sexta-feira, maio 25, 2007

A grande idéia de Simonsen

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Espantado com as dimensões da gastança promovida pelo governo Emílio Médici (1969-1974), o economista Mário Henrique Simonsen propôs a criação de uma unidade monetária fictícia: o andreazza. Assim batizada em homenagem ao coronel Mário Andreazza, promovido a marechal do Brasil Grande depois de conquistar o Ministério do Interior, cada unidade valeria 1 trilhão de cruzeiros, a moeda da época.

Aposentar esse desmoralizado bisavô do real não estancaria o desperdício, ironizava Simonsen. Mas ao menos desapareceriam as inverossímeis procissões de zeros que assombravam os canteiros de obras. A Transamazônica, por exemplo, não consumiria montanhas de cruzeiros para ligar o deserto árido ao deserto úmido. Só um punhado de andreazzas.

Mestre da fina ironia, uma forma superior de inteligência, o professor Mário Henrique Simonsen também dava aulas de racionalidade na formulação de possíveis saídas para os problemas econômicos do país. Nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Ernesto Geisel, sucessor de Médici, traçou caminhos para reduzir o esbanjamento, a inflação e a roubalheira. Tentou percorrê-los enquanto esteve no cargo.

Resolveu voltar para casa em 1979, quando Geisel já transferira a chefia do governo para João Figueiredo, o último dos generais-presidentes. Liberado dos votos de discrição impostos a ministros leais, Simonsen voltou a mover-se sem constrangimentos nos campos do sarcasmo. Num momento de especial inspiração, formulou a idéia ainda mais inventiva que o andreazza: a criação de uma Comissão das Comissões.

Durante a longa permanência no coração do poder, Simonsen tivera amplamente confirmada a suspeita de que obras públicas são concebidas para melhorar não a vida dos habitantes de determinada região, mas a conta bancária dos idealizadores do projeto. "Com raríssimas exceções, eles nunca estão interessados na obra em si, mas na porcentagem que ganharão de presente dos construtores", constatou o ministro. "O que lhes interessa é a comissão".

Ao organismo inventado por Simonsen caberia tratar de cada caso sem rodeios, papelórios burocráticos ou minuetos administrativos. Se um deputado sugerisse, por exemplo, a construção de uma ponte onde não existem sequer vestígios de rio, seria convidado pela Comissão das Comissões a revelar quanto levaria nesse saque legalizado aos cofres do governo. "Ele receberia a porcentagem combinada, sem nenhum desconto", sorria o pai da idéia. "Mas a obra seria cancelada, e o Brasil perderia muito menos dinheiro".

Passados quase 30 anos, o painel forjado pela roubalheira federal, agora ampliado pelos estarrecedores matizes da Operação Navalha, informa que o País do Carnaval consumou a revogação do absurdo. Hoje, ao som da lira do delírio, a fantasia desenhada pelo mestre da ironia morto em 1996, aos 62 anos, talvez mereça ser examinada com carinho e atenção.

Se a Comissão das Comissões existisse, o ex-governador maranhense José Reinaldo Tavares teria sido presenteado com um carro novo pelo empreiteiro Zuleido Veras. João Alves Neto, filho do ex-governador sergipano, estaria gastando por aí a bolada oferecida pela construtora Gautama. Mas seríamos poupados de monumentos à gastança especialmente afrontosos. Todos foram erigidos em terras devastadas pela miséria. E muitos se apóiam nos alicerces do cinismo.

É o caso dos viadutos que ligam trechos de estradas inexistentes. Ou da malha de pontes projetadas sobre as gotas d'água ocultas nos mandacarus. Se estivesse vivo, é improvável que Simonsen conseguisse amparar-se no humor. As coisas foram longe demais. Ele decerto se juntaria ao coro dos que exigem cadeia para os ladrões do Brasil.