazendo com que os seus membros usufruam de maiores vantagens sociais e, os seus líderes, de benefícios financeiros e de poder.
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No entanto, esse processo não se faz sem percalços, nem reviravoltas. Dentre os percalços, se é que essa expressão é adequada, se situa a derrapagem de alguns de seus líderes na corrupção. Boa parte dos escândalos do governo Lula foi protagonizada por lideranças sindicais que confundiram a coisa pública com a sua coisa privada. Isto mostra que o processo de incorporação ao Estado não se faz sem riscos, que podem afetar inclusive a própria credibilidade sindical. Dentre as reviravoltas, situa-se a persistência de posições revolucionárias, que se manifestam, por exemplo, em sua aliança com o MST e em sua participação em algumas invasões, como as mais recentes no Estado de São Paulo. O “peleguismo” ainda não abandonou a revolução.
No entanto, esse processo não se faz sem percalços, nem reviravoltas. Dentre os percalços, se é que essa expressão é adequada, se situa a derrapagem de alguns de seus líderes na corrupção. Boa parte dos escândalos do governo Lula foi protagonizada por lideranças sindicais que confundiram a coisa pública com a sua coisa privada. Isto mostra que o processo de incorporação ao Estado não se faz sem riscos, que podem afetar inclusive a própria credibilidade sindical. Dentre as reviravoltas, situa-se a persistência de posições revolucionárias, que se manifestam, por exemplo, em sua aliança com o MST e em sua participação em algumas invasões, como as mais recentes no Estado de São Paulo. O “peleguismo” ainda não abandonou a revolução.