sexta-feira, maio 25, 2007

ENQUANTO ISSO...

Na contramão da responsabilidade
Editorial do Jornal do Brasil

Prestes a completar uma década, o Código Brasileiro de Trânsito passará por uma revisão. A iniciativa parlamentar contempla, na teoria, a necessidade de atualização das leis. Convém ajustar as defasagens, corrigir as falhas, aperfeiçoar os êxitos. Se o compromisso com o avanço curvar-se a interesses particulares e a proposta de aprimorar as normas transformar-se em palanque, será desperdiçada uma preciosa oportunidade para dirimir um dos infernos nacionais.

Depois de ligeira trégua, de 1997 a 1999, rodovias e ruas voltaram a acumular volume assombroso de acidentes. Matam, por ano, 35 mil. Outros milhares ficam feridos, carregam seqüelas da aventura de guiar pelo asfalto repleto de perigos.

Inconformados com a ineficácia do poder público para combater a estatística perversa, parentes e amigos das vítimas unem-se em torno de campanhas, cobranças, alertas. Buscam soluções efetivas.

O aprimoramento do novo Código e a mobilização social são passos importantes na luta contra a insegurança que ronda as estradas brasileiras. Mas revelam-se insuficientes diante da incidência crônica de colisões.

O desenvolvimento de vacinas exige esforços coordenados para resolver antigas incorreções. Grande parte delas - como a atrofia da verba pública destinada à educação dos motoristas - expõe a distância entre a teoria e a prática, entre o atraso do tráfego nacional e a civilidade necessária.

Pouco adianta tornar a lei mais rigorosa se os pilotos da administração pública e dos automóveis, debruçados na presunção da impunidade, deixam de cumprir o determinado. Só um terço dos R$ 147 milhões previstos em lei chegou ao programa Segurança e Educação de Trânsito, revela reportagem do Jornal do Brasil, na edição de domingo.

Os dois terços pendentes foram represados a fim de engordar o superávit federal, para facilitar a economia do governo central. Útil ao controle do gasto público - uma das condições essenciais ao sonhado crescimento - a ginástica contábil apresenta-se, por outro lado, frágil à responsabilidade de pavimentar a proteção de motoristas, passageiros, pedestres. Um deslize injustificável.

Assumir como gasto o desembolso indispensável à educação de trânsito mostra-se uma manobra, mais que inadequada, covarde. E um erro estratégico: os custos com as conseqüências da imprudência nas rodovias superam R$ 5 bilhões, constata o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A redução de colisões e mortes depende da conjugação entre treinamento adequado dos condutores, normas de trânsito severas, fiscalização ostensiva e engenharia de tráfego eficiente. Aplicada à risca há quatro décadas, a receita diminuiu significativamente os acidentes graves na Inglaterra. O exemplo serve de inspiração.

Anos de cadeia, multa pesada e perda da habilitação - inapeláveis - mantêm rara a embriaguez ao volante nas ruas inglesas. No Brasil, observa-se o oposto: consumo excessivo de bebidas alcoólicas ainda é uma das principais causas de batidas, ao lado da alta velocidade. Conservam o país na contramão.

Para banir a imprudência das ruas nacionais, será preciso mais do que o aperfeiçoamento do Código de Trânsito. Sem a certeza do cumprimento das leis, os avanços só acenderão o sinal verde às conveniências retóricas.


ENQUANTO ISSO...

Números impressionantes

O Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (Ipea) fez cálculos e concluiu que o prejuízo anual do Brasil com acidentes em estradas federais, estaduais e municipais é de R$ 22 bilhões. Segundo o diretor da Polícia Rodoviária Federal, Hélio Cardoso Derene, uma das saídas seria colocar policiais ao longo das estradas. Isso inibiria os acidentes.

COMENTANDO A NOTICIA: Isto é uma calamidade! Se compararmos o número de vítimas fatais que ocorrem no trânsito pelo Brasil afora, ao cabo de um ano, eles excedem ao total de vítimas dentre todos os países do chamado primeiro mundo. Somos campeoníssimos no quesito de desrespeito às mais elementares regras sejam nas estradas ou nas cidades. Claro que o lastimável estado em que as estradas se encontram, muito do que ali acontece, se pode simplesmente culpar as estradas. Mas, bastam cinco minutos de observação num cruzamento mais ou menos intenso de movimentação viária, em qualquer média ou grande cidade brasileira, para que cheguemos à triste comprovação de que o brasileiro não respeita absolutamente nada do que se poderia chamar de direção responsável. Aliás, não é apenas no trânsito, é ou são em muitas situações da vida diária que notamos o quanto estamos longe de sermos um povo civilizado, atento e obediente às leis e à ordem. Fica difícil culpar-se apenas políticos e bandidos pelo grau de violência e corrupção disseminados no país, pela razão de que todos eles são povo também.

Enquanto não formos educados para tanto, e não tivermos consciência de que o cumprimento às leis, às normas e regulamentos acaba sendo benéfico para todos, ficará difícil evitar operações navalha, furacão e outras assemelhadas. É preciso portanto que haja sim punição exemplar para todo aquele que transgredir leis que provocam mortes e vítimas com lesões muitas vezes definitivas. Ou nos tornamos civilizados ou continuaremos marcando passo na selvageria. Quando o prejuízo é de todos, acreditem, dirigir embriagado deixa de ser folclore e passa a ser crime bárbaro.